Lições de uma tragédia

Imagem: Wikipedia/Divulgação

Imagem: Wikipedia/Divulgação

Há 15 anos, após conquistar sua segunda Copa América seguida, a Seleção Brasileira comandada por Vanderlei Luxemburgo abriu mão de suas principais estrelas e rumou para o México visando a disputa da Copa das Confederações. Na estreia, um baile de 4×0 sobre uma envelhecida Alemanha. Naquele momento, olhando para nós mesmos, demos pouca importância ao que acontecia do outro lado. Uma das maiores camisas do futebol se encontrava em sérios apuros. Por incrível que pareça, ainda chegaram à final do Mundial de 2002 amparados pela grande fase do meia Michael Ballack, do então jovem artilheiro Miroslav Klose e da muralha Oliver Kahn. Desta vez, perderam por um placar menos elástico para o mesmo Brasil, porém estava claro que alguma coisa precisava mudar.

E os alemães mudaram. O futebol de força que utilizava líbero e atuava de forma mais espaçada deu lugar a um futebol técnico, compacto, fluído e, sobretudo, coletivo. Os resultados voltaram a acontecer, os títulos ainda não, mas não restam muitas dúvidas de que o caminho tomado estava certo. Depois dos 7×1 sofridos pelo Brasil no Mineirão, a maior derrota de nossa história, é inevitável que a reflexão mude de lado. O perigo está em não identificar os problemas de forma correta, algo que um resultado tão massacrante pode induzir.

A primeira reação é apontar o dedo para o futebol praticado no País. Dirigentes corruptos, calendário absurdo, métodos de treinamento ultrapassados, tudo isso realmente existe e precisa ser sanado. No entanto, nem todas as respostas se encontram aí. Neste 8 de julho, nove jogadores que iniciaram a partida atuam em clubes europeus e são comandados pelos principais treinadores do planeta. Os outros dois, o goleiro Júlio César e o atacante Fred, também militaram no Velho Continente. Portanto, falar em diferença entre o futebol praticado no Brasil e na Europa seria, pelo menos diretamente, um equívoco.

Antes de tudo, é preciso entender o que foi esta derrota. A maneira como ela aconteceu. Depois de um início onde a vontade era maior do que a organização, a Seleção Brasileira deu mostras de que pretendia encarar a Alemanha de frente. Marcelo chegou a finalizar com perigo e um duelo equilibrado parecia surgir. Até que a Seleção sofreu o primeiro gol. Talvez pela ausência de Neymar, sua principal referência, e quem sabe por não apresentar uma estrutura tática capaz de reagir, o Brasil sofreu mais um gol. A partir dali, os três gols subsequentes foram resultado de uma equipe intensa e bem postada contra outra emocionalmente destruída. Com os 5×0, ao fim da etapa inicial ficou claro que a eliminação estava sacramentada.

Não é por coincidência que as duas derrotas mais dolorosas da Seleção nos últimos tempos esbarraram justamente no aspecto psicológico, que não encontrava respaldo na organização. Em 1998, na França, uma equipe desnorteada pela convulsão de Ronaldo e mal organizada em campo por Zagallo levou 3×0 dos donos da casa. Agora, um time que trazia consigo um crônico problema de transição e se ancorava em Neymar viu tudo ruir quando seu craque deixou a competição. Em ambos os casos, sofremos pela falta de uma equipe coesa o bastante para trabalhar nas adversidades. Como escreveu o analista de desempenho do Grêmio, Eduardo Cecconi, não é possível prescindir de organização no futebol moderno. Isso vale para clubes e seleções. Que o próximo técnico do Brasil seja escolhido por critérios técnicos e táticos, mesmo que sabendo que o lado psicológico também é relevante. E que este último aspecto não funciona sem os primeiros.

Comentários

Fanático por futebol em nível não recomendável. Co-autor do livro “É Tetra! - A conquista que ajudou a mudar o Brasil”.