Iago, o ladrão de espetáculos

  • por Nilton Plum
  • 6 Anos atrás

William Shakespeare, dramaturgo inglês, escreveu em 1603 uma de suas peças mais famosas: Otelo, o mouro de Veneza. Tudo gira em torno da trágica história de amor entre o personagem-título e Desdêmona. Mas ocorre que o general não é o protagonista. A tragédia é constituída através do mecanismo de inveja produzido por um de seus alferes, Iago. Um dos personagens mais significativos da literatura universal, Iago é a serpente do paraíso, a ferrugem que corrói, o veneno que mata. É Loki em suas artimanhas e estratégias ardilosas, o destruidor de amores. Por sua causa, tudo fica em segundo plano. Em sua fúria, Iago toma pra si, inclusive, o protagonismo da história. Há quem não se lembre de Otelo, de Cássio… Mas todos se lembrarão de Iago depois de ler ou assistir à peça do inglês.

Na noite de quarta, um espetáculo estava sendo encenado. Ingredientes saborosos estavam presentes: os dois maiores técnicos recentes do futebol brasileiro se enfrentando em boa fase e dois times muticampeões se enfrentando em contextos diferentes, um elenco buscando o título, o outro, afirmação. São Paulo e Flamengo sempre protagonizam jogos incríveis. Este, terminado em 2 x 2, se notabilizou, infelizmente, não pelas emoções, craques ou grandes jogadas. Em meio a um vazio Morumbi, mais uma decadente engrenagem foi girada. Surge Iago e sua inveja terrível, ardilosa. Destruidora de amores e alegrias. Inimiga do espetáculo.

É preciso que se ressalte que os erros de arbitragem vêm ocorrendo de forma contumaz em qualquer contexto, em qualquer partida. Chega a ser cômica e patética qualquer tipo de teoria de favorecimento de A ou B. O Flamengo foi prejudicado contra o São Paulo, que foi prejudicado contra o Corinthians, que foi prejudicado contra o Flamengo, num ciclo podre de incompetência e desdém. Isso perpassa os 20 clubes da série A, atinge os 20 da série B e prossegue sua avassaladora máquina de frustração e erro. Em meio a tudo isso o que sobra é: um Muricy digno relatando a chamada de atenção dada a seu comandado, Michel Bastos, pela entrada criminosa no sempre competente Éverton e Luxemburgo provando que o tempo parado só lhe fez bem, embora tenha se equivocado na entrada de Chicão. Ele não percebe que o estandarte de seu time era o Marcelo e que desde que o zagueiro foi sacado do time titular os gols estão chegando pelo alto com mais frequência…

Durante muito tempo, falou-se na adoção de tecnologias que minimizassem o erro no futebol como já é feito há tempos em diversos esportes. A FIFA retruca, argumentando a possível perda da “beleza do espetáculo”. Iago sopra seu hálito negro. Pergunte a um norte-americano, fanático pela NFL, se ele vê perda de emoção ou beleza em suas partidas tecnologicamente arbitradas? O veneno é tão eficaz que de jogo em jogo, sucessivamente, o espetáculo vai sendo colocado em segundo plano e o torcedor, que também possui sua parcela de culpa, escancara os dentes quando lhe favorece, espuma de raiva quando lhe prejudica. Mas, ora, a situação tem sido tão acintosa que alguém, em algum momento, chegará à conclusão que não há mais favorecidos, só prejudicados. Porém será tarde demais. A tragédia estará finalizada. Cortinas descem.

No primeiro vídeo está um provável motivo pelo qual novas tecnologias não são adotadas, embora datado, investigado, julgado e explanado. No segundo está Iago. E não, ele não é o juiz. O juiz é seu mensageiro.Ele sabe o que o Rubem Fonseca quer dizer quando sentencia: “o futebol desperta o que há de pior nos homens.”

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