Um pouco menos de Neymar

  • por Henrique Joncew
  • 6 Anos atrás

Muito tem se discutido sobre a necessidade de reformulação do futebol brasileiro, desde a formação de jogadores à Seleção Nacional. Mas também exige ponderação um assunto diferente.

Antes de mais nada: Neymar é insubstituível na Seleção Brasileira. O camisa 10 é a referência do time e, sem sua presença, o Brasil perde o improviso e a capacidade de decidir em um lance, de preocupar o adversário. A partida contra a Alemanha seria mais disputada (ou ao menos não vexatória) caso o atacante estivesse em campo, ainda que, contra o Chile e a Colômbia, não tenha mostrado um grande futebol.

Isto posto, é necessário discutir que, da mesma forma que o escrete canarinho precisa de Neymar, precisa saber prescindir de seu futebol.

Quando o craque se lesionou contra a Colômbia, o Brasil inteiro entrou em parafuso. Claro, perder um jogador desse quilate é terrível para as ambições de uma equipe que, hoje, está em um escalão muito abaixo do que a torcida está acostumada. O luto por Neymar foi, até certo ponto, natural. Mas foi demais. Virou velório.

Neymar é carregado para fora da Copa do Mundo: hora de superar as dificuldades de encontrar alternativas (Foto: Michael Steele/Getty Images).

Neymar é carregado para fora da Copa do Mundo: hora de superar as dificuldades de encontrar alternativas (Foto: Michael Steele/Getty Images).

Qual foi a iniciativa para tentar virar a página? Por mais difícil que fosse, a Seleção Brasileira devia assimilar a perda e, bem resolvida, trabalhar as melhores alternativas para substituir, com o mínimo de perda possível, seu grande nome. Até porque, pelo futebol que o camisa 10 vinha jogando, o impacto não seria tão gritante. Ele poderia jogar mais? OK, mas o potencial não estava sendo usado.

Mas isso não aconteceu. Tudo envolvia o nome de Neymar. O treino era sem Neymar. O técnico procurava encontrar o substituto de Neymar. O time iria entrar em campo sem Neymar. O “como vamos jogar sem Neymar?” não foi analítico. Foi desolado.

E, desolado, o Brasil entrou em campo perdido, carregando a camisa 10 durante o hino, tentando trazer para campo alguém que, nem simbolicamente, poderia estar lá. Por mais que parecesse uma bela homenagem não só a um craque, mas a um amigo, levar para o gramado a camisa de Neymar foi exagerado.

A Alemanha encarou um adversário que, além de pressionado – vide as extensas e repetidas críticas ao preparo psicológico dos jogadores -, agora se mostrava mal resolvido com suas limitações.

Felipão: "E aí, Parreira, como faremos?". Parreira: "Vou perguntar à Dona Lúcia e te falo!" (Fonte: Ricardo Stuckert/CBF)

Felipão: “E aí, Parreira, como faremos?”. Parreira: “Vou perguntar à Dona Lúcia e te falo!” (Fonte: Ricardo Stuckert/CBF)

Se o Brasil com Neymar já não entraria em campo com favoritismo, sem o craque assumiria de vez o papel de zebra (ou ao menos de um antílope, para quem clama que as 5 estrelas nunca são zebra, OK?). Mas o escrete canarinho poderia fazer um jogo competente. Talvez uma derrota mais honrada, ou, quem sabe, em um cenário improvável, uma vitória com um gol de contra-ataque. Mas não. Martelou-se tanto a perda de Neymar que o time degringolou.

Em tempo: também se falou bastante na suspensão de Thiago Silva, ponto de equilíbrio da zaga. Basta ver a atuação lamentável e desorientada de David Luiz, que mergulhou irresponsavelmente na figura de novo líder e que deliberadamente tomou para si a função de resolver tudo de qualquer forma, subindo ao ataque sem pensar na cobertura, deixando espaços para os rivais e marcando mal. O zagueiro pode querer decidir, mas não pode deixar de ser zagueiro. Mas isso é assunto para outra discussão.

Destaque brasileiro, David Luiz não soube se portar como líder em campo (Foto: Gabriel Bouys/AFP Photo).

Destaque do time, o perdido David Luiz não soube ser líder em campo (Foto: Gabriel Bouys/AFP Photo).

Voltando e encerrando: Neymar é o protagonista da Seleção e o time não deve hesitar em jogar de forma a permitir-lhe desempenhar todo o seu futebol. Mas, por mais craque que seja, não decidirá sempre, e às vezes ainda não poderá estar presente (por lesão ou suspensão). E aí é preciso saber adaptar-se e evoluir. O jogador não pode estar acima da equipe. Da mesma forma que precisa muito de Neymar, o Brasil precisa de um pouco menos de Neymar.

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.