O 4-4-2 não tão britânico do Manchester City

  • por Doentes por Futebol
  • 4 Anos atrás
Foto: Football365.com - Pellegrini armou o City em um 4-4-2 bem diferente

Foto: Football365.com – Pellegrini armou o City em um 4-4-2 bem diferente

Por Lucas Sousa

Inglaterra, terra dos inventores do futebol e do tradicional 4-4-2 em duas linhas. Por lá, esse esquema é quase unanimidade entre os times menores, que, geralmente, jogam de maneira muito parecida. Possuem um estilo mais físico e de passes longos, utilizando jogadores pelos lados (os wingers), que vão até a linha de fundo para levantar a bola para a área, onde seus companheiros, fortes no jogo aéreo, estão prontos para cabecear para as redes. Este modelo é o estereótipo de uma equipe tradicionalmente britânica – e, deste tipo de equipe, o Manchester City só tem o esquema tático.

O 4-4-2 de Manuel Pellegrini no Manchester City

O 4-4-2 de Manuel Pellegrini no Manchester City

A primeira característica que difere o 4-4-2 de Manuel Pellegrini do tradicional estilo britânico são os homens de lado. David Silva e Samir Nasri não são wingers, são muito mais construtores de jogo. Estes jogadores são fundamentais para o bom funcionamento da formação no City, tanto que, quando eles não estão em campo, Pellegrini quase sempre muda o esquema para o 4-2-3-1 e avança Yaya Touré como meia central.

Silva e Nasri são tão importantes porque não ficam presos às laterais, mas circulam por todo o campo quando seu time tem a posse da bola. De acordo com as estatísticas do site WhoScored, o Manchester City tem uma média de 559 passes curtos por partida (segunda maior da Premier League) e 59% de posse de bola. Muito disso se deve ao trabalho desempenhado pela dupla. Observe nos mapas de calor abaixo que é o comum o ponta aparecer no lado oposto (Silva na direita e Nasri na esquerda) quando a jogada acontece por lá. Se a bola está no lado direito, o ponta esquerda não fica guardando sua posição, ele atravessa o campo para participar.

Mapa de calor de Silva e Nasri mostra a movimentação dos jogadores

Mapa de calor de Silva e Nasri mostra a movimentação dos jogadores

Outra característica importante do ataque citizen é a atuação dos atacantes, que também é diferente do tradicional 4-4-2 britânico. Nada de dois trombadores na área esperando cruzamentos: os homens de frente do City são participativos na construção das jogadas. É comum ver os atacantes e os pontas invertendo o posicionamento quando o time tem a bola nas proximidades da área adversária.

Ao quarteto ofensivo, se juntam um volante, quase sempre Yaya Touré, e um lateral. Os volantes e os laterais apoiam alternadamente, ou seja, enquanto um da dupla sobe ao ataque, o outro segura mais para equilibrar. Dessa forma, a equipe ataca com seis jogadores. Quando o oponente está muito fechado, os laterais costumam apoiar ao mesmo tempo e bem abertos para abrir a defesa adversária (o City tenta sempre invadir a área inimiga para finaliza a jogada, chuta muito pouco de longe).

Todo este movimento de ataque descrito acima não é só para “confundir a marcação adversária” como muitos comentaristas gostam de dizer. Embora esse seja um dos objetivos, a movimentação serve principalmente para criar situações de superioridade numérica em setores-chave do campo. Como assim? O lance do primeiro gol contra o Liverpool, que pode ser visto abaixo, mostra exatamente isso.

Situação de superioridade numérica do Manchester City

Situação de superioridade numérica do Manchester City

David Silva largou seu lado esquerdo e foi lá para a direita buscar o jogo. Jovetic não se enfiou na área esperando um cruzamento, fez o contrário, recuou para participar da construção da jogada. Zabaleta também não ficou de fora e subiu ao ataque, se juntando a Nasri. Tudo muito bem organizado e treinado. Só quem não percebeu a estratégia foram os jogadores do Liverpool, exatamente como Manuel Pellegrini desejava.

Note que algumas peculiaridades táticas já citadas também podem ser vistas aqui: o ponta oposto (David Silva) se aproximando para participar, o lateral do setor (Zabaleta) subindo muito para apoiar o ataque, a presença dos atacantes (Jovetic) na construção e a movimentação do quarteto ofensivo. Trata-se de uma jogada muito utilizada pelo Manchester City. Quando o time define o lado que vai atacar, lá vai o lateral correspondente subindo para apoiar e o ponta oposto cruzando o campo. Outro detalhe importante é que, na maioria das vezes, o lance acontece em direção à área, quase nunca para a linha de fundo. O City joga muito pelos lados, mas faz poucos cruzamentos.

Quando não tem a posse de bola, a equipe basicamente se defende com oito jogadores (os atacantes participam apenas da pressão na saída de bola). Costuma pressionar alto em alguns momentos do jogo, mas, geralmente, inicia as tentativas de recuperar a bola a partir do meio campo.

A linha defensiva está sempre adiantada, e isso tem seus prós e contras. Por um lado, diminui o espaço que o adversário tem para trabalhar a bola. Por outro, deixa um espaço nas costas que pode ser explorado por um jogador de velocidade.

O time também é compacto e estreito, assim protege muito bem os espaços mais relevantes de cada jogada, como pode ser visto na imagem abaixo. Note que a distância dos zagueiros para os meias é muito pequena, assim como o espaço entre os laterais. Observe também que existe um jogador do Liverpool bem aberto no canto da imagem, mas a defesa não dá a mínima para ele. Isso ocorre porque a região que ele ocupa não é relevante no momento (o que importa são as áreas perto da bola).

Sem a bola, Manchester City é estreito e compacto

Sem a bola, Manchester City é estreito e compacto

Quando o Manchester rouba a bola, a transição ofensiva é rápida e pelos lados. Embora seja um time de posse de bola e passes curtos, também leva perigo nos contragolpes, tanto que, na última edição da Premier League, foi o segundo time que mais marcou gols em jogadas deste tipo (cinco vezes segundo o WhoScored).

Com muita inteligência e competência, Manuel Pellegrini conseguiu construir um estilo de jogo eficiente no Manchester City. Ele conhece bem cada peça que tem nas mãos e soube tirar proveito delas. Às vezes, fica um pouco dependente das “engrenagens principais”, mas é inegável que o time cresceu muito depois de sua chegada, e pode evoluir mais na sua segunda temporada. Utilizando um esquema muito tradicional na Inglaterra, Pellegrini mostra como se pode jogar de maneiras tão distintas numa mesma formação.

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