Zé Carlos e Baier: o grande desafio de Wagner Lopes

Foto: Fernando Ribeiro/Assessoria Criciúma

Foto: Fernando Ribeiro/Assessoria Criciúma

Mesmo estando na parte baixa da tabela de classificação do Campeonato Brasileiro, o Criciúma, quietinho, apresenta para o Brasil um técnico de muito conhecimento e que pode ganhar espaço no cenário nacional nos próximos anos: Wagner Lopes. Conhecedor do futebol e entendedor das nuances táticas do jogo, ele fez o Tigre ganhar padrão tático, coisa que não tinha há muito tempo (desde Paulo Comelli, na Série B de 2012). Reconhecendo as limitações do elenco, arma a equipe para defender, sem propor o jogo, pois reconhece ter um time lento e de escassa qualidade técnica.

Desde que chegou, em maio deste ano, o Criciúma vem jogando no 4-2-3-1, mas chamando a atenção na recomposição defensiva. O veterano Paulo Baier não tem mais físico para marcar, portanto, sem a bola, Wagner avançava o meia para dar o primeiro combate aos zagueiros e abria os atacantes Silvinho e Bruno Lopes pelos flancos para impedir os avanços laterais. Além disso, Serginho ficava plantado entre as duas linhas de quatro atuando como “cão de guarda”. Para resumir, o time se fecha no 4-1-4-1, com Baier sendo o “falso nove”.

Sem a bola, Paulo Baier avançava, com os atacantes bloqueando os dois lados

Sem a bola, Paulo Baier avançava, com os atacantes bloqueando os dois lados; Serginho ficava atrás da linha de meio-campo

É normal ouvirmos de torcedores e até mesmo de comentaristas (geralmente daqueles que queríamos ver aposentados) que o Criciúma joga com “quatro laterais”. Geralmente quem fala isso tem dificuldade em compreender que futebol se joga também sem a bola e que hoje não se pratica este esporte sem menos de oito atletas marcando, independentemente da posição e de onde estejam no gramado. Não são “quatro laterais”, são os dois normais, mas com o auxílio de ponteiros aplicados taticamente.

A contrapartida vem na lentidão já citada. O Criciúma não conta com um volante “box-to-box”, que vai de uma área a outra. João Vitor é quem mais se aproxima disso, mas os altos e baixos (mais baixos do que altos) do ex-palmeirense não trazem confiança para a função. Além disso, Wagner conta com dois cabeças-de-área de bom nível: Serginho (melhor jogador do time no ano) e Rodrigo Souza (que não se criou no Cruzeiro pela concorrência). Entretanto, ambos são mais marcadores e, lentos, não se encaixando no perfil supracitado.

O resultado é o sobrepeso em Paulo Baier, que se encontra na obrigação de voltar ao círculo central para criar. O alívio acaba sendo a participação efetiva dos laterais Eduardo e Cortez, que fazem o que ninguém consegue fazer na faixa central: conduzem a bola por vários metros.

O prejuízo deste sistema acaba sendo a ausência de um homem de área. Bruno Lopes, que vem exercendo esta função, fecha o lado direito do gramado sem a bola e não tem força para fechar na grande área. Silvinho, que ocupa o canto oposto, não tem essa característica e tende a procurar mais o drible pela faixa central. A consequência é o avanço dos laterais, mas a ausência de uma referência para cruzamentos e, posteriormente, as poucas finalizações.

Se alterar seis por meia dúzia, a tendência é Paulo Baier tenha mais obrigações defensivas

Se alterar seis por meia dúzia, a tendência é Paulo Baier tenha mais obrigações defensivas

E aí entra o “grande desafio” de Wagner Lopes, explicitado no título. Para ter essa tal “referência”, o clube repatriou Zé Carlos, artilheiro do time na Série B de 2012 com 27 gols. O que a diretoria tricolor fez simplesmente foi abrir mão das convicções (furadas) e apostar em uma receita caseira. Desde que “Zé do Gol” deixou o clube em março de 2013, Marcel, Wellington Paulista, Rodrigo Silva, Fernando Karanga e Bruno Lopes vestiram a camisa 9 carvoeira, mas ninguém convenceu. A volta de Zé foi tão cobrada que se tornou o tipo de aposta que pode fazer a diretoria botar a culpa em terceiros (torcida e imprensa) se der errado. Na verdade, eles pouco tinham a perder.

Mas agora cabe a Wagner tentar encaixar o centroavante e Baier. E você, meu caro leitor, pode perguntar: como montar um time com os dois, sendo que ambos ocupam faixas diferentes do gramado? A lógica é imbatível. Como falei anteriormente, o Criciúma se fecha no 4-1-4-1 com Paulo Baier dando o primeiro combate. Teoricamente, esta marcação inicial é feita por um centroavante. Zé Carlos nunca mostrou tanto empenho na marcação, assim como não tem físico para fechar a lateral, como faz Bruno Lopes, por exemplo. O Tigre ficaria com dois homens que pouco marcam, o que vai na contramão do sistema “sem bola”, que propõe apenas um com esse privilégio.

Com isso, quem ocuparia o lado direito seria Rafael Costa, recém-contratado do Rio Claro. Outra opção já experimentada por Wagner Lopes é o deslocamento de João Vitor para o setor, o que dá um ganho de marcação no local. Mesmo caso de Maylson. Ricardinho já chegou a ser utilizado, mas a falta de agilidade preocupa caso volte a atuar por ali.

A opção mais simples para encaixar Zé e Baier é extinguir o volante que fica entre as duas linhas de quatro e posicionar o time sem a bola no 4-4-2 (ou 4-4-1-1).

Com Zé Carlos e Paulo Baier, Wagner Lopes pode alterar o posicionamnto do time sem a bola para o 4-4-2 (4-4-1-1)

Com Zé Carlos e Paulo Baier, Wagner Lopes pode alterar o posicionamnto do time sem a bola para o 4-4-2 (4-4-1-1)

O preço que pode ser pago é a perda de uma qualidade forte de Serginho: o desarme. Conforme o Footstats, o volante tricolor efetuou 32 desarmes e está no top 10 do Brasileirão. Jogando atrás da linha de quatro, ele tem mais liberdade para dar o bote por ter cobertura próxima. Atuando na segunda linha de quatro e sem um jogador posicionado atrás, a chance de ele ter de roubar bolas mais à frente é grande, o que se torna um risco para a própria defesa.

Fora isso, a descompactação dos setores tem razoáveis chances de acontecer. Será necessário um empenho maior de Paulo Baier ao menos para retornar ao campo de defesa. Caso não faça isso, é extremamente plausível que o Criciúma fique com oito jogadores (mais o goleiro) encaixotados na própria área e dois isolados no ataque. Se isso acontecer, todos os números que trouxe virariam pó e o esquema principal do time de Wagner Lopes se tornaria o 4-4-balão pro Zé.

Parece simples encaixar Zé Carlos e Paulo Baier, mas não é. Pode ser até que, com o passar dos jogos, isso se mostre algo simplório, mas abrir mão de mais um marcador pode ser crucial. Uma peça mexida (a extinção do volante entre as linhas) pode descarrilhar em uma série de problemas que podem se tornar irreversíveis mais para frente.

Wagner Lopes, que tem no Criciúma o primeiro clube de Série A na carreira, precisa se virar. A vida no futebol, seja de técnico ou jogador, é feita de desafios, e ele tem um quebra-cabeça para encaixar nos próximos jogos.

Comentários

Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.