Liverpool varia, mas as falhas persistem

  • por Doentes por Futebol
  • 7 Anos atrás

LIVERPOOL VARIA, MAS AS FALHAS PERMANECEM

Por Lucas Sousa

Vice-campeão inglês, o Liverpool começou esta temporada cercado de expectativas. A diretoria abriu o cofre e adquiriu diversos reforços para melhorar e dar mais profundidade ao elenco de Brendan Rodgers. Porém, o começo não é animador. Em seis jogos, foram duas vitórias e três derrotas, além de nove gols sofridos contra oito marcados. Nessa mesma altura na temporada anterior, o time tinha quatro vitórias, uma derrota, oito gols marcados e três sofridos. Analisando esses números e principalmente os jogos, vemos que o problema do Liverpool está mais voltado para o setor defensivo. O time varia muito taticamente, alternando principalmente entre o 4-1-4-1 (esquema-base da temporada anterior), 4-2-3-1 e 4-3-1-2, embora tenha jogado até com três zagueiros.

Na abertura da temporada, frente ao Southampton, os Reds venceram por 2×1, porém, sofreram mais do que deveriam contra um adversário em plena reconstrução do elenco. No fim das contas, o gol sofrido não fez diferença no placar, mas vale a pena observá-lo com mais atenção:

Defesa do Liverpool deixa buraco para Clyne infiltrar e marcar o gol

Defesa do Liverpool deixa buraco para Clyne infiltrar e marcar o gol

Neste lance, temos dois pontos importantes: a superioridade numérica e o buraco na defesa. A imagem nos mostra oito jogadores do Liverpool e apenas quatro do Southampton. Philippe Coutinho (isolado no canto esquerdo) é, ou pelo menos deveria ser, o único que não participa ativamente da jogada; tirando-o da conta, ficam SETE defendendo e QUATRO atacando. Claro que os Saints têm seu mérito na jogada, que é bem tramada por sinal, mas o sistema defensivo falhou muito aqui. Além dos Reds não aproveitarem a superioridade numérica, eles abriram um buraco na entrada da área. Enquanto o zagueiro Lovren saiu para combater o atacante, seu parceiro de zaga (Skrtel) e o lateral oposto (Manquillo) não se aproximaram para manter a linha estreita e o ocuparem o espaço deixado. Gerrard (perto da meia lua) era outro que poderia evitar a situação, mas não o fez. A jogada foi rápida e quando Skrtel viu a chegada de Clyne em velocidade já não havia mais tempo para reação.

Vamos para outro lance em outra partida. Abaixo, a jogada que resultaria no segundo gol do Manchester City.

Mais uma vez, a defesa do Liverpool tem superioridade numérica e não consegue parar o ataque

Mais uma vez, a defesa do Liverpool tem superioridade numérica e não consegue parar o ataque

Percebe as semelhanças com o gol do Southampton? Primeiro, a defesa tem superioridade numérica, são seis jogadores de vermelho e quatro de azul (sendo que a participação do Yaya Touré, lá em cima, é questionável nesse momento) dentro do quadro destacado. Segundo, Lovren saiu para dar o combate e Skrtel continuou na dele, não se adiantou para deixar o ataque em impedimento e nem se aproximou do companheiro para fazer uma cobertura melhor. Terceiro, o lance também foi rápido: quando a defesa começou a reagir, o estrago já estava feito.

Ainda existe um detalhe importante a ser destacado: contra o City, Brendan Rodgers optou pelo 4-1-4-1, então era para Gerrard (o volante) estar se aproximando do adversário que recebeu a bola (Jovetic), não Lovren. O atacante citizen foi inteligente ao ocupar esse espaço entre as linhas justamente por isso, porque obriga um zagueiro a sair da sua posição, já que o volante não está ali. Como a distância entre eles era muito grande, Lovren desistiu no meio do caminho, mas foi o suficiente para abrir o espaço necessário para Zabaleta (o último jogador dentro do quadro) receber a bola, gerando um efeito dominó. O gol foi fruto de mais uma falha do sistema defensivo como um todo, tanto no posicionamento quanto na cobertura. Você pode ver aqui como funciona o ataque do Manchester City e entender melhor o lance descrito acima.

O Liverpool ainda tem mais um sistema entre os seus três preferidos. Na derrota para o West Ham por 3×1, Brendan Rodgers foi de 4-3-1-2 (o 4-4-2 com um losango no meio-campo). É um desenho conhecido por não ocupar bem o meio-campo no sentido horizontal (vertical, no caso da imagem), ou seja, de uma lateral a outra, isso porque prevê apenas três jogadores em uma linha. É comum ver treinadores que desmontam o losango e formam uma linha de quatro jogadores quando seu time perde a bola para ocupar o campo de maneira mais uniforme; Brendan Rodgers, entretanto, não fez isso, escolheu manter o alinhamento mesmo sem a bola. Esta opção também tem suas vantagens, mas gera um problema quando o adversário rouba a bola e ataca rapidamente do lado oposto, exatamente o que fez o West Ham no lance do segundo gol (roubou a bola na sua esquerda e foi atacar lá na direita).

