O amigável fim de um sonho infinito

#487663441 / gettyimages.com I R10 foi muito importante no crescimento do Galo

Por O Futebólogo

Maio de 2012: sem receber salários, Ronaldinho Gaúcho rescindia seu contrato unilateralmente com o Flamengo. Tido por muitos como ex-jogador, rapidamente, e com muita discrição, o showman aportou em Vespasiano, onde, na Cidade do Galo, assinaria com o Atlético. Pela primeira em sua carreira por baixo, preferiu a calma das Minas Gerais para se reinventar e, ao final, provar que considerá-lo inútil para o futebol era um erro crasso.

Em meados da tarde do dia 04 de junho de 2012, o rejeitável jogador chegou ao alvinegro e, como em um passe de mágica, virou ídolo. Antes mesmo de pisar no gramado, já em sua apresentação, ao vestir a camisa do Galo, o torcedor mudou seu modo de pensar. Depois de tanto sofrer com anos difíceis, uma acachapante goleada contra o rival Cruzeiro – que ainda salvou-se de um inédito rebaixamento com o resultado –, e investimentos infrutíferos, o torcedor sentiu que a hora da virada chegara. O que, de fato, se confirmaria.

Sob a batuta de Cuca, amigo pessoal de seu irmão e empresário Assis, Ronaldinho, que assumira a camisa 49 (em homenagem ao ano de nascimento de sua mãe), em função do tradicional número 10 pertencer, à época, ao atacante Guilherme, estreou contra o Palmeiras e, já na partida inaugural, mostrou suas credenciais. Jogando centralizado, mostrou muita disposição e grande qualidade de retenção da bola, distribuição de jogo e dribles, como o chapéu aplicado em Márcio Araújo.

O primeiro gol veio contra o Náutico, de pênalti, na goleada por 5×1, sua primeira partida no Estádio Independência. Ovacionado deste o primeiro passo que deu no Horto, será eternamente lembrado pelo apaixonado cântico: “Êo, êo, Ronaldinho é o terror”, sempre acompanhado de longas e profundas reverências. A esse gol, somaram-se outros 27 tentos, além das muitas grandes atuações. No primeiro clássico contra o Cruzeiro, marcou um gol que encheu o coração alvinegro de alegria. Lembrando seus melhores momentos no Barcelona, o meia conduziu a bola desde o campo de defesa, passou por Lucas Silva e Marcelo Oliveira como se seus marcadores não existissem e balançou as redes do goleiro Fábio.

[youtube id=”QMVGFVFOENs” width=”620″ height=”360″]

Contra o Figueirense, no mesmo ano, marcaria seu único hat-trick pelo Galo. No mesmo encontro, que terminou em 6×0 e ficou marcado por um gol de falta por baixo da barreira – uma de suas várias marcas registradas –, também daria duas assistência.

Em sua primeira temporada, que terminou com o vice-campeonato brasileiro e um aguardado retorno do Atlético à Libertadores da América, Ronaldinho criou um elo irrompível com a torcida do Galo. Era a peça que faltava, o comandante. Com ele, Bernard se tornou um grande jogador e Jô firmou sólido pacto com as redes. Aliás, o centroavante alvinegro é parte crucial para o sucesso de R10. Amigos, demonstraram incrível sintonia no campo.

Em 2013, ainda mais motivado, principalmente pela disputa da Copa Libertadores – um título que ele não possuía – e com a volta de Felipão à Seleção Brasileira, Ronaldo voltou a ser convocado – sem ter tido, contudo, bom desempenho – e foi peça vital para o mais importante título da história do Atlético. Seus quatro gols e várias assistências foram absolutamente extraordinários para a conquista alvinegra. Nesse meio tempo, ainda participou da vitoriosa campanha do título mineiro do Galo, tendo excelente atuação no primeiro jogo da finalíssima, que terminou 3×0 para o alvinegro, um dos gols com assistência do craque.

#166856188 / gettyimages.com I R10 foi muito bem na Copa Libertadores de 2013

Contudo, a não convocação para a Copa das Confederações e um lesão que se seguiu ao título continental pareceram desanimar Ronaldinho, que não mais voltou à sua melhor forma. Ainda marcaria importantes gols e daria muitos passes açucarados. Os tentos marcados na empreitada fracassada do Mundial de Clubes registram a qualidade de seu desempenho. Com o fim do ano, Cuca deixou o clube e a coisa desandou. Ainda amado pelo torcedor do Galo, Ronaldinho passou a vagar em campo, apático. Sua alma e seu espírito não pareciam mais estar totalmente focados na equipe.

Sem objetivos muito bem definidos e sofrendo, também, com uma lesão e com a má fase do clube sob a gestão de Paulo Autuori, decaiu muito. A vinda de Levir Culpi, que passou a substituí-lo constantemente foi a gota d’água. Desmotivado, defendeu o Galo pela última vez contra o Lanús, na atribulada final da Recopa Sul-Americana, quando sua atitude ao abraçar seus companheiros e acenar para o torcedor apontava o fim de seu ciclo do Galo. Um ciclo tão intenso, que parecia que duraria para sempre.

De contrato rescindido amigavelmente, Ronaldo sai do clube por cima, deixando a porta aberta. Apesar da queda de sua forma, sempre será querido no Atlético. Seu lugar na prateleira dos maiores de todos os tempos do clube está indelevelmente ocupado. O sonho do torcedor de ver um craque de classe mundial defender suas cores foi vivido tão intimamente, que parecia que nunca acabaria. Por fim, chegou a hora. Com muita gratidão das duas partes, o adeus foi concretizado.

Como R49 ou R10, marcou época. E reconheceu a importância de sua passagem pelo Galo dizendo que a “parceria deu muito certo!!”. Um sonho que parecia infinito chegou ao fim, mas a tristeza do torcedor com o fim da “parceria” nunca poderá ser comparada à glória que foi ver, durante dois grandes anos, o desfile de imprevisível qualidade, assistências e gols magistrais. Ronaldinho elevou o patamar do Atlético e a equipe recuperou o craque. Com objetivos saciados pelas duas partes, a despedida era inevitável. Ronaldinho vai, mas suas conquistas e a memória de sua passagem jamais deixarão o coração alvinegro, que hoje, com tristeza, sinceridade e satisfação diz: obrigado, Ronaldinho!

Comentários

Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.