Santinha à procura de um xerife

  • por Hugo Melo
  • 6 Anos atrás

Mesmo amargando nos confins do inferno das últimas divisões do futebol brasileiro, à torcida tricolor não faltaram motivos para comemorar nestes últimos 4 anos. Foram 4 títulos, incluindo um nacional e o retorno à segunda divisão do campeonato brasileiro, com direito a vitórias surpreendentes em cima dos maiores rivais que, na ocasião, gozavam de condições muito melhores que as do tricolor. Basta falar do primeiro título em 2011, o de campeão pernambucano em cima do maior rival, estando o Santinha na quarta divisão e o Sport na segunda. No ano seguinte, o Sport na série A era novamente derrotado pelo Santa Cruz na série C.

Em todas as conquistas, houve duas constantes: um matador vestindo a nove, e uma defesa mais que segura. Se Dênis Marques e Gilberto foram os grandes artilheiros do período, dentre os destaques defensivos está o paredão Thiago Cardoso que, duas vezes eleito o melhor goleiro do pernambucano, protagonizou verdadeiros milagres pelo time, muitos deles na final do tricampeonato, em 2013. Tem atuações memoráveis também Everton Sena, que, na Copa do Brasil, anulou o jovem Lucas do São Paulo no jogo de ida, permitindo ao Santa, então na quarta divisão, vencer um dos maiores gigantes do futebol brasileiro. Enfim, foram três bons anos graças à retaguarda muito bem protegida por atletas como Thiago Matias, Leandro Souza, William Alves, e Anderson Pedra.

O futebol (até mesmo na moralidade americana) já mostrou que, mais eficiente que um grande ataque, é uma grande e organizada defesa. O 1×0 sempre será o suficiente para construir campeões e boas campanhas. Mas, diferente do rival, que hoje conta com um dos mais organizados sistemas defensivos do Brasil, capitaneado pelo xerife Durval, o Santa Cruz está mal defensivamente. Até jogadores incontestáveis se tornaram duvidas – Everton Sena está mal na zaga e Thiago tomou um gosto especial por levar gols fáceis.

A diretoria tricolor demorou para perceber a falha. Lotou o time de centroavantes (6 no total), ainda que já existissem bons nomes para a posição, e deixou a retaguarda exposta (4 zagueiros). Não ousou nas contratações (muitas vezes por falta de condições financeiras), mas também não fortaleceu o sistema defensivo.

Everton e Renan, junto a Memo no meio e Sandro Manoel, protagonizam espetáculos cômicos, levando gols ridículos em momentos cruciais. Nas últimas rodadas (contra Ceará, Vasco, Vila Nova e na Copa do Brasil contra o Santa Rita), o ataque tricolor foi competente para abrir o placar, muitas vezes conseguindo marcar mais de um gol e, mesmo assim, a defesa foi incapaz de segurar o resultado, entregando pontos fáceis.

Com exibições cheias de altos e baixos, o técnico Sergio Guedes não tem uma carta na manga. O jovem Marlon do Flamengo, contratado como opção na defesa, não agradou em campo. Os laterais, por sua vez, sobem, deixando verdadeiras avenidas para o time adversário (a maioria dos gols marcados surgiram de bolas lançadas das laterais).

Por fim, a diretoria anuncia a chegada de Renato Silva, vindo do time do Vasco. O bom jogador já mostrou seu futebol no São Paulo e nos quatro grandes do Rio; resta saber se agora, aos 31 anos, irá se mostrar tão sólido quanto outrora. E enquanto Renato Silva não estreia, na solidão deixada nos espaços da defesa tricolor, a torcida mais apaixonada do Brasil segue à procura de um xerife para chamar de seu.

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Estudante de jornalismo e direito, observa o futebol como algo infinitamente maior que um esporte, um fenômeno cultural ímpar dotado de poder para munir ditadores e revolucionários. E deste universo que transcende as quatro linhas do gramado tem o tricolor pernambucano como eterno companheiro nas desventuras futebolísticas.