Santo de casa

  • por Leandro Lainetti
  • 5 Anos atrás

O futebol é o esporte da fé. Deus é quase o 12° jogador, tamanha a quantidade de vezes que seu nome é esgoelado em estádios, botecos ou casas de família. “Tira, meu Deus!”, “Ajuda, meu Deus”, “Meu Deus essa bola não entrou”, “Pega o pênalti pelo amor de Deus”. Como nem sempre Deus atua da maneira esperada, os torcedores religiosos – e os não religiosos também, porque nesse esporte não existe ateu – apelam para os santos.

Futebol e religião se misturam tanto que até os jogadores viram santos, olhem só. Ano passado, após operar um milagre na Libertadores, Victor alcançou os céus. E virou São Victor, canonizado pelos próprios atleticanos com muito mérito, justiça e fé, claro. Sua paróquia é em Minas, sua Igreja, o Independência. Cada santo tem seu templo, e talvez seus milagres não funcionem em outras praças…

Foto: Revista Placar

Foto: Revista Placar

Era uma noite de quarta como outra qualquer. Mais uma rodada de futebol para mostrar que na hora da bola é meu time na terra e Deus no céu. O Maracanã, com ingressos mais baratos do que em dias recentes, foi enchendo aos poucos. Noite de missa. Quarenta mil fiéis presentes. Igreja lotada. São Victor estava lá, pronto para distribuir sua bênção e seus milagres a quem interessasse.

Léo Moura, aquela beata mais experiente, foi tirar a prova dos nove. Queria saber se o tal Santo era bom mesmo. Se fosse, ele se ajoelharia no altar e pediria a bênção. O primeiro milagre bateu no braço, na grama, nas costas, no gol. Festa do povo. “Esse Santo está com defeito”, ouviu-se de um torcedor.



Depois foi a vez de Eduardo, um religioso que veio diretamente da Croácia para buscar a luz naquele templo sagrado. E também quis chegar perto de São Victor. Cabeçada certeira na bola, o santo chegou a tocá-la, espirrou na trave, voltou para receber o seu abraço, e terminou abraçada na rede. Festa do povo. Igreja em polvorosa. São Victor era coadjuvante. Ninguém estava ali para vê-lo.



Deu-se a luz e ele, enfim, entendeu. Cada santo tem sua casa, cada templo tem sua energia. Os milagres de São Victor funcionam no Independência. No Maracanã, tudo converge para um único caminho. Os fiéis são os santos e os santos são os fiéis. E ali, santo de casa é que faz milagre.

Comentários

Jornalista trabalhando com marketing, carioca, 28 anos. Antes de mais nada, não acredito em teorias da conspiração. Até que me provem o contrário, futebol é decidido dentro das quatro linhas. Mais futebol nacional do que internacional. Não vi Zico mas vi Romário, Zidane, Ronaldinho, Ronaldo. Vejo Messi e Cristiano Ronaldo. Totti é pai.