Palmas para as Raposas do Deserto

Foto: Julian Finney/Getty Images - Valente, o grupo argelino lutou até o fim

Foto: Julian Finney/Getty Images – Valente, o grupo argelino lutou até o fim

Por O Futebólogo

Longe do sufocante calor do nordeste e da umidade extrema do norte, a poderosa Alemanha suou como nunca. No início da decisão da vaga às quartas de final da Copa do Mundo, a cidade de Porto Alegre registrava apenas 14 °C de temperatura. Não foi o tempo que inibiu as ações germânicas, tolheu-lhes os espaços e forçou-os a manter a posse de bola sem qualquer objetividade. A prevista vitória fácil da Die Mannschaft não veio.

Bravamente, os argelinos, comandados pelo “sobrevivente” Vahid Halilhodzic – treinador Bósnio que foi uma das milhares de vítimas da Guerra Civil da Bósnia – se entregaram. Deixaram a alma no Beira Rio. E fizeram por merecer todo o reconhecimento do mundo da bola.

Não. Os jogadores da Seleção da Argélia não choraram copiosamente com a eliminação para a Alemanha. Saíram de cabeça erguida. A tristeza pela derrota não foi maior do que a satisfação que só os verdadeiros vencedores mostram. Vencer não é sinônimo de levantar taças. Levar seu trabalho além dos limites do imaginável é tão – ou mais – admirável do que simplesmente sair vitorioso. Desde a estreia, ao som de “One, Two, Three… Viva l’Algérie”, os africanos do norte do continente mostraram que seriam duros na queda.

Foto: Paul Gilham/ Getty Images - Contra a Bélgica, Feghouli balançou as redes do goleiro Courtois

Foto: Paul Gilham/ Getty Images – Contra a Bélgica, Feghouli balançou as redes do goleiro Courtois

Contra a tão esperada Bélgica, na estreia, a equipe inibiu a beleza do jogo dos Roten Teufel. Eden Hazard, grande craque do Chelsea, mal foi visto em campo. Foi só com a entrada de Marouane Fellaini e Dries Mertens, e já aos 35 minutos do segundo tempo, que os belgas viraram o placar – que havia sido inaugurado por Sofiane Feghouli, de pênalti, aos 26 minutos do primeiro tempo.

No segundo jogo, contra a Coreia do Sul, os argelinos mostraram que, além de marcar bem, como haviam mostrado na estreia, sabiam atacar. E como! Com cinco alterações em relação à escalação inicial, os africanos mostraram um futebol leve e até imberbe. Apesar dos dois gols sofridos, revelaram muita qualidade e transformaram aquele que – teoricamente – seria um jogo “chato” e “entediante” em uma partida movimentadíssima e agradável de assistir.

Foto: Getty Images - Na partida contra Coreia do Sul, os argelinos mostram força ofensiva

Foto: Getty Images – Na partida contra Coreia do Sul, os argelinos mostram força ofensiva

O encontro final da fase de grupos era decisivo. Contando com uma vitória ou um empate da Bélgica contra os coreanos, os comandados de Halilhodzic enfrentariam os frios russos, que carregavam junto a si a expectativa de retornar a uma Copa do Mundo após 12 anos e que também se preparam para sediar o próximo mundial, em 2018.

O jogo foi duro. E a pressão – ainda que pouco ordenada – dos russos também. O gol sofrido aos seis minutos do primeiro tempo poderia ser o prenúncio de uma derrota acachapante. Não foi. Brilhou a estrela de Islam Slimani, atacante do Sporting CP, que equalizou o jogo e deu números finais à partida. Pela primeira vez em sua história, a Argélia avançava às oitavas de final da Copa do Mundo.

Todavia, o jogo seguinte, em que os africanos enfrentariam a Alemanha, sinalizava o fim de sua trajetória no mundial. Analistas de todo o mundo anunciavam a vitória germânica. Eram favas contadas.

Foto: Getty Images - Pela primeira vez em sua história, a Argélia chegou às oitavas de final

Foto: Getty Images – Pela primeira vez em sua história, a Argélia chegou às oitavas de final

Novamente com cinco alterações, as Raposas do Deserto, como é conhecida a Seleção Argelina, deixaram o gramado do Beira Rio árido. A bola até rolava, mas nada se criava. Nada se produzia. A terra estava infértil. Os onze argelinos pareciam vinte e dois. Onde tinha um alemão havia, no mínimo, outro argelino. E não parava por aí. Nos contra-ataques, os argelinos assustavam a inabalável Alemanha. Não à toa, o goleiro Manuel Neuer foi visto, algumas vezes, longe da meta.

Aliás, falando em meta, a argelina seguiu sendo imaculadamente protegida pelo guardião Rais M’Bolhi, que, com suas grandes defesas, deixou os germânicos estupefatos.

Contudo, com o coração e a alma estendidos na relva, faltou o corpo. Desgastada, a matéria não suportou os cruéis 30 minutos da prorrogação. Sorte dos alemães, que, melhor preparados fisicamente, inauguraram o marcador aos dois minutos do tempo extra e ampliaram no apagar das luzes, no derradeiro minuto. Mas os argelinos, que deram até mais do que podiam, não podiam sofrer tal castigo. Era muito injusto. Alguém lá em cima, não sei Alá, Deus ou outra grande, benévola, justa e venerável santidade, entrou em campo e ajudou os esgotados argelinos a diminuírem o placar, já nos acréscimos da prorrogação.

Ao final, perderam o jogo. Mas também ganharam. Superaram as desconfianças e seus próprios limites. Não eram o melhor time, isso é certo. No entanto, deram mais uma mostra aos incrédulos e aos pobres de espírito de que, no futebol, não se fazem prognósticos, se joga. Merecidamente, a arquibancada, após o jogo, entoou gritos de apoio e congratulação à equipe que, com enorme doação, não se permitiu derrotar por antecipação.

Foto: Reuters - Eliminados, mais vitoriosos, os argelinos agradeceram o apoio dos torcedores

Foto: Reuters – Eliminados, mas vitoriosos, os argelinos agradeceram o apoio dos torcedores

Comentários

Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.