O futebol é para todos

  • por Matheus Mota
  • 5 Anos atrás
Partida entre Rússia e Uzbequistão pela Amputee Football World Cup. Foto: Reprodução

Partida entre Rússia e Uzbequistão pela Amputee Football World Cup. Foto: Reprodução

Via de regra, grandes eventos esportivos causam comoção. A Copa do Mundo é o expoente máximo para isso, mas outros eventos, como as Olimpíadas, tem o mesmo efeito. Mas sobre as olimpíadas, pelo menos no Brasil, pouco se ouve falar dos atletas de modalidades olímpicas no período entre as Olimpíadas, a não ser é claro que o atleta em questão vença algo. E ainda assim a repercussão é efêmera. Na questão dos esportes paralímpicos, o buraco é mais embaixo, pois nem no seu evento máximo a visibilidade é muita, a despeito do crescimento de tais modalidades no mundo todo, abarcando os mais variados esportes, e por ser o esporte mais praticado no mundo, naturalmente o futebol é um grande alvo para adaptações. Uma dessas variantes do futebol que está crescendo nos últimos anos é a voltada para pessoas que sofreram amputações.

Essa variação foi criada pelo esportista Don Bennet nos EUA no início dos anos 80, e por acidente. Esquiador e alpinista, Bennet continuou a se dedicar a esses esportes mesmo após perder uma perna em um acidente marítimo (semelhante ao que ocorreu com o brasileiro Lars Grael). Certa feita, após seu filho deixar escapar da quadra uma bola de basquete, Bennet, que naquele momento estava usando as muletas ao invés da prótese, chutou a bola. Ao fazer isso, percebeu que seria possível jogar futebol dessa maneira. Vale lembrar que naquele período os EUA ainda sentiam a influência da NASL (Nort America Soccer League), o torneio que trouxe astros internacionais, como Best, Beckenbauer e Pelé.

Em relação às regras, elas são simples. Os jogadores, divididos em times de 7, atuando em campos society, só podem tocar as bolas com os pés. Caso a bola bata nas muletas, o critério usado é o mesmo do futebol tradicional nos lances com mão. No caso dos goleiros, estes são pessoas que perderam um dos braços (para se ter uma noção de como o jogo flui, é recomendável ver um vídeo, como esse aqui). As partidas são realizadas em dois tempos de 25 minutos, e a regra das substituições é a mesma vista no futsal.

Assim sendo, a partir do chute inicial, o crescimento foi rápido, e já em 87 um mundial foi criado, sendo conquistado por El Salvador, o que é um indício da rápida expansão da modalidade, que nesse mesmo período (segunda metade dos anos 80) foi introduzida no Brasil. Um campeonato nacional é realizado regularmente desde os anos 90, e os resultados esportivos não demorariam. Já em 99 a seleção brasileira conquistaria seu primeiro mundial. Outros três viriam, o último em 2005. Os Mundiais historicamente foram dominados pelos brasileiros e pelos russos, que possuem seis conquistas. O atual campeão é o Uzbequistão, que defende o título já em 2014, no México.

Para participar de um mundial, basta pedir a inscrição para a WAFF (World Amputee Football Federation). Considerando que são apenas 25 os países que possuem federações nacionais, não faria muito sentido promover eliminatórias. Como parâmetro de comparação, o Mundial de 2012, realizado na Rússia, contou com 12 participantes. O único “porém” é que como a atividade é amadora, são as próprias federações nacionais que bancam o transporte até o país sede. Por conta disso, os potenciais participantes da Copa do México, a ser realizada em novembro, ainda não foram confirmados.

Ainda existem muitas dificuldades para serem superadas, como a impossibilidade de custear as despesas das seleções, a falta de capital para acelerar a expansão do esporte, a ausência de uma competição do mesmo porte voltada para mulheres, entre outras. No entanto, o saldo do atual cenário é positivo, e dá perspectivas de que a modalidade cresça em um futuro próximo.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.