Quero ser Louis van Gaal

  • por João Almeida
  • 5 Anos atrás

 

Foto: Satiro Sodré/ Divulgação - Mancini, mas pode chamar de van Gaal

Foto: Satiro Sodré/ Divulgação – Mancini, mas pode chamar de van Gaal

“Mas o quê? Mais um atacante? O van Gaal ficou maluco?”

As críticas, advindas muito mais de um sentimento de incompreensão do que de indignação, estavam lá. Louis van Gaal sabia. E gostava. Tinha confiança em seu time e em sua convicção e, portanto, sabia que lograria êxito. O adversário era a Costa Rica, mais fraca e com uma defesa muito bem postada. O número de atacantes? Era 3, mas, já no fim da prorrogação, se transformara em 4 – isso sem contar Dirk Kuyt, atacante de origem, mas que jogava mais como um lateral direito. Ao fim da partida, as críticas se transformavam em elogios e aquele louco que deveria ser internado se transformou em um louco genial, quase um savant.

Agora, voltemos à vida real. Quem estava lá à beira do campo não era van Gaal, mas sim Vagner Mancini. No entanto, como o holandês, observava de perto sua ousadia. Via em Sheik um Van Persie com vontade, jogando ao lado de Arjen Robben, ou melhor, de Yuri Mamute. A vida não estava fácil. Sua tarefa era ingrata: fazer onze jogadores que trabalhavam quase que em regime de escravidão, sem receberem salários há meses, se motivarem. E pior: jogadores sem grandes dons técnicos. Entretanto, seus devaneios podieram ajudá-lo – e confortá-lo.

Tal qual Cillessen, Andrey, sem experiência nenhuma no campeonato que disputava, saía um pouco de sua meta para iniciar as jogadas com seus pés. Cumpria bem seu papel, até ver em sua frente um fenômeno incrível. Materializava-se um pouco longe dele Pelé, o rei do futebol, que, em um encontro de gerações, repetiu o que fizera 44 anos antes, chutando do meio de campo. Acordando quase que de uma epifania, deu-se conta. Mas Pelé estava acima do peso? Não, mas Neto Baiano estava. E ele não perdera esse gol? Sim, mas Neto Baiano não. Ainda desnorteado, o goleiro descobriu isso ao ver a bola tocar as redes.

Do lado oposto do campo, contudo, era que estava a grande surpresa. O time tinha uma linha de quatro no ataque. Mancini tentara várias vezes formações diferentes, mas sem conseguir ter grande sucesso em nenhuma. E, em um futebol dominado por Roths, Muricys e afins, se destacar pela ofensividade poderia ser uma boa saída. Caso ganhasse, poderia ter grande sucesso. Seria diferente, inventaria moda. Os jornais teriam em suas capas a sua cara. “Gênio do Futebol”, estamparia um; “Revolucionário”, destacaria outro. Afundado em seus pensamentos, já se imaginava deixando General Severiano e rumando para a Europa, para dominar o Velho Continente.

Acontece que Bolatti não era Sneijder, Zeballos não era Huntelaar e Sheik, por mais que se esforçasse, não seria Van Persie. E o Sport podia não ser a Costa Rica, mas o Botafogo não era a Holanda. Podia tentar imitar o estilo, mas nem nisso conseguia sucesso. A realidade era dura. A Copa acabara, a vida não era mais uma festa e a realidade era uma indesejada briga contra o rebaixamento. Os jornais, se mencionassem Mancini, seria para dizer o quão ameaçado seu cargo estaria. Tudo aquilo que imaginara, tudo aquillo que prevera: tratava-se apenas de um ledo engano.

O treinador não poderia mais viver em seu maravilhoso mundo. Ele se esforçara, tentara de todas as formas, mas a situação foi se desgastando. Agora, cabe a ele viver da realidade. Cabe também ao Botafogo fazer o mesmo e parar de pensar que vive até hoje dos dribles de Mané.

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