Olho nele: Munir El Haddadi, a nova promessa do Barcelona

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

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Camp Nou, 24 de agosto. O marcador mostrava Barcelona 1×0 Elche, pela estreia da Liga Espanhola 2014/2015. Aos dois minutos do segundo tempo, Rakitic pegou a bola na linha central do meio-campo, levantou a cabeça e, de esquerda, lançou verticalmente. À frente, um jovem saiu da marcação e recebeu a pelota em boa condição de marcar. Com extrema categoria, deu um tapa de esquerda à la Romário para vencer o goleiro rival e ampliar para seu time. Ele não queria desperdiçar. Já havia carimbado o travessão na primeira etapa. O Camp Nou aplaudiu de pé o seu mais novo xodó, que foi substituído 20 minutos mais tarde sob ovação da torcida culé: Munir El Haddadi.
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O espanhol com ascendência marroquina está em evidência em 2014 por uma série de fatores que condicionaram sua curta carreira. Desde a brilhante Uefa Youth League, competição que o colocou nos holofotes, à sua boa estreia na Liga BBVA, a ascensão de Munir foi meteórica. Explicaremos a trajetória da jovem promessa ao longo do texto por passos.

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O complicado início

Munir El Haddadi nasceu em El Escorial, pequeno município da comunidade de Madrid. Madrilenho de nascença, rodou por pequenos clubes da cidade na sua infância, até chegar ao Atlético de Madrid, em 2010. Após um teste em Manzanarez, os olheiros colchoneros não tiveram dúvidas de que ali havia um grande potencial a explorar. Não foi o que aconteceu, na prática. Sem muitas oportunidades nos jogos do Cadete A do Atléti, o menino acabou emprestado às canteras do Rayo Majadahonda, clube de Madrid. Ali, começava sua volta por cima.

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A chegada à Catalunha

Os 32 gols em 29 jogos na temporada regular chamaram a atenção de muitos clubes europeus. De volta ao Atlético de Madrid, recebeu, formalmente, duas propostas de Manchester City e Real Madrid. Mas a decisão de Munir foi outra: o Barcelona. Ele arrumou as malas, deixou a capital espanhola e rumou à Catalunha, para a famosa La Masía, na época em evidência graças ao time de Josep Guardiola e seus incríveis canteranos, como Valdés, Piqué, Puyol, Busquets, Xavi, Iniesta, Pedro e Messi, o ídolo de Munir.

No Juvenil B do Barça, o até então centroavante foi transformado num ponta-direita de grande utilidade. A rápida adaptação à ponta do 4-3-3 do treinador Francisco García Pimienta (que, de acordo com o Mundo Deportivo, foi quem pediu a contratação de Munir) surpreendeu. Ele terminou sua primeira temporada azulgrená como protagonista de dois títulos: a Liga Nacional juvenil e a Copa da Catalunha.

Não tardou até que ele revezasse entre o time juvenil B e o time juvenil A. E foi nessas idas e vindas que as portas do sucesso começaram a ser abertas para El Haddadi. Próximo de disputar a primeira edição da Uefa Youth League, Jordi Vinyals, treinador do juvenil A, resolveu convocar o jovem para a competição. Seria uma escolha irretocável.

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Uefa Youth League e a estreia pelo Barcelona B

A Uefa Youth League 2013-2014 foi amplamente dominada pelo garoto. Na partida de abertura contra o Ajax, Munir marcou dois gols e deu uma assistência na goleada blaugrana por 4×1. A capacidade de marcar não só gols mas também criar assistências começaram a chamar atenção. Mas foi o faro de decisão que levou o hispano-marroquino ao topo da competição. No mata-mata, Munir marcou gols em todas as fases (seis no total, sendo dois contra o Copenhague nas oitavas, um contra o Arsenal nas quartas, um contra o Schalke 04 na semifinal e dois contra o Benfica na final). A atuação de ouro na final em Nyom, com direito a um golaço de trás do meio-campo, foi destaque na imprensa catalã. Tudo que Munir precisava.

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Com 11 gols e seis assistências, Munir foi eleito o chuteira de ouro e o melhor jogador da competição, além de ter terminado como líder de assistências da competição. Sua participação no torneio de base europeu chamou a atenção de Eusébio Sacristán, treinador do Barcelona B. Eusébio o convocou para os jogos contra Girona e Las Palmas. E se alguém ainda duvidava de seu futebol, Munir não deu chances aos críticos.

Contra o Girona, ganhou apenas oito minutos, o suficiente para mostrar seu valor. Em seu primeiro toque na bola, marcou um belo gol que deu a vitória ao time de Eusébio, com um chute certeiro de direita no ângulo do goleiro Palatsí, após tabela com Sandro Ramírez. Na semana seguinte, nas Ilhas Canárias, mudou mais uma vez a cara da partida. Munir entrou aos 24 minutos do segundo tempo do duelo contra o Las Palmas, até então empatado por 0x0. No primeiro gol, os papéis se inverteram: de Munir para Sandro e de Sandro para o gol. Quinze minutos depois, Munir deixou sua marca. Recebeu em profundidade do também promissor Samper e tocou no contrapé de Raúl para decretar o triunfo catalão.

Enquanto o time A definhava com a eliminação na UCL, a perda da Liga Espanhola e a derrota na final da Copa do Rei, o time B mais uma vez cravava uma boa temporada na segunda divisão espanhola. Munir ganhou suas chances mais efetivas na reta final do período, mas garantiu seis importantes pontos ao time.

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O futuro do Barcelona?

Foto: AP Photos | Munir e seu ídolo, Messi: protagonistas da estreia do Barcelona no Campeonato Espanhol

Foto: AP Photos | Munir e seu ídolo, Messi: protagonistas da estreia do Barcelona no Campeonato Espanhol

Eis então que Luis Enrique assume o comando técnico do time principal após uma temporada complicada com o argentino Tata Martino. Luis Enrique, que gosta de trabalhar com jovens e conhece boa parte dos canteranos barcelonistas, começava a preparar a pré-temporada de seu novo time. Ele não teve dúvidas em convocar Munir para as sessões de treinos em Birmingham, na Inglaterra. Enquanto Deulofeu, uma antiga joia do clube, perdia moral a cada amistoso e treino, Munir encantava cada vez mais Lucho.

A disciplina tática para atuar pelos lados do campo não pode ser subestimada. Sem Neymar, lesionado, e com Pedro se recuperando de lesão, Luis Enrique encarregou o garoto de começar como titular no primeiro jogo da nova temporada, formando o trio de ataque ao lado de Messi e Rafinha. Menos espetado na ponta esquerda e mais por dentro do sistema ofensivo, com Messi criando de trás, Munir acertou o travessão na primeira oportunidade que teve, mas não falhou na segunda tentativa.

Ainda que não pertença oficialmente ao time A (foi inscrito na Liga com ficha de time B, usando a camisa 31), não serão raras as vezes que veremos o hispano-marroquino (que havia declarado a intenção de defender a seleção do Marrocos, mas passou por duas categorias da Espanha) entrando mais vezes nos jogos do Barcelona ao longo da temporada. Luis Enrique sabe de seu talento e o lançará aos poucos, para ir se adaptando à rotina do elenco, até como forma de blindar sua mais especial promessa, um processo pelo qual Messi passou em 05/06, quando começou a temporada como jogador do time B e cinco meses depois já assinava contrato que o efetivava ao time A.

No limite exato entre o prodígio e a promessa, assim pode-se definir Munir El Haddadi. Olho nele!

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.