Rumo ao Interior

  • por Matheus Mota
  • 7 Anos atrás
De clube amador à participante em torneios continentais, o Deportivo Capiatá é o primeiro exemplo de sucesso da política de descentralização do futebol paraguaio. Foto: Reprodução

De clube amador à participante em torneios continentais, o Deportivo Capiatá é o primeiro exemplo de sucesso da política de descentralização do futebol paraguaio. Foto: Reprodução

No segundo semestre, a competição mais importante do futebol sul-americano será a Copa Sul Americana, que infelizmente não é tratada como merece, seja pela imprensa, seja pela própria Conmebol. Apesar dos problemas, é uma competição atrativa, especialmente para quem gosta de futebol alternativo, pois permite que equipes como o Nacional Potosí da Bolívia e a Universidad Católica do Equador tenham visibilidade internacional. Nessa direção, o Paraguai certamente merece destaque, com a participação do brioso Deportivo Capiatá, equipe com pouco mais de 4 anos, que está com a classificação para próxima fase bem encaminhada, pois venceu o Danúbio, atual campeão uruguaio, por 3×1.

O que vale destacar no futebol paraguaio é a sua atual política de descentralização. É sabido que, na América do Sul, o futebol é extremamente polarizado nas capitais, ao passo que o interior ocupa um plano marginal no futebol de elite, e o campeonato paraguaio é um dos exemplos mais claros dessa tendência. Procurando combater isso, a APF (Asociación Paraguaya de Fútbol) passou a promover uma política peculiar: alçar ao profissionalismo clubes amadores. Nesse processo, a UFI (Unión del Fútbol del Interior) cumpre um papel importante, pois é ela quem organiza o Nacional de Interligas, torneio que reúne as seleções das ligas regionais paraguaias. O vencedor do torneio passa integrar automaticamente a División Intermedia, a segunda divisão local, enquanto o vice participa de um play-off com o vice da Primera B Nacional por uma vaga na segunda divisão. Com essa política, surgiram clubes como Sportivo Carapeguá, Paranaense, Deportivo Santaní e o já citado Deportivo Capiatá, e eles dão indícios de que serão razoavelmente bem sucedidos.

É uma política interessante para o futebol do interior, além de valorizar ainda mais o futebol amador do país, que já é bem prestigiado, sendo a Copa San Isidro de Curuguaty um exemplo claro disso (a referida copa é um torneio que reúne os vencedores dos campeonatos amadores do Paraguai e do Uruguai).

No entanto, esse plano de expansão possui alguns pontos passíveis de discussão. Um deles, por mais paradoxal que seja, é o aumento do número de clubes, pois não se sabe até que ponto há estrutura para manter campeonatos com muitas equipes em um país cujo futebol não dispõe de muito capital. Todo e qualquer projeto de expansão tem de ser cuidadosamente estruturado, e a APF deve analisar se possui condições de organizar campeonatos, e o mais importante: oferecer condições que favoreçam a estruturação desses clubes, a um ponto em que um eventual insucesso de uma agremiação seja creditado somente à sua competência, ou falta dela.

Nessa direção há outro fator que deve ser levantado: a constituição de uma torcida. Cabe salientar que muitas regiões contempladas com novos representantes já possuíam clubes bem antigos, como por exemplo na região de Ciudad del Este, onde há o 3 de Febrero, clube extremamente tradicional, e o Paranense, time que era a seleção da Liga Paranaense, apesar de que, até o momento, ainda não conseguiu alcançar muita popularidade.

Seja como for, a medida tomada pelos organizadores do futebol paraguaio visa resolver o problema da centralização, e mesmo que possa não ser considerada a ideal por alguns, pelo menos é alguma coisa. Além disso, fica difícil não simpatizar com clubes que até ontem eram amadores e de repente vão para competições internacionais.

Comentários

Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.