Futebol de chuteiras pretas

  • por Rogério Júnior
  • 6 Anos atrás

Paulo Henrique Ganso é um dos raros jogadores de futebol que conseguem provocar uma espécie de sentimento díspar em diferentes torcedores. Com o meio campista não há o famoso meio termo, pois ou você o ama ou o detesta.

A antipatia sobre ele decorre principalmente de seu estilo jogo, que apresenta características marcantes de um futebol um tanto quanto distante, da fase clássica do esporte bretão, da tão saudosa era romântica. Ganso é o filho solitário desse modelo de jogo, exibe um vestígio evidente de futebol jogado outrora no Brasil. Exatamente por isso é visto com maus olhos por parte da torcida, imprensa e de alguns especialistas da bola, pelo simples fato de não obedecer à modernidade que toma conta até mesmo do futebol.

Responsável pela até então transferência mais cara de toda a história do futebol nacional (envolvendo dois clubes do país), o meia de 24 anos esbanja classe, possui técnica refinada, categoria bastante peculiar, visão de jogo magnífica, além de uma personalidade fortíssima, observada na final do Campeonato Paulista de 2010, quando se recusou a deixar o gramado da Vila Belmiro, na partida diante do Santo André, forçando o treinador Dorival Júnior a tirar outro jogador da cancha.

Mesmo taxado como lento, preguiçoso, alheio ao contexto de determinadas partidas por aparecer muito pouco no jogo, Ganso vira e mexe recebe elogios que evidenciam uma característica idiossincrática de jogar futebol. Perguntado sobre o papel do jogador no time do São Paulo, Rogério Ceni foi enfático e rasgou elogios no início da temporada passada. “O Ganso é um jogador importantíssimo, um dos caras mais talentosos que já vi. A facilidade para tocar a bola, ele antevê a jogada, é um jogador extremamente inteligente. Precisamos cada vez mais da parte física dele. É o jogador mais inteligente que já vi. A facilidade de raciocínio dele é muito grande, e a técnica é muito apurada”, disse o fascinado goleiro.

Ao lado do também são-paulino Osvaldo, Ganso é o atual líder de assistências pra gol no Campeonato Brasileiro, o que mostra que seu contestado estilo de jogo ainda funciona. Ao todo, são seis participações em gols, divididas em duas bolas deixadas na rede de maneira autoral, diante do Flamengo, e outras quatro milimétricas assistências.

O repertório é vasto. Na estreia contra o Botafogo, cumpriu o que Muricy Ramalho tanto ordena, entrando na pequena área e entregando o gol de bandeja a Luis Fabiano. Já contra o Corinthians, em partida disputa em Barueri, deu mostras claras de sua genialidade ao deixar Luis Fabiano novamente de cara para o gol. Mesmo cercado por três defensores corintianos, conseguiu, de forma cirúrgica, encontrar o centroavante tricolor. Contra Coritiba e Grêmio, Ganso usou do artifício da bola parada, lançando para Ademilson e Lucão, respectivamente, concluírem a gol.

Além de liderar o quesito de participações em gols no campeonato, Ganso também é detentor de outros números que o colocam como um dos principais jogadores desta edição de Brasileirão e um dos pilares da equipe paulista, que ocupa a quarta posição da tabela. A média de passes errados é de apenas quatro por jogo, mesmo tendo acertado outros 51, por exemplo, contra o Corinthians. Terceiro jogador que mais finaliza e lança no time, o segundo que mais cruza e dribla, o quarto que mais desarma, o gênio de Ananindeua pede passagem no Brasil, visa o mercado europeu e especula uma nova chance na seleção brasileira, caso continue conseguindo aliar eficiência e dom no mesmo repertório.

O futebol suplica: deem uma chance ao talento raro de Paulo Henrique Ganso.

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Curitibano, jornalista, 24 anos. Apaixonado pela bola, apegado pelas canchas e admirador do povão que as frequentam. Apreciador do futebol, seja ele jogado na final da Copa do Mundo ou numa singela rodada da terceirona gaúcha.