Ingressos padrão FIFA

Com o término da Copa, nossa atenção se volta novamente ao futebol brasileiro, aos jogos feios, muitas vezes em horários inacreditáveis (sério, de quem foi a ideia de pôr um jogo de futebol no sábado às 21h?). Mas em um aspecto ainda estamos no tão aclamado padrão FIFA: o preço dos ingressos.

Com os preços atuais, os setores que mais lotam são atrás do gol, mais baratos

Com os preços atuais, os setores que mais lotam são atrás do gol, mais baratos (Foto: Tiago Leme/ESPN)


Neste recomeço de campeonato brasileiro, os preços divulgados pelo Inter e pelo Corinthians foram alvos de muitas reclamações. No Beira-Rio, o ingresso mais barato custa R$ 80,00 (1). Sócio adimplente paga 50%, estudantes e idosos idem. Com isso, é possível assistir ao jogo na arquibancada superior por R$ 40,00. Na inferior, mais próxima do gramado, o preço para não-sócios é R$ 100,00.

Já na Arena Corinthians, 20 mil ingressos já foram vendidos aos sócios. Os que foram disponibilizados custam R$ 180,00, R$ 250,00 ou R$ 400,00 (2). Este último é o setor VIP, com regalias, como comidas e bebidas. Além disso, há a possibilidade de meia-entrada. Por outro lado, o Cruzeiro tem preços mais satisfatórios: para sócios, o ingresso mais barato custa R$ 35,00 e R$ 50,00 para o público em geral (3).

Os dirigentes afirmam que os preços estão neste nível por causa dos custos que esses estádios, agora mais modernos e luxuosos, apresentam. José Amarante, diretor do Inter, explica que o custo de manutenção do estádio é de 250 mil reais por jogo, e que, de um faturamento bruto de 1 milhão, após liquidar as despesas, o clube lucra aproximadamente R$ 280 mil (4).

É possível que nos primeiros jogos, a ocupação seja próxima dos 100%. Porém, a médio e longo prazo, os preços altos tendem a fazer com que as novas arenas tenham média de público praticamente igual aos estádios antigos. O torcedor médio simplesmente não pode abrir mão de tanto dinheiro para acompanhar seu time. Nesta matéria da RBS, é citado que o Maracanã possui média de público inferior a 30 mil pessoas, sendo que o estádio comporta mais de 70. Pouco, muito pouco.

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Foto: Gilmar Laignier/Superesportes – MG


Dirigentes, técnicos e jornalistas amam falar que as torcidas organizadas e a violência nos estádios afastam as famílias que querem assistir aos jogos in loco. Sim, de fato afastam. Mas não é o único fator. Vamos fazer um pequeno exercício de matemática: supondo uma família de quatro integrantes (o pai, a mãe e dois filhos), o custo total para assistir à partida entre Inter e Flamengo não sai por menos de R$ 300,00. Caso o casal seja sócio-torcedor, já começam pagando R$ 80,00 (o plano de sócio-torcedor do Inter, para quem mora em Porto Alegre e região metropolitana é de R$ 40,00), para ter direito aos 50% de desconto. Como os dois filhos são estudantes e pagam “meia”, a entrada custará R$ 160,00 (R$ 40,00 x 4). Isso sem contar alguma bebida ou comida que, porventura, consumirem, o que facilmente pode chegar a R$ 20,00. O estacionamento no edifício-garagem do Inter é R$ 30,00. Somando tudo isso, dá R$ 290,00. Sim, quase 300 reais pra um jogo de futebol, um entretenimento que dura duas horas.

Tomando por base o salário-mínimo em vigor, R$ 724,00, os 290 reais correspondem a pouco mais de 40%. Para ir ao estádio, se faz necessário todo um planejamento nas contas familiares. A parte mais irônica é que, por menos de 1/3 deste valor, é possível assinar o Premiere, e assistir todos os jogos do time em casa. Uma pesquisa feita na UFRGS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, comparou o preço mais barato dos jogos no Beira-Rio desde 1992 até 2010. Chegou a conclusão óbvia: os ingressos agora ocupam um percentual bastante alto no salário-mínimo (5). Na final da Copa do Brasil de 1992, o ingresso mais barato custou Cr$ 15.000,00 o que representava 2,87% da renda. Na final da Libertadores de 2010, o ingresso mais barato, R$ 100,00 correspondeu a 19,06% do salário-mínimo.

A Alemanha, que faturou o tetra nessa Copa, é o exemplo a ser seguido. A média de ocupação dos estádios da Bundesliga é de inacreditáveis 95% (6). E não tem nenhum segredo pra isso: proporcionalmente ao salário-mínimo alemão, o preço do ingresso é muito barato ao torcedor. Andreas Retting, um dos diretores da liga, deixa isso bem claro nesta entrevista ao Lance.

Uli Hoeness, ex-presidente do Bayern de Munique, sintetizou a questão: “Nós não pensamos que os torcedores são vacas a serem ordenhadas. O futebol tem que ser para todos. Esta é a grande diferença entre nós e a Inglaterra” (7). A Inglaterra é a segunda liga com maior ocupação média dos estádios.

Após o massacre alemão sobre o Brasil, muito tem se falado sobre as reformulações das quais o futebol brasileiro precisa. Então, que comece pela questão da torcida nos estádios. Se tiver sucesso nisso, já será um grande feito.

 Referências

1 – http://www.internacional.com.br/socios/pagina.php?modulo=14&setor=151&codigo=23334

2- http://www.corinthians.com.br/site/noticias/2014/07/14/10h04-id23018-corinthians-x-internacional—venda-nas-bilheterias-comeca-nesta-terca.shtml#.U8XNuhaTGrl

3 – http://www.cruzeiro.com.br/index.php?section=conteudo&id=4976

4 – http://wp.clicrbs.com.br/duplaexplosiva/2014/07/15/beira-rio-mantera-precos-dos-ingressos-para-bancar-o-alto-custo-do-novo-estadio/?topo=52,1,1,,224,e224

5 – http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/47787/Poster_10305.pdf?sequence=2

6 –  http://globoesporte.globo.com/platb/olharcronicoesportivo/2013/07/27/brasil-despenca-no-ranking-mundial-de-ocupacao-dos-estadios/

7 – http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/05/140516_copa2014_alemanha_legado_estadio_rw.shtml

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Gaúcho, colorado e estudante de Engenharia de Computação. Doente por futebol desde que se entende por gente. Joga futsal nas horas vagas. A cada dois jogos, uma lesão.