Gladbach almeja voos mais altos

  • por João Almeida
  • 5 Anos atrás

Quando, em 2010, o suíço Lucien Favre aceitou uma proposta para treinar o Borussia Mönchengladbach, o que ele encontrou foi um time desmotivado e desunido, na iminência de disputar a segunda divisão alemã. No entanto, o treinador conseguiu mexer com os brios de seus novos comandados a ponto de evitar o rebaixamento do então décimo oitavo colocado naquela temporada. Foi difícil, mas, após disputar a permanência contra o Bochum, se manteve na primeira divisão, na qual um ano depois alcançaria um quarto lugar e uma histórica classificação para a Champions League, com a mesma base do time que quase fora rebaixado pouco antes.

Quatro anos depois, Favre começará um novo trabalho, sob uma nova perspectiva. Desde que assumiu o Mönchengladbach, o time só terminou na parte de cima da tabela e, novamente, disputará uma competição europeia. Esta mudança de patamar na história recente do clube rendeu a ele também maiores investimentos, que foram muito bem aproveitados pela diretoria até aqui nesta janela de transferências. A nova dinâmica do clube, somada ao bom grupo que vem sendo formado, colocam o Gladbach como grande aspirante a surpresa este ano, podendo brigar ainda mais em cima da tabela e surpreender em nível continental.

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Apostando sem grandes riscos

Apesar de sua grande torcida, o time nunca foi um grande foco de investimentos. O orçamento reduzido o fez dançar conforme a música e, assim, apostar muito em suas categorias de base, bem como em jogadores sem contrato ou jovens promessas. O grande expoente de tal política foi Marco Reus, que, após ter sido contratado por cerca de um milhão de euros junto ao Rot-Weiss Ahlen, então da segunda divisão local, foi vendido ao Borussia Dortmund por cerca de dezessete vezes tal valor.

Com o sucesso de tal estratégia, tanto no que se refere às vendas conseguidas graças a ela quanto no referente aos resultados alcançados devido à sua implementação, o clube se permitiu fazer investimentos além do que costumava. Um dos exemplos de como os fundos arrecadados permitiram algumas “loucuras” foi a contratação do holandês Luuk De Jong, que, após ótima temporada pelo Twente, foi para os Potros por aproximadamente 12 milhões de euros – preço altíssimo para os padrões do clube – e acabou não correspondendo.

#487986387 / gettyimages.com | Ter Stegen em sua despedida do clube

O time titular que disputou a última temporada foi um exemplo de como o Gladbach foca nesta ideologia – e como ela vem fazendo efeito. O valor pago pelo clube pelos onze jogadores foi de cerca de 27 milhões de euros, o que confere uma média de preço de pouco menos de dois milhões e meio de euros por jogador, ínfima se comparada às cifras do mercado atual. Dentre eles, três foram frutos da base (Stegen, Korb e Herrmann), um chegou por empréstimo (Kramer) e outro chegou ao clube de graça (Wendt). Vale destacar também que apenas Xhaka e Domínguez foram responsáveis por quase 60% do valor pago.

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Repondo as saídas e aumentando as opções

Para a próxima temporada, na qual o time disputará a Liga Europa, foram feitas várias contratações, a fim de evitar perdas com saídas, aumentar o nível do plantel e dar mais opções a Favre. A principal saída foi a de ter Stegen, que, após anos como titular na meta do time, se transferiu para o Barcelona, onde deverá ser o substituto de Victor Valdés no gol culé. Além dele, outro titular que deixou o clube foi o venezuelano Juan Arango, que, já com 34 anos, foi para o México defender o Tijuana. Kramer, outro destaque do plantel, deverá voltar para o Bayer Leverkusen após o fim de seu empréstimo.

No entanto, as saídas não deverão ser tão sentidas. Para a vaga de Stegen, foi contratado o goleiro Yann Sommer, que defendia o Basel, da Suíça, e foi um dos três arqueiros escolhidos pelo técnico Ottmar Hitzfeld para vir ao Brasil com a seleção suíça. Já com experiência internacional após ter disputado tanto a Liga Europa quanto a Champions League e com alguma bagagem aos 26 anos, Sommer tem em sua ida à Alemanha a possibilidade de consolidação no futebol europeu. Custou aos cofres do clube 8 milhões de euros e é uma aposta, mas bem direcionada, tendo em vista suas boas apresentações e experiência, apesar da juventude.

>>Leia mais: Yann Sommer, o substituto de Stegen<<

E, se Sommer amargou a reserva de Benaglio durante a Copa do Mundo, quem foi muito bem na competição foi o lateral Fabian Johnson. Nascido em Munique, mas com nacionalidade americana, Johnson foi um dos grandes destaques da surpreendente seleção norte-americana e também um dos melhores laterais direitos da competição, o que fez com que fosse contratado sem custos pelo Mönchengladbach. Tem como trunfo sua polivalência, pois, mesmo destro, pode jogar pelos dois lados, o que pode ser importante para Favre, tendo em vista o histórico recente de lesões de Wendt, titular da lateral esquerda.

Contudo, o setor que foi melhor reforçado foi o meio de campo. A primeira contratação a ser anunciada foi a de Andre Hahn, grande destaque do Augsburg na histórica campanha do clube e um dos melhores jogadores da última edição da Bundesliga, o que lhe rendeu uma vaga entre os trinta pré-convocados de Joachim Löw para a disputa da Copa do Mundo. Posteriormente, o clube acertou também a contratação por empréstimo junto ao Chelsea de Thorgan Hazard, irmão mais novo de Eden Hazard e um dos destaques do último campeonato belga pelo Zulte Waregem. Por último, Ibrahima Traoré, que disputou a última Bundesliga pelo Stuttgart, foi adquirido pelo clube. Assim, as opções para o meio melhoraram muito, tanto em quantidade quanto em qualidade.

