Com Kaká, Muricy se reinventa e Ganso cresce

Muricy sempre foi muito criticado pelo jeito pragmático, ainda que vencedor, que seus times tinham. Baseado nos três zagueiros que lhe davam solidez defensiva e em atacantes que o auxiliavam no jogo batizado de “Muricybol”, o técnico ganhou três Campeonatos Brasileiros seguidos no São Paulo e saiu pelos seguidos insucessos do time na Libertadores, a obsessão do clube.

Passou por Palmeiras, Fluminense e Santos. Ganhou outro Brasileiro com o Flu e a tão sonhada e perseguida Libertadores com o Santos de Neymar e Ganso. No Mundial de Clubes, a derrota para o Barcelona plantou a reflexão na cabeça do técnico, que não conseguiu a mesma consistência de antes. Mesmo com o vice-campeonato Paulista, não continuou no Santos.

Após quatro meses desempregado, o pedido de Juvenal, com o São Paulo na zona do rebaixamento, soou como uma convocação. Muricy nunca negou ser são paulino e voltou para tirar o time da pior situação de sua história. Não revolucionou, foi muito mais motivador do que extremamente tático, arrumou a casa e, junto com o Morumbi lotado a cada quarta ou domingo, tirou o São Paulo da dura situação. Levou o clube ainda até a semifinal da Sul-Americana posteriormente.

Em 2014, Muricy teve pré-temporada, participação na montagem do elenco e tranquilidade para trabalhar. No Paulistão, campanha tranquila na primeira fase, apesar de alguns tropeços. Porém, logo no primeiro mata mata, o São Paulo caiu. Derrota nos pênaltis para a Penapolense e pressão para cima do técnico, que era acusado de não conseguir dar ritmo ao elenco.

Em meio à temporada, São Paulo e Corinthians trocaram Pato por Jadson. O repentino negócio trouxe ao São Paulo um garoto que surgiu como um ótimo jogador, mas havia feito um péssimo ano no Corinthians e levantado diversas questões em relação à sua vontade como jogador de futebol. Pato, com poucas características de marcação, foi encaixado atrás de Luís Fabiano em um 4-2-3-1, tendo liberdade para auxiliar na armação e poucos compromissos com a marcação, já que Ganso recuava pelo flanco e marcava por ele.

O 4-2-3-1 tricolor antes da parada para a Copa. A se destacar, o recuo de Ganso para “marcar por Pato”.

O São Paulo fez uma ótima metade de Brasileirão: 16 pontos em 27 disputados; 4º colocado, a três pontos do líder Cruzeiro. Alan Kardec chegou e veio a Copa do Mundo, mostrando o que há de mais moderno em execução de esquemas táticos e estilo de jogo. Muricy pegou um pouco para ele e implantou. O São Paulo apresentado depois Mundial foi brilhante. Contra o Bahia, uma execução quase perfeita, com conceitos táticos alinhados ao que há de mais moderno.

Com o anuncio da volta de Kaká, as perspectivas do São Paulo melhoraram ainda mais. Pela frente, uma sequência tranquila: Chapecoense, Goiás e Criciúma, dois desses jogos em casa. Um ponto conquistado em nove disputados; de terceiro colocado, o São Paulo caiu para sétimo.

Paralelo a isso, a eliminação da Copa do Brasil frente ao Bragantino, com direito a um acachapante 3 a 1 no Morumbi. Crise. Muricy contestado. A dúvida: o técnico teria mesmo evoluído ou havia sido apenas um lampejo?

Sim, evoluiu! Com a chegada de Tolói para firmar uma zaga que parecia frágil e a sequência de Kaká, o time ganhou corpo, jeito de jogar e quatro jogos seguidos, que alçaram o São Paulo ao 2º lugar, a sete pontos do Cruzeiro. Com uma execução de jogo muito moderna, fez o time sonhar com o sétimo título do Brasileiro. Tudo isso graças à sequência de jogo, que fez Ganso e Pato evoluírem ao lado de Kaká. E Muricy mostrar a revisão de seus conceitos táticos.

Mapa de calor: Foootstats | O mapa de movimentação de Kaká, sempre pelos lados do campo ajudando muito na marcação, mas também na armação das jogadas.

Mapa de calor: Foootstats | O mapa de movimentação de Kaká, sempre pelos lados do campo ajudando muito na marcação, mas também na armação das jogadas.

Sem Luís Fabiano, Muricy armou um 4-4-2, com Denílson de volta ao time titular para formar dupla com Souza – para dar consistência na marcação – e Ganso e Kaká abertos, como pontas modernos, marcando o lateral adversário até o fim do campo e avançando coordenadamente, ocupando o centro alternadamente. Na dupla de ataque, a ótima fase de Kardec e Pato. Que fizeram juntos seis dos últimos oito gols do São Paulo.

Peça importante e que merece muito destaque é Paulo Henrique Ganso. Muitas vezes criticado pela falta de movimentação e pela inércia dentro de campo, o camisa 10 voltou a brilhar como na era Santos. Em quatro jogos, dois gols e duas assistências. Efetivo na marcação, tem 36 roubadas de bola em 17 jogos. Preciso na frente, deu 7 assistências em 17 jogos, segundo colocado no quesito, além de 34 passes para finalizações. Tem se movimentado constantemente.

Mapa de calor: Foootstats | O mapa de movimentação de Kaká, sempre pelos lados do campo ajudando muito na marcação, mas também na armação das jogadas.

Mapa de calor: Foootstats | O mapa de movimentação de Ganso, trabalhando o lado do campo para marcar e ocupando o centro para armar as jogadas.

Outro que cresceu muito, já citado acima, foi Alexandre Pato, que de moeda de troca se tornou artilheiro do elenco, com seis gols no campeonato, além de talismã dos clássicos, marcando contra Palmeiras e Santos. Evolução técnica e tática que se deram com a chegada de Kaká, um craque, que não teve vaidade quando foi encarregado de marcar o lateral até a linha de fundo. Compromisso.

Comprometimento e trabalho são as receitas de Muricy em sua modernização, que passa pela chegada de Kaká e a insistência em Pato e Ganso. O São Paulo, hoje, mostra a execução de futebol mais moderna do Brasil. Está na caça à raposa e, com consistência, pode chegar lá.

O moderno 4-4-2 do São Paulo, que tem constante movimentação de seu quarteto, mas também tem compromisso tático. Com marcação e compactação.

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Estudante de jornalismo. Redator e editor no Taticamente Falando. Colunista no Doentes por Futebol. Contato: [email protected]