Veredito da Bola

  • por Henrique Joncew
  • 5 Anos atrás
A Alemanha conquistou o tetra, e quem irá dizer que foi injusto? (Fonte: Gazeta Press)

A Alemanha conquistou o tetra, e quem irá dizer que foi injusto? (Fonte: Gazeta Press)

O jogo foi uma final típica: travado, tenso, amarrado, com poucas chances. A favorita Alemanha, jogando novamente no 4-1-4-1, propôs o jogo no início, procurando penetrar principalmente pela direita, com Lahm. E a Argentina recusava o jogo, fechada no 4-4-2, tentando contra-atacar e investindo contra o flanco esquerdo do rival – explorando as costas de Höwedes com Lavezzi.

Mascherano (que Copa!), Biglia, Zabaleta, Garay e Rojo seguraram a volúpia alemã, representada pela movimentação de Müller e por um Özil, se não brilhante, lúcido. Klose, veterano, não tinha o vigor necessário para brigar tanto contra uma defesa fechada. Khedira se machucou a minutos do jogo e foi substituído por Kramer, que esbarrou em suas limitações e, violentamente, no ombro de Garay. Totalmente grogue, saiu da fogueira sem comprometer.

Quem comprometeu foi Kroos. O regente da orquestra alemã fez má partida e, jogando contra o próprio patrimônio, deixou Higuaín livre para abrir o placar. Mas o centroavante incrivelmente perdeu a chance cara a cara com Neuer.

A entrada de Schürrle no lugar de Kramer deslocou Özil da ponta esquerda para o meio do campo. O técnico alemão Joachim Löw, sem muitas alternativas para as posições mais recuadas do meio-campo e vendo Kroos em dia ruim, recuou-o para jogar ao lado de Schweinsteiger.

O camisa sete da Alemanha, por sua vez, foi o homem do jogo – não apareceu muito no apoio, mas foi excepcional na marcação. Auxiliado por Boateng, que também fez ótima final, Schweinsteiger colaborou de forma decisiva para que a Argentina não conseguisse criar muitas chances de gol.

A surpreendentemente boa defesa argentina suportou a pressão (apesar da bola na trave em um foguete de cabeça de Höwedes, em cobrança de escanteio). E, assegurada a casa, bola no Messi. Mas o gênio não foi gênio. Até deu um belo passe que deu origem a um gol anulado. Também arrancou contra Neuer, sendo travado por Hummels no último instante. Mas isso são migalhas para quem postula vaga ao lado de Maradona no futebol argentino.

Após o intervalo, o treinador argentino Alejandro Sabella decidiu fazer a Albiceleste jogar. Agüero substituiu Lavezzi, que jogou quase que como meio-campista pela direita – lançando a seleção argentina um pouco mais ao ataque. E a troca surtiu efeito: com menos de três minutos da segunda etapa, Messi recebeu de Biglia a chance da consagração: livre, dentro da área, confortavelmente posicionado para finalizar de pé esquerdo e sem pressão de Neuer. Mas o camisa 10 falhou. Possivelmente, ninguém esperava que Messi perderia um gol desses, ainda mais após gastar a “cota” de gols perdidos contra a Bélgica, nas quartas de final, quando parou em Courtois.

Messi teve o mundo a seus pés e o chutou para fora (Fonte: AFP).

Messi teve o mundo a seus pés e o chutou para fora (Fonte: AFP).


Gol perdido, o jogo seguiu. E a Argentina realmente jogava, abandonando o esquema fechado e travando as trocas de passe germânicas. A partida se arrastou sem novas grandes chances. Palacio, Gago e Götze substituíram Higuaín, Pérez e Klose, respectivamente.

Não vimos gol (válido, ao menos) e mais uma prorrogação veio. Foi justo, pelo jogo e pelo fato de que tantos jogos desta Copa foram decididos no tempo extra. De fato, fazia sentido que a final também fosse assim.

E, mais uma vez, caiu no colo da Argentina a chance de ser campeã. Hummels falhou no corte de um cruzamento e a bola sobrou para Palacio matar no peito e marcar. Mas a Brazuca verde e dourada foi maltratada. Parecia ter batido em uma parede e ricocheteado para o meio da área. O atacante tentou se redimir, encobrindo Neuer. Mas, magoada, a bola fugiu para a linha de fundo.

