Dois irmãos, duas nações

Arte: Fred Miranda

Arte: Fred Miranda

Por O Futebólogo

Origem: s. f. Princípio; início; nascimento; procedência; naturalidade; pátria; ascendência.

Se o significado de “origem” estivesse restrito aos vocábulos expostos por Silveira Bueno em seu dicionário, não seria possível explicar um acontecimento cujos protagonistas vêm da família Cissokho. Diferentemente dos irmãos Boateng (Jeróme e Kevin-Prince), cujas mães são diferentes e que também tiveram diferentes condições de desenvolvimento, Aly e Issa tiveram uma vida comum.

Filhos de imigrantes senegaleses, os irmãos Cissokho nasceram na França. Issa, o mais velho, na capital Paris e Aly em Blois, cidade localizada no centro do país. Ambos sempre demonstraram predileção pelo futebol, militando desde muito jovens em equipes amadoras. Contudo, o tempo e o destino favoreceram primeiramente o irmão mais jovem, cujo brilho ofuscou, durante muito tempo e completamente, a existência de seu consanguíneo.

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Apesar de ser mais lembrado por suas trapalhadas do que propriamente por seu futebol, Aly Cissokho sempre foi um jogador muito dedicado. Assim, conseguiu rapidamente o que Issa demoraria muito para alcançar e o que Mamadou e Demba, os dois irmãos mais velhos da família e também futebolistas, jamais conquistariam. Depois de passar pelos amadores Blois Foot 41 e Saint-Jean Ruelle, se formou no modesto FC Gueugnon (cuja maior glória foi a conquista da Copa da Liga de 2000 em cima do PSG, do craque Jay-Jay Okocha), que encontrava-se à época na Ligue 2.

Já em sua primeira temporada, Aly destacou-se e ganhou uma oportunidade no Vitória de Setúbal, de Portugal. Mantendo sua trajetória em ascensão, foi bem nos Vitorianos e chegou ao Porto. Com grande destaque nos Dragões, meteoricamente, aportou em Lyon, contratado por 15 milhões de euros. De volta à sua nação natal, aos 22 anos, começou bem sua trajetória no clube francês e tomou uma decisão de alta complexidade. Com a lesão de Gaël Clichy, o treinador da Seleção Francesa, Raymond Domenech, convocou Cissokho, que prontamente aceitou a missão.

Foto: Reprodução - Desde 2010, Cissokho não é convocado pela França

Foto: Reprodução – Desde 2010, Cissokho não é convocado pela França

Apesar de sua origem Senegalesa, o lateral esquerdo sempre teve a pretensão de defender Les Bleus. Durante boa parte de sua carreira, sobretudo em seu período em Portugal, foi constantemente sondado pela Federação Senegalesa de Futebol, que desejava contar com seu futebol. Todavia, o convite foi sempre e enfaticamente rechaçado. Não é que o jogador renegue suas origens familiares, mas seu sentimento e seus sonhos sempre estiveram ligados a um chamado francês.

Quando de sua convocação, Aly disse: “Eu nasci na França. Sempre sonhei em jogar pela França, mas eu não me esqueço da nação de meus pais, um país que amo. Tive contatos por alguns meses com os chefes da Federação Senegalesa. Eu lhes disse que preferia me concentrar em meu clube, na minha trajetória no Lyon.” Perguntado se atuar pela França era a realização de um sonho, disse: “ É assim com qualquer jogador (…) e agora é realidade. Estou muito satisfeito.”

Ironicamente, depois de sua convocação, seu futebol só decaiu. Do Lyon ao Aston Villa, com escalas malsucedidas por Valencia e Liverpool, nunca mais voltou a ser destaque e não mais voltou à Seleção.

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Curiosamente, sua queda coincidiu com uma já improvável ascensão de Issa, seu irmão mais velho. Em 2010, aos 25 anos, o jogador que atua no flanco contrário ao de seu irmão, pela lateral direita, ainda não havia se profissionalizado. Ainda com um contrato amador, chegou ao tradicional FC Nantes, então na Ligue 2. Após quase um ano, já no final da temporada 2010-2011, e somente em decorrência de lesões, ganhou chance profissional, contra o Chateauroux.

Desde então, sua carreira deu uma guinada. Primeiro, assinou um contrato profissional de dois anos que duraria até o final de 2012-2013. Com bom desempenho, esse acordo foi renovado até 2016. Assim, em 2013, conseguiu realizar seu grande sonho: há tempos em observação, ganhou seu primeiro convite para representar a Seleção Senegalesa. Pouco antes de receber sua oportunidade, declarou: “[Sobre a possibilidade de ser convocado por Senegal] Está sempre em minha cabeça. Eu tento jogar meus jogos tão seriamente quanto seja possível. (…) Os chefes sabem: eu sou senegalês.”

Foto: Reprodução - Persistente, Cissokho agarrou com todas as forças a chance no Nantes

Foto: Reprodução – Persistente, Cissokho agarrou com todas as forças a chance no Nantes

Como Aly, que sonhava defender a França, Issa realizou seu sonho e defendeu as cores do país natal de seus antepassados. “Estou muito feliz e orgulhoso por jogar por Senegal. Eu me lembro das partidas da Copa do Mundo de 2002, incluindo a contra a França, com jogadores como Khalilou Fadiga e El Hadji Diouf. Era um sonho jogar por Senegal. Se tornou realidade,” disse.

Outra diferença sensível entre o caso dos “Boatengs” e o dos “Cissokhos” é a relação existente entre os irmãos. Próximos, têm bom relacionamento e não têm qualquer problema em falar sobre suas distintas escolhas. Inclusive, declaram abertamente torcer pelo sucesso um do outro.

Ao final, contada a história da família Cissokho, ainda há algo por responder: o que é origem? Diferentemente da resposta catedrática de Silveira Bueno, há mais do que uma circunstância de lugar em jogo, há o verdadeiro sentimento de inclusão. Criados da mesma forma, os irmãos Cissokho têm sentimentos diferentes sobre sua origem, provando, definitivamente, que origem é algo muito mais subjetivo do que supõe a vã humanidade.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.