Jogando com fé

  • por João Almeida
  • 6 Anos atrás
Foto: Reuters - O abençoado Ortigoza comemora o seu gol

Foto: Reuters – O abençoado Ortigoza comemora o seu gol

Como de costume, ela não falhou.

Não se pode falar em milagre, talvez em uma intervenção divina, sobretudo logo no começo, quando Ele interveio no chute de Orué e o soprou em direção à trave. Nada caiu do céu, mas os céus conspiraram para isso. Conspiraram para que os pés santos de Ortigoza fizessem 40 mil torcedores no Nuevo Gasómetro delirarem – como recompensa por tudo o que eles fizeram (inclusive o próprio templo onde estavam).

E que templo. Se por ventura o Papa Francisco for canonizado, a cerimônia deverá acontecer onde ele promoveu a adição dos deuses do futebol à Santíssima Trindade. E onde, concomitantemente ocorrerá a canonização de Edgardo Bauza, que canalizou as forças sagradas na hora mais importante.

Nunca um conclave esteve tão estritamente ligado ao futebol. Francisco superou adversários tidos como favoritos – inclusive um brasileiro – e desde que assumiu sua posição, passou sua energia para o seu time. O viu ser campeão argentino e ir à Libertadores, na qual começou mal. Se classificou de forma dramática, no finalzinho, eliminando um brasileiro. Na sequência, fez o mesmo. Posteriormente, tirou mais um tupiniquim da disputa. Se Deus é brasileiro, virou a casaca desde a posse do argentino, pelo menos por enquanto.

O time teve fé. Jogou com fé. E a fé andou ao seu lado o tempo todo. Agora, Boedo é uma sucursal do Vaticano. Os torcedores fiéis se resumiram a fiéis. Aqueles que não criam, agora creem. Creem em um time que muda da água para o vinho em segundos, após surpreendente começo do não menos surpreendente Nacional. Jogam as mãos para o céu em gesto de agradecimento parecido com o de Coronel, que antecedeu um novo gesto de Sandro Meira Ricci – mais um brasileiro a contribuir com o time (de forma justa, diga-se de passagem) – apontando para a marca da cal.

O tento de Ortigoza freou o ímpeto dos visitantes, motivados pelo gol paradoxalmente marcado por quem carrega a Santa Cruz no nome. Gol que parecia mostrar que a fé não seria tão efetiva. Gol que iludiu, afinal, tinha que ser. Por mais que isso reflita um dogma de uma religião que não a católica, era o destino. Era para ser assim.

O San Lorenzo sagrou-se campeão. Ganhou pelo que fez em campo, mas Francisco teve sua parcela de culpa, nem que tenha sido contribuindo com o psicológico do time, que parecia pensar que, se Deus estava ao seu lado, quem poderia lhe bater? É importante jogar com garra, raça, técnica, tática… mas, como já dizia Gilberto Gil, a fé não costuma faiá.

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