O dono da bola

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

A Supercopa da UEFA teve Cristiano Ronaldo e sua capacidade de decisão única. Os dois gols ratificaram o discurso do craque dito a um dia da final: ele está recuperado e com “sangue nos olhos”. Teve Gareth Bale e sua movimentação implacável. O galês, que terminou 2013-2014 em alta, está cada vez mais livre e solto a um sistema no qual demorou a se adaptar. Bale é, por ora, o jogador mais em forma do Real Madrid na pré-temporada. Teve Fábio Coentrão e Carvajal, brilhantes no combate a Aleix Vidal e Vitolo pelos lados, respectivamente. Teve Pepe, que travou Bacca de maneira eficiente quando exigido.

Mas o jogador mais destacável de Real Madrid 2×0 Sevilla não participou, estatisticamente, de nenhum gol. Toni Kroos, em sua estreia, já encanta o madridismo. Foram 73 passes certos em 77 tentativas, 95% de efetividade, números que se assemelham à melhor versão de Xavi (aquele que já fez treinadores e esquemas do Real Madrid tanto sofrerem com sua capacidade de controlar uma partida).

Não é coincidência que a atual versão de Kroos seja comparada ao meio-campista catalão. Acostumado a atuar de “camisa 10” com Jupp Heynecks e até a fazer a ponta pela esquerda, Kroos teve suas características exploradas ao máximo por Pep Guardiola na temporada passada. Pep, que elevou a carreira de Xavi, potencializou o estilo de jogo do atual merengue. Escalado mais recuado, ora no vértice do triângulo de meio-campo, ora por dentro do 4-3-3/4-1-4-1, Kroos se transformou num gestor de jogo de classe mundial. Ele inicia as jogadas, ordena, pausa e manda na partida. Em suma, é um meio-campista completo, imprescindível a qualquer sistema.

Foto: Getty Images Europe | Toni Kroos com a bola: cena que será comum na temporada

Foto: Getty Images Europe | Toni Kroos com a bola: cena que será comum na temporada

É cedo, mas o recuo de Kroos, que beneficiou a Alemanha na Copa, começa a surtir efeitos em Chamartin. Se Ancelotti era temerário quanto a atribuir ao alemão o papel de Xabi Alonso, acostumado a atuar “à Pirlo” (armando seu time à frente da defesa), o treinador presenciou uma atuação simbólica do seu novo pupilo. Além de acrescentar demais ao time e ser compatível com qualquer parceiro de meio-campo por sua versatilidade (o próprio Xabi, Modric, James, Khedira ou Isco), ele é uma espécie de jogador-modelo: disciplinado, com um potencial enorme e disposto a aprender cada vez mais. Kroos vale ainda mais num período em que Ancelotti tenta retornar à proposta inicial de seu projeto, de “mais fantasia e menos pragmatismo”.

Em regra, é muito melhor criar o hábito de recuar meias do que o de avançar os volantes. Mourinho falhou quando tentou transformar Modric num substituto de Özil, centralizado na linha de três próxima ao centroavante. O impacto do novo camisa oito blanco no time de Carletto é grande. O Marca se refere a ele como “Super Kroos”. Para o AS, foi “a partida perfeita”. O repertório de Kroos em Cardiff, que incluiu apenas uma bola perdida e um desarme que resultou no primeiro gol de Cristiano Ronaldo, é o pontapé inicial de um jogador capaz de fazer história no Santiago Bernabéu.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.