Neymar não pode ser maior do que a Seleção

Foto: Divulgação/Rafael Ribeiro/CBF.com.br

Foto: Divulgação/Rafael Ribeiro/CBF.com.br

Torcedores, fãs e tietes se espremem à beira do gramado. A Seleção treina na Granja Comary. De repente, começa o furdunço. Gritos mais estridentes e efusivos já se destacam em meio ao resto do barulho. Câmeras fotográficas disparam freneticamente: ele vem chegando. Passo cuidadoso, de quem ainda se recupera de uma fratura grave, mas cheio de autoconfiança.

Ele adentra a cancha. O treinamento é sumariamente interrompido, e todos os presentes rapidamente se aglutinam em sua volta, como mariposas em torno de um candeeiro. Cumprimenta o grupo, troca palavras rápidas e, sem pressa, começa a ir embora. Sorrindo, olha para os flashes, acena. Acena, sorri e se dirige às instalações da granja, onde logo depois seria o grande astro da entrevista coletiva.

Essa cena aconteceu na tarde da quinta-feira, dia 10 de julho de 2014. Dois dias após o Brasil protagonizar a maior humilhação de uma equipe na história de qualquer esporte. Neymar, grande desfalque na ocasião, retornava à Granja Comary para tentar, de alguma maneira, dar motivação ao emocionalmente esfacelado grupo de jogadores que disputaria, em dois dias, o terceiro lugar contra a Holanda.

Até que veio a deprimente partida entre os dois derrotados das semifinais, e o Brasil saiu de campo novamente destruído. Perdeu por 3 a 0, mostrou os mesmos problemas (ou o mesmo “apagão”, diriam outros) apresentados contra a Alemanha, e deixou a Copa completamente desmoralizado. Após o jogo, na coletiva, Felipão tentava se justificar e defender seu “trabalho perfeito” quando, do nada, Neymar irrompe a sala de entrevista, e interrompe a resposta do seu treinador para lhe dar um abraço.

O camisa 10 não esteve em campo no Estádio Nacional, em Brasília. Tampouco jogou no Mineirão contra os alemães. Mas em função de sua chegada na concentração, todo o trabalho foi deixado de lado. Toda a concentração na preparação para o confronto que poderia ter aliviado o estado de catarse provocado pelo atropelamento de Belo Horizonte foi, por alguns instantes, esquecida. Da mesma forma, o precioso tempo da coletiva pós-jogo teve que ser abreviado para que ele mostrasse sua solidariedade para com o comandante. Tudo para que entrasse em cena ele, o menino de ouro, que ao longo dos últimos quatro anos vem sendo alçado à condição de principal ícone cultural e esportivo do país.

Ele está sempre presente (Foto: Divulgação/Rafael Ribeiro/CBF.com.br)

Ele está sempre presente (Foto: Divulgação/Rafael Ribeiro/CBF.com.br).

Neymar nem deve saber como ser diferente. A discrição é algo que há muito tempo não faz mais parte de sua vida: seu carisma e sua exposição constante na mídia o colocaram na condição de um verdadeiro pop star. Agenciado por hábeis homens de negócios praticamente desde o berço, o menino cresceu e, graças ao seu descomunal talento, se tornou um sinônimo de sucesso profissional. Exatamente por isso, virou também um produto valiosíssimo, cuja imagem interessa a qualquer grande marca ou empresa. E no âmbito da Seleção, ele se transformou também em referencial técnico de uma geração. O que de certa forma explica a chegada messiânica e a recepção calorosa no treinamento da tarde desta quinta-feira.

Acima de qualquer outro aspecto da Seleção nesse último mês, esteve aquele que tem sido tema central do futebol brasileiro: Neymar. Antes da Copa, se discutia se ele suportaria a pressão. Quando ele jogou bem, como na estreia fulgurosa, se louvou sua presença. Quando não conseguiu ser tão determinante, se questionou: estaria ele oscilando? Até quando não pôde estar em campo, seguiu sendo o foco: o time conseguiria existir sem ele? Não dava para esperar, portanto, comportamento diferente de jogadores, comissão técnica e imprensa num momento como o de sua volta. Mesmo que ela tenha se dado às vésperas de um jogo que, devido às circunstâncias, se tornou importante.

Mas ainda que Neymar seja absolutamente indispensável dentro de campo, a figura do craque não pode representar algo tão impactante e vital para uma seleção de tradição centenária que, até o fatídico 7 a 1, era tida como maior instituição do futebol. Simplesmente não é saudável para ninguém.

Pois ao se submeter a essa condição, a Seleção perde sua soberania, seu poder de autodeterminação. Podendo chegar, por exemplo, a permitir que a ação de parceiros comerciais de seus próprios atletas interfira na esfera desportiva, no futebol efetivamente praticado. E ao compactuar com o tratamento e assumir a responsabilidade de ser uma celebridade descomunal em relação ao esporte e até mesmo à sociedade brasileira, Neymar joga ainda mais pressão sobre a década de carreira que ainda lhe espera. Algo que pode facilmente se converter em rejeição extrema, em caso de novos fracassos.

(… e mirando o horizonte, alguém duvida que eles virão?)

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.