O rei do deserto

Imagem: Alexandre Battibugli/Placar

Imagem: Alexandre Battibugli/Placar

Após a conquista da Euro 2008, o lendário Luis Aragonés assumiu o Fenerbahçe naquele que seria seu último trabalho como técnico. Na equipe turca, uma das primeiras alterações táticas promovidas pelo experiente treinador foi recuar o meia-atacante Alex para ser o armador do time. Acostumado a atuar próximo à meta adversária, o brasileiro, a princípio, estranhou a medida, mas logo ouviu do treinador que a ideia era qualificar o passe no meio-campo do Fener. Era o mesmo princípio usado na Seleção Espanhola sendo aplicado em seu novo clube.

A partir daquele momento, Alex se tornou o armador do Fenerbahçe assim como Xavi era na Roja. Uma função tão bem representada por nomes do calibre de Stefan Effenberg, Steven Gerrard e Frank Lampard e consolidada nos pés de Luka Modric, Toni Kroos e Thiago Alcântara, mas que encontrou sua quase extinção no Brasil. Logo no país que um dia aplaudiu a classe de Didi, Gérson e Paulo Roberto Falcão. Hoje, dividimos o meio-campo entre jogadores que marcam e os que atacam. No meio, abriu-se uma cratera. Não por acaso, vivemos uma das maiores crises criativas de nossa história futebolística.

Taticamente, a explicação não é das mais complexas. Nos anos 1980, nossos antigos ponteiros perderam espaço para a inclusão de mais um meio-campista defensivo. Consequentemente, os alas passaram a atuar por, praticamente, toda a faixa lateral do gramado. Escrevo “praticamente”, porque suas subidas precisavam de uma cobertura que só dois volantes poderiam realizar. Desse modo, nasceu o chamado 4-2-2-2 que ainda serve como base para equivocadas ilustrações táticas na televisão e para premiações como a Bola de Prata da revista Placar.

Tempos depois, uma decisão que parecia acertada há 30 anos, tornou-se o grande dilema do futebol brasileiro. Com a compactação dos times, ora uma regra mundial, o que antes era uma zona de destruição passou a ser o centro das equipes. Isso significa que o jogo passou a ser gerado a partir dos volantes e estes precisam agir de forma intensa com e sem a bola. O crônico problema na transição defensiva e na proposição da Seleção Brasileira nos últimos anos é resultado direto desse ultrapassado conceito. Sem jogadores capazes de organizar de trás e sem, aparentemente, haver treinamentos voltados para sanar essa deficiência, a solução encontrada foi a mais pobre possível: Lançamentos diretos desde os zagueiros. Não por acaso, raros foram os lances que obtiveram êxito na Copa.

Num primeiro momento, a convocação realizada pelo técnico Dunga na última terça-feira segue o antigo modelo. Dos quatro volantes chamados, somente Fernandinho se aproxima da figura de um armador. Apesar de ter um passe correto, Luiz Gustavo é, basicamente, um marcador. Ramires é um condutor de bola e Elias pode ser descrito como um volante de infiltração. Na prática, a organização seria realizada por Oscar e Philippe Coutinho, se este jogar. Contudo, ambos atuam, prioritariamente, como meia-atacantes, oferecendo o último passe. Não são construtores de fato. No Chelsea e no Liverpool, os principais armadores são Fábregas e Gerrard, respectivamente.

Entre todos os jogadores brasileiros nenhum se encaixa melhor na definição de armador do que Paulo Henrique Ganso. Dotado de uma visão de jogo incomum e técnica refinada, o meia do São Paulo consegue ditar o ritmo e descobrir companheiros onde ninguém mais enxerga. Impregnado com a noção de que meias devem se aproximar mais do gol, Muricy Ramalho costuma dizer em entrevistas que seu comandado deve entrar mais vezes na área. Talvez não tenha percebido que o habitat de Ganso é justamente o meio-campo. Para ele, finalizar em área deveria ser muito mais uma situação dentro de determinados lances do que uma obrigação frequente. Suas maiores qualidades sempre se mostraram mais úteis no meio-campo, construindo jogadas.

Foto: calcioweb.eu

Foto: calcioweb.eu

Em seu início de carreira, Andrea Pirlo foi um meia-atacante apenas razoável. Não tinha velocidade e habilidade para se livrar dos marcadores, embora tivesse muita técnica. Um dia, sem poder contar com o lesionado Fernando Redondo, Carlo Ancelotti perguntou se Pirlo não gostaria de fazer um teste na função. E o mundo conheceu um dos maiores registas da história. Todavia, como bem define o jornalista André Rocha, o conceito de meio-campista ainda não chegou ao Brasil. Muitos que não veem a hipótese de Ganso atuar mais recuado possivelmente não sabem que o meia foi o líder de desarmes do Tricolor por um bom tempo. A contribuição defensiva existe, o que não existe é a compreensão de que estamos desperdiçando um potencial craque tentado transformá-lo em algo que ele não é. Enquanto esse entendimento não acontece, continuamos a ver um deserto de ideias no círculo central.

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Fanático por futebol em nível não recomendável. Co-autor do livro “É Tetra! - A conquista que ajudou a mudar o Brasil”.