Por que Felipão acerta ao fazer mistério

Murtosa, Parreira, Felipão e o Dedo de Deus: a hora da verdade (Imagem: Rafael Ribeiro/CBF.com.br)

Murtosa, Parreira, Felipão e o Dedo de Deus: a hora da verdade (Imagem: Rafael Ribeiro/CBF.com.br)

Todo mundo sabe: desde agosto de 2010, o Brasil é um time absolutamente dependente de Neymar. Ele tem sido o grande nome da Seleção no ciclo pós-Copa da África do Sul: é o jogador com mais convocações, mais minutos jogados e mais gols no período. E por ser o mais importante atleta brasileiro da atualidade, ele representa para os demais jogadores canarinhos a confiança, o potencial de decidir qualquer partida a qualquer momento.

Até que chegou a semifinal da Copa do Mundo, e pela primeira vez, Felipão não poderá contar com seu camisa 10. Uma situação que foi alertada por muitos desde o início da formação dessa equipe, e que já poderia ter sido cogitada pelo gaúcho de bigode. Mas não foi. O treinador sequer testou um time sem a presença de Neymar, que durante esses últimos dezoito meses. Mesmo porque foi ele o principal encarregado de garantir os resultados – e o próprio emprego da comissão técnica.

Assim, a partir do momento em que se confirmou que Neymar estaria fora dos últimos dois jogos da Copa, o pânico tomou conta da nação. Quem substituiria o insubstituível menino de ouro? Willian? Bernard? Uma mudança no esquema? Entre tantas dúvidas, uma única certeza: difícil enxergar, dentro do atual elenco da Seleção, alguém capaz de corresponder a uma expectativa desse tamanho.

Fernandinho e Luiz Gustavo treinando entre os reservas, Hernanes titular... mistérios de Felipão. (Imagem: Rafael Ribeiro/CBF.com.br)

Fernandinho e Luiz Gustavo treinando entre os reservas, Hernanes titular… mistérios de Felipão. (Imagem: Rafael Ribeiro/CBF.com.br)

Na véspera da partida decisiva, Felipão fez seu último treino na Granja Comary antes de viajar para Belo Horizonte. Uma atividade que seria intensamente observada pela imprensa brasileira e internacional: nela, o comandante daria pistas de quem ele via como substituto do grande craque da Seleção. Mas o treinamento começou, terminou, e todas as interrogações continuaram no mesmo lugar.

Isso porque Felipão testou muitas variações. Ele começou o treino com três volantes, com a volta de Luiz Gustavo. Depois, tirou Paulinho para colocar Willian, e ainda pôs Hernanes no lugar de Fernandinho. Tudo para despistar ao máximo os atentos observadores, ávidos para cravar nos jornais e sites a formação do Brasil para o duelo contra os alemães. Nem mesmo na coletiva o técnico emitiu seus sinais de fumaça, insistindo no mistério e anunciando que a decisão só será tomada pouco antes do jogo.

Só que esse pode terminar sendo o grande trunfo da Seleção após a perda de seu craque. Ao longo dos últimos anos, a nossa melhor estratégia foi a chamada “4-4-bola no Neymar”. Se os alemães tinham uma certeza sobre o Brasil, era que o craque e sua imprevisibilidade quase sempre apareciam (ou tentavam) para resolver a parada. Sem ele, Scolari terá que mostrar aos torcedores e ao mundo que é capaz de projetar um time novo, com uma proposta distinta, possivelmente mais coletiva. E se o nosso time vai ter que sofrer uma reformulação em plena semifinal de Copa do Mundo, que ele seja uma novidade não só para os torcedores brasileiros, mas também (e sobretudo) para os nossos adversários.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.