DPF Entrevista: Roberto Miranda

  • por Lucas Cavalcante
  • 5 Anos atrás

O Doentes por Futebol teve acesso, com exclusividade, a uma entrevista com Roberto Miranda, tricampeão do mundo com a seleção e 9º maior artilheiro da história do Botafogo. Confira a conversa!

DPF: Queria começar perguntando sobre ganhar uma Copa do Mundo. É sem sombra de dúvidas o auge da carreira de qualquer jogador. Qual a emoção de ter voltado ao Brasil tricampeão do mundo?
R: Olha, é como você falou. É a maior emoção que temos na nossa vida, você chega no topo. Eu tive a felicidade também de além de passar por grandes clubes do Brasil que foram Botafogo, Flamengo e Corinthians, de jogar uma Olimpíada. Disputei em 64 no Japão. Após a olimpíada, eu já voltei pra seleção principal onde nós disputamos a Copa do Mundo. É um orgulho muito grande, né? Onde você chega no topo do seu trabalho.

DPF: E você é muito agradecido por ter jogado essa Copa de 70 por causa do Zagallo, né? Se dependesse do Saldanha você não iria.
R: Meu caso foi o seguinte: a linha do Botafogo toda foi convocada e na época da seleção com Saldanha eu era o artilheiro do campeonato. Automaticamente, eu devia ser incluído, mas uma vez no juvenil nós tivemos uma desavença e Saldanha era um cara muito cobrador, vingativo. Foi aí que ele não me convocou. O Zagallo até falou que era uma injustiça eu não ter sido convocado.

DPF: Qual foi o jogo mais marcante daquela Copa?
R: Pra nós, foi a Inglaterra. Eles haviam sido campeões em 66 e tinham um timaço. Então, quando a Inglaterra perdeu pra nós, no outro dia o Bobby Charlton e o Bobby Moore foram na nossa concentração apertar nossa mão e dizer “vocês são os campeões mundiais’’.

DPF: Naquela Copa, o prêmio de melhor jogador foi dado pro Pelé, mas tem muita gente que diz até hoje que Jairzinho jogou mais. Pra você, quem foi o melhor jogador de 70?
R: Eu acho o seguinte: seria a última Copa do Pelé, ele sempre foi muito marcado e esqueceram do Jair. Então, o Jairzinho que, pra mim, foi o melhor jogador da Copa, fez gol em todas as partidas, ele estava em uma fase esplendorosa. E te falar que ele não foi como titular, seria reserva do Rogério, que acabou tendo uma distensão muscular. Mas o Jairzinho destruiu, pra mim foi o melhor jogador.

DPF: Duas semanas atrás, o jornalista da ESPN Brasil, Lúcio de Castro fez uma reportagem (confira aqui) que mostrava que “Com imensa satisfação, Pelé serviu Médici no ano do tri’’. Se falava disso no grupo? Havia alguma relação da seleção tricampeã em 70 com a ditadura militar?
R: Olha, o problema é que a comissão técnica era toda militar. Tinha o Brigadeiro, tinha Coutinho, que era militar, Carlesso e tudo que se envolvia era militar. Eu vi várias vezes o Brigadeiro falando com Médici e ele pedindo, “pelo amor de Deus vocês ganhem a Copa”. Na nossa concentração, parecíamos prisioneiros, ele provava até a comida antes de nós. A gente ia treinar e os seguranças militares não deixavam ninguém chegar perto da gente.

DPF: Você foi cria do Botafogo, morou lá dentro e viu de perto a maior geração da história do clube. Teve alguém em especial em quem você se espelhava?
R: Na época, tinha o Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. Eu, como jogava na frente, gostava muito do jogo do Amarildo. Ele era apelidado de possesso, jogador muito rápido, inteligente, que partia pra cima e eu sempre gostei de pegar a bola e tentar um drible. Peguei muita coisa do Amarildo, apesar de que, na cabeça, ele não era aquele jogador, então pra cabecear eu via outros jogadores. Mas, bola no chão, partir pra cima, eu aprendi muita coisa com ele.

