Os centenários de 2014

  • por Hugo Melo
  • 6 Anos atrás

Comemorar em ano de centenário é coisa rara no futebol brasileiro. 100 anos de existência carregam em si um ar macabro, um tanto quanto maldito. Não importa o investimento, a promessa ou a esperança, quase todos os clubes brasileiros souberam (ou vão saber) o que é sofrer no ano do centenário.

Nem a seleção brasileira escapou da imprecação. Em 2014 comemorou 100 anos de existência o maior plantel da galáxia. O grandiosismo, entretanto, não foi suficiente para garantir a festa. Até o palco já estava montado, as esperanças a mil, e em casa a canarinha levou 10 gols em dois jogos e viveu uma copa do mundo para se apagar da história (o Maracanazo ainda cuidou de ficar na memória, o Mineiraço foi para se esquecer).

Além da seleção, este ano também sopram a centésima velinha clubes tradicionais do futebol brasileiro. São eles o Paysandu, o Santa Cruz, o Ceará e o Palmeiras. Destes, o único que parece estar entrando no segundo centenário de vida com o pé direito é o vozão.

O Ceará segue com um bom planejamento de gestão elaborado pela diretoria de Evandro Leitão, presidente do clube desde 2008. Desde que Leitão assumiu, o clube retornou a série A em 2010 pela primeira vez desde 93, se mantendo na elite por dois anos e chegando a disputar a segunda competição continental do clube cearense.

A gestão para o centenário começou a distribuir presentes já no ano passado. Em 2013 muitas boas notícias acompanharam o ano da torcida do Alvinegro Cearense. Primeiro foi anunciado aos torcedores a compra de um centro de treinamento, o Ceten. A diretoria ainda obteve contrato de exclusividade com Arena Castelão, que pagará ao time do povo cerca de 130 mil reais por mês.

Este ano o Ceará ainda completou a reforma da fachada do Estádio Carlos de Alencar Pinto, que foi financiada pelos seus torcedores para o 100º ano. Se o extra-campo vai bem nada diferente se podia esperar dentro de campo. Em 2014 o clube garantiu o 4º título consecutivo do estadual, após empatar duas vezes por 0x0 com o maior rival e garantir o campeonato por ter tido a melhor campanha da fase inicial.

Na nova edição da Copa do Nordeste o time fez uma das melhores campanhas, chegou à final após eliminar o favorito Vitória-BA mas não conseguiu o título inédito, sendo derrotado após empatar em casa por 1×1 contra o Sport-PE. A derrota, no entanto, parece não ter desmotivado o time cearense. O Ceará protagoniza uma grande campanha na Copa do Brasil. Após eliminar o poderoso Internacional, se prepara para disputar com o Botafogo uma vaga nas quartas de final da competição em que já foi vice-campeão – na opinião de muitos, é favorito na disputa com o alvinegro carioca.

Além disso, o vozão segue na disputa da série B, visto como um dos favoritos não só ao acesso mas também ao primeiro título nacional do clube em 100 anos. Por outro lado, seus companheiros de “celebração” não parecem ter tantos motivos para comemorar.

O Paysandu, outrora tradicional time brasileiro, campeão da copa dos campeões, bi-campeão da série B, e 5º colocado na Libertadores da América, vive um de seus piores anos. Desde 2005, o Papão da Curuzu caiu da primeira para a terceira divisão em dois anos e lá seguiu até o ano de 2013. No seu 99º ano de vida, chegou com muita esperança para disputar a série B, sob a diretoria do antigo ídolo do clube Vandick Lima, e sonhando com o retorno a elite no ano do centenário.

Na realidade o azulão não chegou nem perto do plano. Acabou rebaixado após ficar na 18ª posição e voltou para a terceira divisão. Com sérios problemas financeiros, o clube vai aos poucos se habituando à pequenez. No campeonato paraense, já começou o ano sendo derrotado pelo maior rival, o Remo, que desde 2008 amarga as últimas divisões do futebol nacional. Em 2013, o Remo sequer disputou competições nacionais..

Ainda contra o Remo, o Papão amargou um vice-campeonato em sua maior chance de título no 100º ano de vida. Na copa do Brasil, não foi além da 3ª fase, onde foi eliminado pelo Coritiba, mesmo jogand em casa. Para piorar, na série C, amarga a 7ª colocação, a oito pontos do rebaixamento para a Série D. Faltando 6 rodadas para o fim da primeira fase, o Papão vê cada vez mais remotas as chances de retornar para a Série B.

