Qual é o limite do amor ao clube?

  • por Victor Junior
  • 7 Anos atrás

Não são raros os casos de jogadores que se dizem identificados com os clubes que defendem. Muitos deles, ao comemorar seus gols, no calor do momento, beijam o escudo bordado na camisa, mandam corações para a arquibancada e fazem diversas outras declarações de “amor” a quem paga o seu salário. A relação entre clube e jogador hoje em dia deveria ser muito mais simples. O problema é que futebol mexe com a paixão, com os brios de quem torce. E, sendo assim, pode se tornar algo muito perigoso.

Diferenciemos: amor – sentimento duradouro que tem justificativa para acontecer e para acabar, caso um dia venha a acabar; paixão – sentimento repentino que não tem justificativa clara para aparecer, simplesmente acontece e dura o tempo que durar, terminando repentinamente ou permanecendo sempre escondido até ser provocado novamente, sempre com “altos e baixos”.

Os torcedores de verdade são, na definição popular, apaixonados pelos seus clubes. Torcemos, apoiamos, criticamos, dizemos “não vou mais te assistir” e na próxima rodada estamos ligados na TV novamente. Ser torcedor é uma “profissão” complicada, não escolhemos o time para que torcemos. Simplesmente nascemos torcendo por ele. Alguns encontram a paixão por seu clube logo de cara. Outros precisam de um incentivo, como um título de expressão, um namorado/namorada que torce para outro time, entre outros motivos possíveis. Mas isso só acontece com pessoas como nós, torcedores, doentes por futebol e pelo clube pelo qual somos apaixonados.

Quem veste a camisa do nosso time dentro das quatro linhas durante os 90 minutos não deve pensar assim. Não pode pensar assim! Jogadores de futebol são (ou deveriam ser), acima de tudo, profissionais da bola. Eles não jogam por “amor à camisa”, mas por essa ser sua profissão. Futebol é o que lhes dá o “pão de cada dia” (ou os iates de cada dia). Existe um contrato a cumprir.

Entretanto, encarar o futebol com uma certa distância emocional inerente ao profissionalismo não equivale a ser indiferente e desrespeitoso com a torcida. Afinal, não consta em nenhum contrato que o jogador deve subir em um trio elétrico na porta do centro de treinamento e falar para milhares de apaixonados pelo clube “Agora, eu sou Mengão!” e depois não aparecer mais nos treinos, forçando a sua rescisão de contrato. Não está previsto em nenhum acordo que um jogador, com 18 anos, precise dar entrevista dizendo “Pelo Grêmio, eu jogo de graça!”, ameaçar voltar ao clube para logo depois leiloar seu passe através de seu empresário.

 Isso é errado… Muito errado. Isso mexe com o nosso clube, com o nosso sentimento, com a nossa paixão. Profissionais da bola que têm esse tipo de atitude correm o sério risco de serem apelidados de “mercenários”, “traíras”, “pilantras”… E um risco ainda maior de terem fechadas as portas de um clube para sempre. Ou quase sempre.

Desde ontem à noite, surgiram boatos de que Ronaldinho Gaúcho poderia ser oferecido ao Grêmio para jogar até dezembro e, ao final do contrato, o jogador assinaria com um clube dos Estados Unidos. Diante dos rumores, muitas opiniões foram dadas. Alguns choraram de emoção e de alegria, gritando a plenos pulmões: “Volta Ronaldinho!”, como em 20 de setembro de 2010, quando todos os gremistas foram enganados pela primeira vez por ele e seu irmão, Assis. Mas a imensa maioria foi contra a negociação. Mandaram R10 (ou P10, um acrônimo de Pilantra 10) para a Rússia, para os Emirados Árabes, para o Qatar. Mandaram até para a Faixa de Gaza. “Qualquer coisa é melhor do que ver esse pilantra vestindo a camisa tricolor de novo!”, bradaram.


Ainda existem torcedores que não entendem que o futebol é um negócio, apenas um negócio. Não existe paixão quando os números falam mais alto. Mas não se pode culpá-los! O futebol pode ser jogado por qualquer ser humano, com deficiência ou não, com qualidade técnica ou não, em qualquer campinho de várzea do planeta, seja por diversão, dinheiro ou amor à camisa. Apesar dos ingênuos, para a maioria dos tricolores gaúchos, uma coisa é clara: qualquer pessoa no Universo é melhor do que Ronaldinho Gaúcho para vestir a camisa do Grêmio neste momento.

Comentários

Gremista desde 1903. Admirador das coisas simples e incríveis da vida, como aquele gol do Ibrahimovic de bicicleta de fora da área. Lembra? Futebol é vida. Eterno novato do DPF. Mas tem um bom coração.