Ricardo Gol&Art

  • por Henrique Joncew
  • 5 Anos atrás

O Cruzeiro, atual bicampeão brasileiro, joga um futebol ofensivo, fundamentado em fortes jogadas de bola parada, intensa movimentação e rápidas trocas de passe rumo à meta adversária. O esquema, armado por Marcelo Oliveira e que conquistou o título nacional e o reconhecimento de todo fã de futebol, conta com a habilidade e velocidade dos ponteiros Éverton Ribeiro, Dagoberto e Willian e com a presença de área dos centroavantes Marcelo Moreno, Borges e Júlio Baptista. Esses atletas nem sempre jogam juntos, mas sempre revezam partidas entre si, sem causar grande prejuízo à qualidade ou à fluência de jogo do time. Entretanto, a equipe celeste sempre encontra imensas dificuldades quando não conta com um jogador que só atraiu mais olhares em 2014: o meia central Ricardo Goulart.

Surgido como promessa no Santo André, Goulart teve uma passagem sem brilho pelo Internacional em 2011. Em 2012, assinou com o Goiás, onde foi o artilheiro da equipe na temporada que culminou com a conquista da Série B. As atuações do atleta pelo Esmeraldino chamaram a atenção de grandes clubes brasileiros, e seu destino em 2013 terminou por ser o Cruzeiro.

Em Minas Gerais, o meia rapidamente desenvolveu entrosamento com a equipe comandada por Marcelo Oliveira e já demonstrava alguma qualidade. Entretanto, foi subaproveitado durante a discreta passagem de Diego Souza, que o relegou – injustamente – à condição de reserva do time.

Quando Diego Souza foi contratado pelo Metalist Kharkiv-UCR, Goulart finalmente assumiu a condição de titular, e o entrosamento e o ritmo dos jogos do Cruzeiro só aumentou e, finalmente, a equipe mineira encerrou um jejum de uma década sem títulos importantes. Mais do que isso, o então camisa 31 foi, ao lado de Borges, o artilheiro do time na vitoriosa campanha, com 10 gols. Em 2014, com 15 gols, voltou a ser o máximo goleador cruzeirense na conquista do bicampeonato, ao lado de Marcelo Moreno. Mas isso não bastou desta vez: com 24 bolas na rede, dividiu também com o centroavante o posto de matador do time em todo o ano. As atuações de Goulart renderam-lhe a Bola de Ouro Placar/ESPN e também a eleição de craque do Brasileirão pela equipe DPF. E o brilho do camisa 28 não passou despercebido por Dunga, que abriu-lhe as portas da Seleção Brasileira, pela qual estreou na vitória por 1×0 contra o Equador.

Mas qual o segredo de Ricardo Goulart? O meia celeste não é dono de uma técnica refinada como a de Éverton Ribeiro, de chutes precisos e potentes como os de Júlio Baptista, nem de grandes lançamentos em profundidade como os de Lucas Silva.

A resposta é mais tática do que técnica, embora os dois quesitos tenham relevância para o futebol do Cruzeiro.

Goulart é o principal responsável pela movimentação celeste no campo de ataque. Quando o time busca abrir a defesa adversária no meio-campo ou na intermediária, o jogador a todo momento se aproxima do companheiro que conduz a bola, sendo sempre uma opção de jogada curta. Ainda, a movimentação constante do meia gera espaços que são aproveitadas para a infiltração dos demais atacantes cruzeirenses. Assim, pode-se dizer que o deslocamento do camisa 28 funciona como o gatilho das trocas de posição do ataque do Cruzeiro, que causa transtornos a qualquer sistema defensivo.

Tecnicamente, Goulart também tem uma fortíssima qualidade: o passe curto e rápido. O meia tem grande capacidade de acionar para um companheiro próximo e se deslocar para receber a devolução. E mostra recurso nesse tipo de toque: não é raro ver uma tabela sair de um calcanhar ou de uma letra do jogador e desarmar a zaga do oponente.

Finalmente, o faro de gol que Ricardo Goulart demonstra com a camisa celeste advém de seu forte senso de posicionamento. A sua finalização não tem uma precisão ímpar, apesar da franca evolução no fundamento principalmente em seu segundo ano na Toca da Raposa. Ainda assim frequentemente, chuta mascado e desperdiça ótimas oportunidades. Entretanto, sua chegada ao ataque é sempre muito inteligente. O meia procura sempre espaços às costas dos marcadores e, nesse quesito em particular, é um dos jogadores mais diferenciados do Brasil. Como exemplo, os gols contra a Universidad de Chile, pela Libertadores e contra Flamengo, Palmeiras e Grêmio pelo Brasileirão, corroboram a qualidade do atleta em aparecer desmarcado na cara do gol.

Sempre bem colocado, fica bem mais fácil receber a bola em condições de balançar as redes e, com liberdade, ganha-se uma relativa margem de erro para que mesmo os chutes que não pegam em cheio consigam encontrar o caminho do gol. Além disso, Ricardo Goulart ainda conta com a sorte. Isso se prova nos gols contra o Internacional (em que o efeito da bola fez com que o cabeceio fosse bem sucedido) e contra o Sport (em que cabeceou mal, mas a bola resvalou em sua própria coxa e entrou).

O meia está com tudo e com a confiança em alta, sendo fulcral na hegemonia do Cruzeiro no Brasil. O craque do Brasileirão provou que futebol é, antes de tudo, inteligência e dedicação e, impetuosamente, seguirá investindo contra os adversários pelos campos do Brasil e da América.

E nunca é demais relembrar o golaço de trás do meio de campo contra o Chivas, em amistoso do Cruzeiro nos Estados Unidos durante a parada da Copa do Mundo no meio do ano.

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.