É preciso saber perder

  • por Bráulio Silva
  • 6 Anos atrás

Sabe aquele seu colega chato que torce pro rival e quando o time dele perde é sempre o mesmo papo? “Perdeu porque deixamos! Perdeu porque o time se vendeu! Os caras querem derrubar o treinador!” Nunca o time perde porque o adversário foi melhor.

Pior ainda são as teorias conspiratórias que aparecem após um resultado surpreendente. Afinal de contas, “se as pessoas soubessem o que aconteceu (insira a competição ou local aqui), ficariam enojadas…” E o mantra é repetido desde 1998, quando o Brasil foi atropelado pela França na final do Mundial daquele ano.

O futebol tem, sim, muita sujeira. E quanto mais dinheiro é envolvido, mais fácil a ocorrência de algum tipo de corrupção. Afinal de contas, um mar de grana movimenta o futebol.

Vira e mexe, vai aparecer em algum lugar alguma teoria falando que a lesão de Neymar diante da Colômbia foi forjada. Afinal, vai ser difícil de engolir que o time dono da casa tenha tomado uma goleada de 7×1. Bem mais tranquilo procurar alguma conspiração do que admitir que David Luiz fez uma partida terrível, que Dante não tem nível de seleção ou de que Bernard entrou todo borrado no gramado do Mineirão.

A história da vez é a de que Inter, São Paulo e Fluminense entregaram seus jogos do meio de semana para disputar a Copa Sul-Americana. Tá, ok. Mas a troco do quê?

Em tempos em que uma vaga na Libertadores é mais comemorada que um título, a Copa do Brasil esportivamente te dá mais satisfação do que a Sul-Americana, afinal, a vaga para a Libertadores vem automaticamente. Vencendo a “Sula”, o time teria que disputar a temida fase preliminar. As premiações são parecidas. O desgaste tende a ser pior ou no mínimo igual. E será que os eliminados estão mesmo com essa bola toda para escolher a competição que vão jogar e ainda garantir a conquista? Basta olharmos o histórico recente das três equipes.

O Inter é tido como o melhor elenco do Brasil. Há tempos, tem como prioridade conquistar o Brasileirão. Nos últimos anos, ficou com o vice-campeonato em 2005, 2006 e 2009. Na Copa do Brasil de 2013, foi eliminado nas quartas de final após empatar os dois jogos contra o Atlético-PR. Na partida de ida e com força máxima diante do Ceará, foi dominado durante boa parte de jogo. Acabou derrotado por 2×1 e poderia ter sido mais, se Dida não defendesse um pênalti ainda no primeiro tempo. No segundo jogo, com alguns reservas, acabou perdendo por 3×1.

Já o São Paulo tem um elenco recheado de estrelas, em especial no setor ofensivo. Entretanto, as últimas eliminações do time foram todas vergonhosas. Em 2013, caiu fora da Libertadores após ser goleado pelo Atlético-MG. Na Sul-Americana, caiu diante da Ponte Preta, que tinha acabado de ser rebaixada no Brasileirão. Para completar, tem também a eliminação contra o Penapolense, pelo Campeonato Paulista, nos pênaltis, depois de 90 minutos e apenas um chute em direção ao gol.

Após vencer o jogo de ida por 2×1, Muricy Ramalho optou por poupar alguns de seus jogadores. Luis Fabiano e Rodrigo Caio estão lesionados; Alan Kardec não pode jogar a Copa do Brasil; Kaká, Douglas e Rafael Tolói foram poupados da partida. Para piorar, o goleiro Rogério estava em uma noite irreconhecível, falhando nos três gols do time de Bragança. Houve, sim, um menosprezo por parte da comissão técnica do São Paulo.

O Fluminense fez 3×0 no América em Natal. Resultado que, se fosse na primeira ou na segunda fase, eliminaria o jogo de volta. Com isso, o técnico Cristóvão Borges optou por poupar dois de seus principais jogadores, Conca e Wagner. A derrota por 5×2 sofrida no jogo de volta deixou todos perplexos. Perplexos como na campanha que culminou com o rebaixamento em 2013 – impedido pelo STJD. Ou então com a derrota na estreia da Copa do Brasil e os 3×1 diante do Horizonte-CE.

No ano passado, o Flu foi eliminado pelo Goiás nas oitavas de final da Copa do Brasil. Anteriormente, havia caído nas quartas da Libertadores com uma derrota de virada diante do Olímpia. Com a eliminação da Copa do Brasil, o Fluminense ainda poderia ficar de fora da Sul-Americana. Para isso, bastava o Santos ser eliminado pelo Londrina. Os santistas passaram no sufoco, graças ao poder de decisão de Robinho, que, ao contrário de D’Alessandro, Kaká ou Conca, não foi poupado e esteve em campo para decidir o jogo.

Aprendi a nunca duvidar de nada no futebol. Derrotas improváveis acontecem. Mesmo que queiram empurrar goela abaixo que tal time entregou um jogo, é difícil acreditar nisso. Até porque entregar sem levar vantagem nenhuma é de uma burrice gigantesca. Vamos, parem de cogitar isso. Seu (nosso) time não foi bom o suficiente para avançar de fase, como mostra seu histórico recente de eliminações. Ou será que ele entregou nos vexames de anos anteriores também?

 

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Paulistano, casado e com 33 anos. Apaixonado por futebol e pelo São Paulo FC. De memória privilegiada, adora relatar e debater fatos futebolísticos de outrora. Ex-estudante de jornalismo, hoje gerencia uma drogaria no município de Barueri, além de escrever para a Doentes por Futebol.