Liverpool deixou espaço muito grande no meio campo

Liverpool deixou espaço muito grande no meio-campo

Observe onde estão Lucas e Henderson (circulados) enquanto acontece o ataque. Os dois se aproximaram para tentar articular um ataque com Balotelli, que também está ali perto, mas perderam a bola e deixaram um espaço gigante no meio-campo. Assim ficou fácil para o West Ham atacar. Gerrard, que está longe de ser um volante de contenção, ficou isolado à frente da defesa, sem nenhuma cobertura próxima e sem muito o que fazer. O lance ainda desenha a situação de 1×1 no lado direito do ataque (Sakho x Alberto Moreno) que ocasionará no gol.

Talvez essa tenha sido a pior partida dos Reds na Premier League. O curioso é que naquela que talvez tenha sido a melhor (3×0 sobre o Tottenham), o esquema foi o mesmo. O esquema foi o mesmo, a proposta de jogo não. Por ser uma equipe tecnicamente superior, o Liverpool tinha que atacar o West Ham e tomar a iniciativa da partida. Teve mais posse de bola (62% x 38%, de acordo com o WhoScored), mas deixou a desejar em termos de criatividade – o meio-campo com Henderson e Lucas foi muito estático e previsível. O lado bom disso tudo é que uma provável solução já está no elenco: Joe Allen.

Diferente de Lucas, Allen se movimenta melhor e chega mais ao ataque, principalmente pelos lados. Grande parte dos treinadores que utilizam o 4-3-1-2 libera um dos meio-campistas para apoiar mais aberto, quase como um ponta. Talvez o melhor exemplo disso seja Di Maria, que jogou dessa forma durante a Copa do Mundo e agora no Manchester United. A “escapada” do meia para o lado pode criar diversas oportunidades para o ataque, além de desestabilizar a defesa, e Joe Allen é quem mais faz isso no Liverpool. Note no mapa de calor abaixo que sua presença no lado do campo quando ataca é bem maior que a de Lucas. Com essa movimentação, Allen pode acrescentar mais criatividade ao meio-campo do time, até porque Lucas pouco apoia o ataque.

Allen apoia mais e mais aberto

Allen apoia mais e mais aberto

Outro ponto positivo que o Liverpool pode tirar do confronto contra o Totteham diz respeito à marcação. Mencionei que contra o West Ham o time não desfazia o losango no meio-campo quando perdia a bola, como é comum em alguns times. Mas existe ainda uma terceira opção, e os Reds a utilizaram contra os Spurs: voltar com um dos atacantes para ajudar na marcação pelos lados. Na temporada passada, era comum ver Sturridge retornando para fechar o meio-campo pelos lados (ele se revezava com Suárez nesta função), mas quem fez isso contra o Tottenham foi Balotelli. Essa alternativa pode ser interessante nas partidas em que a iniciativa de jogar, de propor o jogo, não esteja com o Liverpool. O time de Mauricio Pochettino gosta de ter a posse de bola e, jogando em casa, quase sempre vai em busca do protagonismo (teve mais posse de bola, 60% x 40% de acordo com o WhoScored). Ao optar por ocupar o lado do campo com Balotelli e não com Sterling, Rodgers mantém o jamaicano/inglês e Sturridge próximos, tendo dois jogadores de velocidade prontos para puxar um eventual contra-ataque. Brendan Rodgers sabe que é importante ter um meio-campo mais sólido nas partidas grandes e conseguiu fazer isso sem enfraquecer seu contra-golpe (vale lembrar que o primeiro gol dos Reds saiu de um contra-ataque rápido com Sterling aparecendo na área para concluir).

Balotelli volta pelos lados enquanto Sterling continua centralizado

Balotelli volta pelos lados enquanto Sterling continua centralizado

O começo não é animador. A defesa, que foi o ponto fraco na temporada passada, está ainda pior. É verdade que ela tem feito a maioria dos jogos com três novatos (Manquillo, Lovren e Alberto Moreno), que precisam de um tempo para se entrosar, mas os pontos perdidos durante este processo podem fazer muita falta lá na frente. A culpa não é só da defesa, o meio-campo é fundamental na proteção à última linha e ele foi quase ausente algumas vezes. Brendan Rodgers é um grande treinador e acredito que ele vá acertar o time. A questão-chave é: quanto tempo ele precisará para fazer isso? Quanto menos tempo, melhor para os Reds.

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