O Sport também precisa jogar, ou: água mole em pedra dura…

Eduardo comanda treino no CT do Sport: é hora de variar, professor. (Imagem: Pedro Galindo).

Eduardo comanda treino no CT do Sport: é hora de variar, professor (Imagem: Pedro Galindo).

Muito já se comentou e elogiou sobre o Sport ao longo desse ano de 2014. Desorganizado e desacreditado em janeiro, o clube mostrou uma improvável evolução, que já resultou em dois títulos e criou na torcida uma enorme confiança em torno do principal responsável por essa arrancada: Eduardo Baptista.

Já falamos aqui (aqui aqui também) que o técnico rapidamente implementou um sólido padrão de jogo, que tem sido o principal trunfo do Leão neste Campeonato Brasileiro. Ele comanda uma campanha até aqui excelente, mas contra o Flamengo, no último domingo, conheceu sua segunda série de duas derrotas no torneio. E precisa mexer na postura do time caso não queira igualar a sua pior sequência, que ocorreu entre a sexta e a oitava rodada.

No Maracanã, Eduardo enfrentou uma variedade de problemas. Para começar, o maior deles: a ausência do capitão Durval, grande esteio defensivo da equipe. Outra perda de última hora foi Rodrigo Mancha, que foi substituído por Ronaldo. Logo nos primeiros minutos do jogo, outra baixa: Éwerton Páscoa. O zagueiro deu lugar a Ferron – que, a propósito, novamente mostrou o porquê de ter sido relegado a quarta opção da zaga.

Mesmo diante de tantas adversidades, o Leão segurou o Fla durante exatamente 84 minutos. Aí, aconteceu algo que já vinha se desenhando: o brasileiro-croata Eduardo, que havia entrado bem no jogo, subiu livre de marcação para fazer o gol da vitória – na segunda finalização no alvo do Rubro-negro carioca.

Como sempre, Sport tem tido dificuldade para segurar resultados fora de seus domínios (Imagem: Instagram/Sport Club do Recife).

Como sempre, Sport tem tido dificuldade para segurar resultados fora de seus domínios (Imagem: Instagram/Sport Club do Recife).

Foi duro. Segundo Neto Baiano, “um castigo”. Só que não foi a primeira vez: foi o sexto gol sofrido pelo Leão nos 15 minutos finais em partidas do Brasileirão. Contra Galo, Cruzeiro e Figueirense, não alterou a história dos jogos. Contra o Fla, como contra o Santos, na estreia, custou ao clube preciosos pontos.

Interessante notar também que o time também tem tido dificuldade para manter o resultado nos 15 minutos finais das primeiras etapas. Foram quatro gols cedidos no último terço da primeira metade dos jogos, e três deles – contra Inter, Corinthians e Figueirense – transformaram partidas abertas em bem encaminhadas derrotas.

Assim, dos 15 gols sofridos pelo Leão nesse Campeonato Brasileiro, dez aconteceram depois do time marcar dedicada e intensamente durante (mais de) 30 minutos ininterruptos. Uma estatística que escancara um dos maiores problemas que o time comandado por Eduardo Baptista vem enfrentando e assim continuará, se seguir adotando uma proposta de jogo baseada apenas na correria e na marcação.

Isso porque há duas verdades que são implacáveis no futebol. Primeiro: correr atrás da bola cansa. Bastante. Exige um condicionamento físico impecável, um padrão tático bem ajustado e muita concentração. Mas manter esses três atributos funcionando à perfeição durante 45 minutos de bola rolando é uma tarefa árdua para qualquer equipe. Ainda mais para jogadores que ainda não conseguem suprir a ausência de alguns dos titulares – ou mesmo na presença destes.

Gráfico que mostra os gols sofridos pelo Sport no Brasileirão: tem faltado concentração nos instantes finais (Imagem: Reprodução/Footstats).

Assim, quando abdica de jogar e criar chances para apostar unicamente em fechar os espaços no campo defensivo, Eduardo mostra uma grande confiança na capacidade de seu time de segurar a onda mesmo nos momentos mais críticos – que geralmente ocorrem justamente nos instantes finais, quando o adversário vem com tudo, “abafando” e tentando o resultado a todo custo. E é aí que entra em cena a segunda (e velha) máxima, que vem tolhendo o sucesso rubro-negro no campeonato: como sabemos, água mole em pedra dura…

É certo que a qualidade do elenco rubro-negro não está à altura dos planos e conceitos de Eduardo, que já se mostraram exitosos na curta carreira do treinador. Mas mesmo dentro das limitações de seus atletas, ele precisa desenvolver uma estratégia de jogo que saiba também privilegiar a posse de bola e a criação de oportunidades. Até porque praticamente todos os clubes da Série A também vêm mostrando limitações severas, o que deveria ser suficiente para fazer o Sport acreditar mais no seu poder de fogo e capacidade de resolver as partidas.

Para fugir dessa sina de ver pontos suados se esvaírem nos instantes finais das próximas partidas, portanto, Eduardo só tem uma escolha: colocar seu time para jogar bola. E, dessa forma, matar os jogos na frente, impedindo que os adversários mantenham o ânimo e esperança até o apito final do juiz. O (ótimo) sistema defensivo do Sport, tão sobrecarregado ultimamente, agradece.

As estatísticas são do Footstats.

 

Comentários

Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.