DPF: Você chegou a jogar no Flamengo e no Corinthians. Por que não deu tão certo nesses dois clubes quanto no Botafogo?
R: O Flamengo na época eu joguei um campeonato e começaram a vir as lesões. E o time não era lá essas coisas, assim mesmo fiquei como artilheiro e ainda conseguimos um terceiro lugar. No Corinthians, a mesma coisa: as contusões, eu artilheiro, assim como no Flamengo, jogava 2 e ficava 3 de fora. Até que, num jogo do campeonato nacional que eu levei uma pancada violenta, meu joelho não deu mais certo e não pude jogar mais.

DPF: Qual impacto que o 7×1 vai ter tanto no nosso futebol brasileiro como na Seleção?
R: Dessa vez, vai ter que tomar juízo. Nas conversas de bar, ninguém acreditava na Seleção e eu via que não tinha um líder. Como que o Thiago Silva como capitão na hora dos pênaltis chora? Não pode, o líder tem que ser aquele cara forte. Por aí já começou mal a Seleção. Agora, isso de tomar com 7×1 fez até bem pra seleção de 50 que estava sendo maltratada até hoje. Foi bom pra aprender. Acredito que Dunga vá modificar isso. Ele era um capitão que chamava atenção até do Romário. Tem que ter um cara líder na seleção e modificar o tipo de jogar (sic). Esse problema de sair durante a Copa do mundo não pode, tem que ficar ali, objetivo é ganhar a Copa.

DPF: Então você acha que a Copa das Confederações deu falsas esperanças para o torcedor brasileiro?
R: Totalmente, aquilo enganou todo mundo. Inclusive tem que ter cuidado com a Colômbia, Equador e Chile. Se bobear não vai nem pra Copa. Primeiro tem que pensar nas eliminatórias.

DPF: Hoje a seleção brasileira inicia um novo ciclo e gostaria de saber em quem você aposta para ser o centroavante dessa nova etapa.
R: Pelo o que eu estou vendo, vão colocar o Tardelli, mas não pode ser só um. Até que ele tá vindo bem, não tenho visto muito, mas a imprensa diz que ele tá bem no Atlético Mineiro. Nos treinos ele foi bem, mas não pode ser o único, precisa de uma sombra. Vamos ver como ele se comporta. Vai ser a primeira vez que ele joga na Seleção, é novato, apesar que já tem uma certa idade pra Seleção, mas é novato.

DPF: Você apoia caso seja necessário jogar sem esse centroavante, sem esse homem de área?
R: Tem treinador que tem o esquema de jogo dele, tem treinador que joga sem centroavante. Eu via o Fred jogando e ele estava muito dentro da área, não se movimentava. Se não tá chegando nele, tem que vir buscar jogo, se não ele não vai aparecer.

DPF: Qual o sentimento de ver o Botafogo afundado nessa crise?
R: Esse negócio da dívida do Botafogo não vem de agora, vem de anos. Tem presidente que pega, fica lá 2, 4 anos e aumenta a dívida. Dessa vez, estourou na mão do Maurício Assumpção, mas ele é muito bom presidente, ele quer o bem do clube. Mas, coitado, teve a infelicidade de perder o Engenhão, onde dava um lucro bárbaro pro Botafogo. A imprensa e a torcida estão culpando o presidente, mas eu defendo ele.

Roberto mostrou confiança no atual presidente do Botafogo, Maurício Assumpção (Foto: Divulgação/Agif)

DPF: Você tocou num ponto importante: não acha estranho que o Engenhão tenha sido fechado no mês em que o Maracanã reabriu para a Copa do Mundo?
R: Mas dizem que estava com falhas. O que me consta, os engenheiros que eu conversei, é que estava com falha, rachadura. Aquilo tem que ter uma manutenção e nunca teve. Estava mesmo com problema e poderia cair aquilo ali. Mas vai ficar bom, inclusive tá em obra.

DPF: Você tinha um estilo de jogo muito aguerrido, raçudo, até provocativo. Faltam jogadores nesse estilo atualmente?
R: Sempre gostei de jogar. Em treino, eu não gostava de perder. Brincadeira eu não gostava de perder. Quando chegava no jogo que queria ganhar mesmo. Eu já tomei tapa na cara sem nem ver da onde saiu.

Comentários

Niteroiense, jornalista, doente por futebol e por tudo que esse esporte maravilhoso envolve. Valoriza muito clubes tradicionais e suas torcidas. Flamenguista.