Um dia depois do Paysandu, foi a vez do tricolor pernambucano completar 100 anos de vida. Assim como seu companheiro paraense, o Santa Cruz não vê grandes razões para sorrir. Vivendo um centenário discreto em todos os aspectos, desde o começo do ano a torcida sofreu distante de casa. Primeiro, o clube se viu obrigado a comemorar o jogo do centenário em Caruaru, onde o tricolor pernambucano venceu o Bahia por 2×1. Depois, a inacreditável morte do torcedor atingido por um vaso sanitário deixou a torcida tricolor sem casa por todo o primeiro turno do campeonato nacional.

O Santa ainda viu sua supremacia em clássicos construída nos últimos anos ser rapidamente destruída. Foi eliminado pelo Sport nas duas primeiras competições do ano, e perdeu quase todos os clássicos disputados contra o maior rival. Nas semifinais do pernambucano, perdeu a vaga nos pênaltis. Memo vencendo o primeiro jogo por 3×0, o tricolor foi derrotado na Ilha do Retiro por 1×0, e como o regulamento previa que não haveria desempate por saldo de gols, uma vitória e uma derrota por qualquer resultado significaria desempate por pênaltis, e nessa o Santa Cruz se deu mal. Ainda por cima, assistiu ao Sport ser campeão do Nordeste em seguida.

O centenário interrompeu uma sequência vitoriosa de quatro títulos nos últimos três anos. O Santinha ainda terminaria o campeonato na 4 ª colocação, não conseguindo a vaga para o Nordestão do ano que vem.

O ano ainda pareceu melhorar antes da Copa do Mundo ,quando o time seguiu invicto no brasileirão – quebrando o recorde de maior sequência de empates. Mas no retorno do campeonato, a torcida tricolor viu não só a eliminação na Copa do Brasil diante do fraquíssimo Santa Rita, mas também a manutenção de uma situação pouco empolgante na Série B, cheia de altos e baixos. O Santa Cruz se segura segundona sem grandes riscos, mas também sem grandes chances de acesso, fazendo do centenário um ano cada vez mais apático.

O Palmeiras também se desespera após conseguir o retorno à elite do futebol brasileiro com o bi campeonato da série B. O verdão não empolga em campo, segue numa maré de péssimos resultados, onde chegou a segurar a lanterna do brasileirão. Depois do 3° lugar no estadual, o Palestra tem na Copa do Brasil a última esperança para salvar o irônico ano do time que se diz o “campeão do século”.

O histórico de bons goleiros do clube parece enfim ter chegado ao fim. Na história da academia nunca se viu um goleiro tão inseguro quanto Fábio, que substituí o lesionado Fernando Prass – de fora por mais um mês. Com ele se encerra o ciclo de um time habituado a contar com grandes goleiros como Veloso, Oberdan ,Diego Cavalieri, Leão e o pentacampeão do mundo São Marcos.

A ironia não termina por aí, “A defesa que ninguém passa” cantada com glórias no hino palmeirense, é hoje a pior defesa do campeonato brasileiro da Séria A. Se a defesa não ajuda a “Linha atacante de raça” parece não mostrar muita. O centroavante Henrique, mesmo sendo artilheiro do time do brasileirão, é alvo constante de críticas por parte da torcida. No meio-campo, Valdivia, estrela do time e ídolo do verdão, segue em má fase desde 2010, vivendo de lampejos de sua outrora genialidade.

Se a fase está ruim a diretória não parece procurar uma saída. O presidente Paulo Nobre segue insistindo em táticas contratuais por produção, o que leva o verdão a uma desvantagem em relação aos demais times, além de seguir perdendo estrelas para os maiores rivais , como Alan Kardec, que foi para o São Paulo.

O Palmeiras também continua apostando em estrangeiros baratos, e destes nenhum parece vingar no Palestra Itália. Estrangeira também foi a tentativa de solucionar o problema no banco. O técnico Ricardo Gareca conquistou na última rodada sua primeira vitória ao comando do time paulista, encerrando um jejum de dez rodadas sem vitória.

Com este desempenho, é pouco provável que o Palmeiras leve a melhor no confronto contra o Atlético Mineiro na próxima fase da Copa do Brasil. Sem criatividade ou soluções, a diretoria parece encaminhar o Palmeiras para um ano de se esquecer. No dia do 100º aniversário, comemorado hoje, o verdão está na 17 ª posição na tabela do Brasileirão, o primeiro fora da zona da degola, com os mesmos 17 pontos do Criciúma, o que leva o clube a encarar o segundo rebaixamento consecutivo como um perigo real.

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Estudante de jornalismo e direito, observa o futebol como algo infinitamente maior que um esporte, um fenômeno cultural ímpar dotado de poder para munir ditadores e revolucionários. E deste universo que transcende as quatro linhas do gramado tem o tricolor pernambucano como eterno companheiro nas desventuras futebolísticas.