Medo do segundo tempo

Foto: Superesportes

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Há quem esteja com medo da Colômbia. Falam de James Rodríguez e de Juan Cuadrado. Elogiam também Jackson Martínez, Pablo Armero e os outros “negros maravilhosos” [/Luís Roberto] do time de José Pekerman.

Para outros, o medo é da própria seleção brasileira. Temor do futebol apresentado até agora. Do centroavante que rende mais jogando deitado do que em pé. Do volante que não vai jogar. Do lateral marrento que tem futebol inversamente proporcional. Medo do choro (essa cortina de fumaça que esconde os reais problemas do time).

Muitos até tem medo de coisas sem relação com a partida em si, como a pressão que pode subir, com o piripaque que pode dar nos idosos do sofá, com a pipoca queimando no micro-ondas, com o refrigerante congelando, com a cerveja esquentando, com o vizinho que vai gritar gol antes porque ele assiste ao jogo naquelas antigas TVs com antenas com Bombril na ponta, enquanto você, um pobre coitado, assiste na TV fechada em HD.

Não tenho medo da Colômbia. Respeito os caras, evidentemente. Não chegaram até aqui por acaso e se forem além também não será algo casual. Em uma Copa do Mundo onde a seleção da Concacaf que vai longe é a Costa Rica, e não as tarimbadas México e Estados Unidos, é bom respeitar todos.

Também não penso nos quitutes, porque a última coisa que vou pensar durante o jogo é em comer ou beber. O vizinho? Dane-se, sou mais barulhento.

Meu medo de Brasil x Colômbia é um tanto quanto peculiar. Meu temor é com o segundo tempo do jogo. Se a chance de queda monumental em pleno Castelão é real, é por causa dos malditos 45 minutos finais de partida. Felipão e seus Blue Caps parecem ter o mesmo trauma que eu e simplesmente esquecem-se de jogar bola, não se lembram da tal “ousadia e alegria”.

Contra a Croácia, logo na abertura do maior evento esportivo que este imenso país sediou, o segundo tempo me deixava com a nítida certeza que o time de camisa de toalha de piquenique levaria um pontinho ao menos. Até que o Jaspion que apitava o jogo deu um golpe fatal nos europeus com o pênalti no Cone… Digo Fred.

Na segunda partida, diante do México, mais pavor. Honrando a comida local, os mexicanos foram apimentados para a etapa final e começaram a chutar de todos os cantos do gramado, colocando o até então goleiro do Toronto FC (hoje já elevaram o status dele) a prova. Como o arqueiro adversário também trabalhou muito, a sensação que passava era de que os canais esportivos estavam transmitindo uma sessão de 90 minutos das reações da bunda de um nenê: poderia sair qualquer coisa dali.

(Vamos ignorar sumariamente o jogo contra Camarões por razões óbvias)

E contra o Chile, então? Mais agonia. Neymar não tocou na bola no segundo tempo. O gol (bem) anulado de Hulk saiu em uma esporádica boa trama brasileira. Enquanto isso, quanto mais os jogadores chilenos ouviam “chi-chi-chi, le-le-le, viva Chile!” no Mineirão, mais passes eles trocavam. Isso que só falo da segunda etapa, ignorando todo drama da prorrogação e dos pênaltis.

Aí você para e reflete: dos 12 gols colombianos na Copa do Mundo, oito saíram nos 45 minutos finais dos jogos. Em seguida, lembro que eles não precisaram passar por prorrogação contra o Uruguai e, teoricamente, estarão mais inteiros fisicamente para aguentar o ritmo do jogo.

Felipão pensa a mesma coisa e decide agir.

– Vou ver quem está no banco – diz o gaúcho de bigode.

O primeiro que vê sentadinho, como se esperasse o momento em que fosse chamado pela professora na sala de aula na hora da correção da prova, é .

E assim o medo de o segundo tempo se tornar uma trágica tarde de sexta-feira me apavora mais ainda.

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.