A impossibilidade de Modernização

  • por Hugo Melo
  • 5 Anos atrás

 

Foto: Cleber Mendes / Agência Lancepress!  - Botafogo sem saída para crise

Foto: Cleber Mendes / Agência Lancepress! – Botafogo sem saída para crise

 

As consequências dos anos de má gestão dos clubes brasileiros finalmente vem à tona. O Botafogo cogita deixar o Brasileirão por dívidas, o Flamengo segurava a lanterna e busca soluções bem além da realidade do clube, o Vasco novamente rebaixado não empolga na série B. E estes são alguns poucos exemplos da atual realidade do futebol brasileiro.

A CBF segue arbitrando as questões de forma despótica e se consolida como um órgão sem legitimidade e simbolo máximo do processo estacionário pelo qual passa o futebol nacional. Cada mais o país do futebol se vê ultrapassado por seus maiores rivais e até por vizinhos tradicionalmente pequenos. Neste ano, nenhum brasileiro disputa as semifinais da libertadores, sem mencionar a campanha triste que desempenhou a seleção na Copa disputada em casa. A danosa desorganização da entidade e do futebol nacional foi além do futebol de carne e osso: Nenhum clube brasileiro estará presente no FIFA 15, devido às dificuldades de negociar os direitos dos clubes.

A questão principal jaz na aparente repulsa por modernização que acompanha os grandes caciques do futebol, enquanto por todo mundo as federações apostam cada vez mais em medidas revolucionárias, tanto na administração quanto no planejamento (o que dizer da seleção alemã e a aposta no sistemas da SAP?).

O que fazer para mudar? A Europa mais uma vez parece ter a resposta. Os clubes europeus comandam o futebol mundial com bons exemplos na administração. A solução é simples: Futebol de “Clubes” (e por clube tenha-se em vista a natureza jurídica) é coisa do século passado. O futebol de alto nível, de jogadores milionários e de altas verbas ultrapassou a ideia de sócio patrimonial e presidente eleito por uma maioria. A democracia não funciona no futebol. O futebol bem gerido necessita de ser tecnocrata, com um economista, um administrador, um agente publicitário. Cada passo tem que ser tomado pensando o melhor a curto e a longo prazo.

Os poucos clubes brasileiros que abraçaram esse tipo de gestão alcançaram relativo sucesso, ainda que este não tenha se mantido por diversas razões (em geral por conta do patrimônio do time em questão, clubes pequenos, pouco tradicionais, com pouca torcida). Exemplos rápidos: União São João, que nos anos 90 disputou duas vezes o Brasileirão da Série A; Barueri, que em três anos saiu da Série C para a Sul Americana; e São Caetano na era da família Tortorello, vice-campeão da Libertadores. Agora imagine se um clube com grande torcida ou patrimônio estrutural mudasse sua gestão? Um clube como o Flamengo passasse para as mãos de um grande administrador? Alguém consciente, que visse aquilo como uma empresa. Sem dúvida o Flamengo reaveria seus anos de glória.

Os clubes brasileiros que procuram uma gestão similar também gozam de sucesso. O São Paulo e o Corinthians têm passado por uma grande década do ponto de vista da gestão, e nos últimos anos colheram os frutos do bom trabalho. No Nordeste, o Santa Cruz encontrou na gestão administrativa tecnocrata o caminho para fora do poço em que se encontrava. Com uma gestão competente o clube foi tricampeão pernambucano e voltou à segunda divisão com o título da Terceirona. Seu rival, o Sport, também conta com excelentes administrações. Hoje, o rubro-negro é um dos poucos clubes do Brasil financeiramente firme, faz uma excelente campanha no Campeonato Brasileiro e há 6 anos ganhou o maior título de sua história.

Agora, e se um desses clubes pequenos recebesse a proposta de um grande consorcio estrangeiro, como um milionário árabe? Certamente seria o primeiro passo para a construção de um novo gigante (como ocorreu com o Paris Saint-Germain, o Chelsea, o Manchester City e em breve o Monaco). Parece sonho, mas chegou muito perto de se concretizar. O Santa Cruz recebeu propostas de dois grupos, um português e um árabe, em 2013, enquanto o Sport recebeu propostas de um grupo do Leste Europeu no mesmo ano. Para desespero das torcidas (que provavelmente nem souberam da notícia) o plano de aquisição não foi para a frente. A proposta nem pode ser discutida dentro dos clubes. O porquê: a impossibilidade da mudança judicial do estatuto do clube, principalmente o processo inerente à mudança de “clube” para “empresa”. Só a primeira etapa já seria impossível de se transpor: todos os sócios patrimoniais teriam de concordar por unanimidade em vender o clube, e não existe uma democracia que apresente 100% de concordância.

Foto: fonte REPRODUÇÃO - Os caciques e a impossibilidade de modernização

Os caciques e a impossibilidade de modernizar

Sempre haverá aquele senhor que viu o despontar do clube e apresenta uma verdadeira aversão a mudanças. E estes senhores, quase sempre, estão à frente não só dos clubes, mas também do órgão máximo do futebol brasileiro. Imagine uma realidade em que um grande empresário estivesse à frente de um grande clube brasileiro, um Jorge Paulo Lemann, por exemplo. Imagine a mudança que sua influência não traria ao futebol. Sua voz poderia se sobrepor aos mandos dos déspotas da CBF que estariam reduzidos a um papel secundário na gestão administrativa do futebol nacional. Mas a perda do poder, da influência, e das inúmeras possibilidades “obscuras” que o cargo de presidente da CBF traz assusta esses homens de tal forma que lutarão com unhas e dentes para impedir qualquer tentativa de revolucionar o futebol brasileiro. E assim, os clubes estão entre a cruz e a espada, uma sinuca de bico, em que a necessidade de modernizar esbarra na impossibilidade de chegar à modernização, muitas vezes por questões burocráticas secundárias e homens mal intencionados.

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Estudante de jornalismo e direito, observa o futebol como algo infinitamente maior que um esporte, um fenômeno cultural ímpar dotado de poder para munir ditadores e revolucionários. E deste universo que transcende as quatro linhas do gramado tem o tricolor pernambucano como eterno companheiro nas desventuras futebolísticas.