Reconstrução em Old Trafford

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“A grande questão não é se o Manchester United voltará para o topo da tabela, mas quanto tempo isso irá levar para acontecer’’.

O trecho acima, de uma das muitas análises precisas do jornalista do The Guardian Stuart James, sugere uma hipótese: a de que a família Glazer, que controla o clube de Manchester desde 2005, não está disposta a esperar mais após ver o time agonizando sob o comando de David Moyes na última temporada. Por isso, está preparada para gastar o preço que for para montar um elenco que, além de renovar as esperanças em Old Trafford, traga resultados imediatos – a intenção é levar o time de volta ao conforto da “Era Ferguson’’, quando títulos da Premier League vinham naturalmente (foram 13  conquistas de 1992-1993 até hoje).

Não há consenso entre torcedores que Sir Alex Ferguson, mesmo na casa dos 70 anos e envolvido em notícias de que estaria com a saúde debilitada, tenha conseguido uma aposentadoria perfeita no United. A tendência natural do torcedor fanático é cravar, de olhos vendados, que Ferguson se retirou da melhor forma possível, vencendo a Premier League de 12-13. Mas um olhar mais frio, talvez de um fã mais rigoroso, constataria que o lendário treinador falhou ao não renovar uma base envelhecida (Vidic de 30 anos, Ferdinand de 33, Carrick com 30, Giggs já aos 38 e Paul Scholes aos 37) antes de deixar o cargo, jogando no colo do inexperiente Moyes essa grande responsabilidade. Moyes não percebeu isso de antemão e só após ser demitido revelou: “Foi um passo no desconhecido. Era quase o trabalho impossível’’.

Com relação ao que acontece hoje, são muito discutíveis – para não dizer incoerentes – os valores pagos pelo Manchester United nos reforços para esta temporada (lista no fim do artigo). Entretanto, no que diz respeito à qualidade em campo e objetividade e velocidade do Manager van Gaal, houve mais avanços agora do que no mesmo período de contratações de David Moyes.

Ao tentar bancar suas convicções, o escocês acabou falhando com Marouane Fellaini, que não correspondeu como nos tempos de Everton. Tentando amenizar o mar de críticas que recebia por não ser ágil com reforços e buscando organizar um meio de campo falido, Moyes trouxe Mata e pôde respirar um pouco, apesar de o jogador espanhol não ter sido, à época, o que o clube inglês realmente necessitava. A propósito, foi só agora nas mãos de van Gaal que o United pareceu ter preenchido um espaço que Cleverley – que pode sair – e Fellaini não conseguiram: Ander Herrera no meio-campo foi ótima alternativa para acelerar e qualificar as saídas de trás, funções que Fletcher também não vem exercendo com primor neste início de temporada.

A defesa, entretanto, pode virar um dilema para van Gaal e fazer com que os três meses que disse necessitar para implantar seu estilo de jogo se estendam. A variação imediata do 4-2-3-1 para o 3-5-2 é, até certo ponto, uma mudança drástica se levarmos em consideração o histórico tático do United nas últimas temporadas. Um esquema com o qual os jogadores não estão acostumados poderá custar tempo, paciência e, pior, pontos perdidos em uma liga que se mostra ainda mais equilibrada do que na temporada 13-14.

Louis van Gaal

Louis van Gaal pensa em como renovará as esperanças em Old Trafford (Foto: Tony Ding/AP)

Hoje, temos dois exemplos perfeitos de laterais de ofício que, por conta da alta capacidade de passe e inteligência ofensiva, podem se transformar em meias: Philipp Lahm, que já assumiu essa função no Bayern de Munique, e Leighton Baines, do Everton. Pensando no United de van Gaal montado no 3-5-2 deste início de trabalho, o jovem lateral-esquerdo Luke Shaw não se converteria em um meia típico na equipe (óbvio), mas poderia agregar muito valor como ala pela esquerda e de quebra daria equilíbrio a um time que naturalmente irá metralhar bolas para Di María na ponta direita. Ao meu ver, Shaw tem mais bola do que Ashley Young ofensiva e defensivamente, além de ser jovem (19 anos!) e um poder de desenvolvimento incontestável.

Vale registrar que declarações do treinador holandês indicam que Di María veio para ser winger, o que afasta, pelo menos por enquanto, a possibilidade do argentino surgir na equipe como o 10, deixando para Mata esta função. Nessas circunstâncias, Mata permanece sendo o articulador do time escalado centralizado – mas caindo pela direita por força do instinto e para facilitar os cortes para dentro utilizando a perna esquerda -, com Rooney e Robin van Persie na frente se movimentando e buscando jogo fora da área. Resta saber até quando van Gaal irá sustentar seus próprios princípios em busca de um Manchester United com sua cara.

Jogadores que desembarcaram em Old Trafford para esta temporada (não incluindo os que voltaram de empréstimo):

Zagueiro argentino Marcos Rojo (€20 milhões)
Meio-campista espanhol Ander Herrera (€36 milhões)
Lateral esquerdo Luke Shaw (€37,5 milhões)
Meia-atacante argentino Di María (€75 milhões)
Volante holandês Daley Blind (€17,5 milhões)
Atacante colombiano Radamel Falcao (empréstimo com opção de compra)

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Jornalista esportivo. Blogueiro na Gazeta Esportiva.com e colunista no Doentes por Futebol e Sportskeeda.com. E-mail: [email protected]