Acelerada, a Alemanha foi atrás do título antes dos pênaltis. Tão acelerada que teve até o excêntrico goleiro cobrando lateral (e saindo da área, para variar), tentando ganhar alguns segundos. A Nationalelf atacou. Schürrle e Kroos tiveram chances, mas perderam. Faltava algo.

Faltava tratar bem a bola. Arisca após os cascudos, ela escapava. Até que Schürrle arrancou pela esquerda, fez o cruzamento e Demichellis (que vinha anunciando a falha desde o tempo normal com lances alarmantes) vacilou.

Götze, com espaço na área, recebeu a nervosa bola e ofereceu-lhe o coração, aninhando-a no peito. Enfim, a Brazuca ficou em paz e, contente, ofereceu-se, à meia altura, para ser encaminhada às redes pelo pé esquerdo do jovem atacante. Gol da Alemanha! O 171º gol da Copa, igualando o recorde de 1998. A Copa mais emocionante dos últimos anos não acabaria sem essa marca. Apenas procurou quem a merecia. E quem a mereceu foi o talento da nova geração alemã – simbolicamente o gol do título saiu dos pés de dois dos poucos jogadores da seleção nascidos já em uma Alemanha unificada (depois da queda do muro de Berlim).

Feito o gol aos oito minutos do segundo tempo da prorrogação, não adiantaria a Argentina correr desesperada. Disso, aliás, Neuer aproveitou-se para fazer sua última brincadeira na Copa – dando um tapa e mandando a Brazuca por cima de um hermano, agarrando-a em seguida. Lance de pelada.

No final, falta para Messi bater. Era de longe, muito longe – mas foi a última chance que a Copa do Mundo julgou justa pelo que o camisa 10 mostrou. Foi o desafio final. Não seria uma falta para se bater direto, mas sim levantar na área para qualquer coisa empurrar a bola para as redes (aliás, onde estava Romero? Esse é o lance em que o goleiro tem que ir ao ataque). Mas era um desafio do futebol: “faz o gol”. Ele sabia. A Argentina sabia. O mundo sabia. Messi tinha obrigação de bater a gol. E bateu. Só que jogou a bola na arquibancada.

Alfredo diStefano, gênio argentino da bola, dizia: “finais não se jogam, ganham-se”. A Argentina teve a chance de ganhar, mas não honrou seu histórico craque. A Alemanha, por outro lado, foi atrás do troféu e não deu margem ao azar: agarrou-o com força. O tira-teima das finais de 1986 e 1990 não tinha como ser mais claro: repetiu-se exatamente o placar da segunda: Alemanha 1×0 Argentina.

A bola puniu. Quem não fez acabou levando. O tetra alemão veio depois de 24 anos. Foi a vitória do clichê. Mas foi também a vitória do time que, desde 2002, sempre chega. Do time que impôs ao Brasil, dono da casa, a maior humilhação já vista no futebol. Foi a vitória da geração de ouro, de quem melhor tratou a bola, de quem mereceu. O futebol, dessa vez, não teve coragem de ser injusto.

A Alemanha é tetracampeã mundial de futebol, e o Maracanã é dela.

A Brazuca escolheu: venceu quem a tratou melhor (Fonte: Reuters).

A Brazuca escolheu: venceu quem a tratou melhor (Fonte: Reuters).

FICHA TÉCNICA: ALEMANHA 1x0 ARGENTINA

Motivo: Final da Copa do Mundo de 2014.

Data: 13 de julho de 2014.

Local: Estádio Maracanã, Rio de Janeiro-RJ.

Horário: 16 horas (horário de Brasília).

Árbitro: Nicola Rizzoli (ITA).

Auxiliares: Renato Faverani (ITA) e Andrea Stefani (ITA).

Público: 74.738 pessoas.

ALEMANHA: Neuer; Lahm [C], Boateng, Hummels, Höwedes; Schweinsteiger; Müller, Kramer (Schürrle), Kroos, Özil (Mertesacker); Klose (Götze).

Técnico: Joachim Löw.

ARGENTINA: Romero; Zabaleta, Demichelis, Garay, Rojo; Lavezzi (Agüero), Mascherano, Biglia, Pérez (Gago); Messi [C], Higuaín (Palacio).

Técnico: Alejandro Sabella.

Cartões amarelos: Schweinsteiger e Höwedes (Alemanha), Mascherano e Agüero (Argentina).

Gol: Götze, aos 112 minutos.

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.