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Como encaixar as novas peças

O meio de campo, certamente, dará uma ótima dor de cabeça a Lucien Favre. O técnico costuma escalar o time em um 4-2-3-1 no ataque, com um 4-4-2 na hora da recomposição – ou mesmo um 4-4-1-1 na hora de atacar. Na última temporada, enquanto Kramer (que deverá ser substituído por Nordtveit, que jogou muitos jogos na Bundesliga entrando no decorrer do jogo) e Xhaka trabalhavam na volância, a linha de frente tinha Herrmann (direita), Raffael (centro) e Arango (esquerda) compondo a linha dos três quartos, com Kruse mais à frente. Na hora de recompor, Kruse e Raffael se alinhavam mais adiantados, com os demais meias protegendo as laterais. Para a próxima, as dúvidas certamente serão grandes.

Quanto a Sommer, a titularidade está garantida. E com Fabian Johnson não deverá ser muito complicado, tendo em vista o fato de Korb e Jantschke (que tem jogado mais na zaga) serem tecnicamente mais fracos que ele e Wendt ser fisicamente instável. Gerando um cenário não tão simples, os três meias contratados requerem análises mais específicas.

Thorgan Hazard: ágil e habilidoso, Hazard fez excelente temporada na Bélgica, que lhe rendeu até uma convocação para a pré-lista belga para a Copa, da qual acabou ficando de fora. Em seu país, se consolidou mais na posição de meia, atuando no centro do terceiro quarto do campo, mas jogando também na faixa esquerda. Devido à excelente temporada de Raffael, será difícil assumir o centro da linha de três, tendo a esquerda como melhor opção devido à saída de Arango. Uma terceira opção seria recuá-lo à segunda volância, na vaga deixada por Kramer, ao lado de Nordtveit ou mesmo de um Xhaka mais recuado, mas isso requereria uma adaptação que poderia ou não ser bem recebida pelo jogador.

Hahn: pelo Augsburg, em 32 jogos, fez 12 gols e deu 7 assistências, atuando sempre pelo lado direito da linha de 3 do 4-2-3-1. Em momento algum jogou em outro lado, o que faz com que sua presença no time titular seja a maior incógnita, já que o dono de tal posição é Patrick Herrmann, indubitavelmente um dos melhores jogadores do time. Em um primeiro momento, sua entrada na equipe foi associada à saída de Herrmann, que despertou o interesse de grandes clubes, como o Manchester United e o Borussia Dortmund. No entanto, à medida que sua permanência parece mais certa, a participação de Hahn torna-se mais complicada, pois o jogador dificilmente deixaria o time titular. A solução deverá ser utilizá-lo na esquerda, onde não está acostumado a jogar, mas não deverá demorar a se adaptar, até porque bate muito bem com ambas as pernas. É provável que seja movido de lado, pois deixá-lo no banco seria um desperdício imensurável.

Traoré: Certamente o tecnicamente mais fraco, mas o mais polivalente dos três. Não era titular absoluto do Stuttgart e muitas vezes saía do banco de reservas, mas jogou tanto no lado esquerdo do meio, quanto no direito, podendo atuar também até no comando de ataque. Rendeu mais pela direita, mas utilizá-lo na esquerda não traria grandes malefícios. No entanto, seu melhor – e provável – destino deve ser o banco de reservas.

No jogo contra o Bayern, válido pela amistosa Copa Telekom, Favre mandou a campo um time misto, que não tinha, por exemplo, Herrmann. Sem o titular do lado direito, Hahn não teve problemas para assumir a posição, com Traore do outro lado – Hazard, que fora o destaque do amistoso anterior ao marcar o gol do time diante do Stoke City, não jogou. No entanto, eles inverteram seus lados algumas vezes durante o jogo e, na jogada do segundo gol da equipe, Hahn apareceu muito bem lado esquerdo, o que dá indícios de que pode jogar por lá.

Provável formação titular do Gladbach: as diversas opções dão muita liberdade para Favre variar

Provável formação titular do Gladbach: as diversas opções dão muita liberdade para Favre variar

Há muitas variações devido às incógnitas que são os posicionamentos dos três novos meias. Hahn pela esquerda, por mais que seja um improviso, é o mais provável, sendo ele então o mais cotado para assumir a titularidade. No entanto, optar por Hazard por aquele lado não seria nada absurdo. Do meio pra frente, hoje é impossível tirar Raffael ou Kruse e extremamente improvável abrir mão de Herrmann.

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O dedo do técnico

Após exponencial crescimento na produção do time, o que se pode esperar é que ele faça ótima campanha na Europa League. Se as peças forem aproveitadas da forma certa, será uma das melhores equipes da competição, assim como da Bundesliga, na qual poderá brigar, principalmente, para ser a terceira força do país e por uma vaga na Champions League.

Lucien Favre, após ter encarado o período de vacas magras com extrema destreza, tem à sua frente um período mais farto. Com diversas boas opções, cabe a ele saber aproveitar da melhor forma seus atletas, mesmo que sejam necessárias mudanças táticas para tal. Kruse e Raffael, depois de uma temporada incrível, são hoje unanimidades, assim como o regular Herrmann. Como encaixar e aproveitar melhor cada jogador? – eis a questão do homem que começou a fazer de Reus o grande jogador que é hoje.

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