Carta à Dona Copa e aos Brasileiros

Foto: Getty Images - A Copa do Mundo mobilizou e uniu povos de todo o mundo

Foto: Getty Images – A Copa do Mundo mobilizou e uniu povos de todo o mundo

Por O Futebólogo

Quando, no longínquo dia 30 de outubro de 2007, nós, brasileiros, fomos brindados com a estonteante notícia de que sediaríamos a Copa do Mundo de 2014, enchemo-nos de orgulho e expectativa. Sessenta e quatro anos após o primeiro mundial disputado em terras verde-amarelas, quando os jogos ocorreram nos precários Estádio Independência (Belo Horizonte), Vila Capanema (Curitiba), Estádio dos Eucaliptos (Porto Alegre), Ilha do Retiro (Recife), Pacaembu (São Paulo) e no já gigante e imponente Maracanã (Rio de Janeiro), voltaríamos a ser o centro do mundo, pelo menos por um mês.

Ainda que a notícia tenha sido recebida com enorme louvor, pouco a pouco, o espetáculo imaginado começou a tomar outros contornos. Entravam em cena os jogos de poder, as incertezas, a manipulação política do evento, dos dois lados majoritários, da situação e da oposição. Os gastos excessivos, desnecessários e crescentes passaram a permear discussões desde a alta cúpula do governo até as mesas dos mais sórdidos botequins de esquina. Da noite para o dia, não sabíamos se seriamos capazes de receber tal evento. Pressionados estávamos, principalmente pelo crítico Secretário-Geral da FIFA, Jérôme Valcke.

Na Copa das Confederações, um ano antes da Copa, com inúmeras reinvindicações, algumas justas e válidas – outras nem tanto –, manifestações (que incluíram episódios de animalesca violência) assolaram todo o país. O brasileiro aproveitou-se (legitimamente) do zoom midiático que observava o Brasil para se mobilizar por melhoras.

Tudo isso passou. A Copa veio. O Mundo veio.

Novamente mobilizados, os brasileiros de todo a extensão territorial tupiniquim receberam com elegância inglesa e humor tipicamente brasileiro todos os forasteiros. Nós, que tanto reclamamos da falta de educação diária de nossos iguais, das más condições dos transportes e da violência, como verdadeiros lordes, mostramos como se recebe alguém. Com raras exceções, como uma estúpida briga entre brasileiros e argentinos em Belo Horizonte, demos lição de civilidade. Por isso, Dona Copa, gostaria de lhe agradecer pelo que vossa presença provocou neste rico país, que ainda vive problemas com sua identidade.

Obrigado pela invasão sul-americana, pelo calor de argentinos, colombianos, chilenos, equatorianos e uruguaios. Obrigado por nos presentear com o cáustico humor inglês, com a alegria e esperança dos africanos e com as perucas que imitaram o belga Marouane Fellaini. Obrigado por nos colocar em contato com a tão criticada cultura árabe, nos provando, mais uma vez, a igualdade da raça humana. E mais! Obrigado por nos permitir ver o arrebatador futebol da improvável Costa Rica. Obrigado pelas arrancadas de Arjen Robben e pela luta imensa da Argélia. Pelo que os iranianos fizeram contra a Argentina, muito obrigado.

Foi realmente uma pena não termos contado com as ilustres presenças de craques como Falcao García, Marco Reus, Riccardo Montolivo e Franck Ribery, todos lesionados, mas, mesmo assim, o que se viu foi fantástico. Obrigado por nos permitir fazer a Copa das Copas. Vivemos um mês mágico. Fizemos um mês mágico. Nos provamos capazes e fomos ricamente elogiados pelo mundo. Europeus, africanos, asiáticos e americanos relataram sua positiva experiência em uníssono. Se nós vivemos um sonho, imagina eles?

Por tudo isso, pelas lições que recebemos e, sim, demos, quero agradecer a todos os envolvidos. Os resultados em campo são o menos importante. Sim, belos gols como o de James Rodríguez contra o Uruguai foram fundamentais para o sucesso, mas o ponto-chave esteve fora dele. Renovamos nossas esperanças e autoestima.

Brasileiros, a bola está agora com vocês. Se fomos gentilíssimos com os estrangeiros por que não fazermos o mesmo no nosso dia-a-dia? Paciência com o próximo, disposição em ajudá-lo, e, principalmente, educação – respeito integral às diferenças é o que faz uma nação melhor. Pensemos positivo! Muito se fala de um legado morto, recheado de Elefantes Brancos. Lutemos contra essa realidade! Lutemos para que todos os estádios continuem tendo alguma destinação, ainda que não seja só com o futebol. Não cruzemos os braços e voltemo-nos para nossos umbigos.

Vamos protestar, mas vamos fazer. Podemos. Provamos que podemos.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.