O futebol é menor que o racismo

  • por João Rabay
  • 5 Anos atrás

A decisão do STJD de eliminar o Grêmio da Copa do Brasil é forte e inédita, e não por acaso causa polêmica e motiva discussões.

Antes de qualquer coisa, é preciso lembrar (não deveria ser, mas é) que nem todo gremista é racista, e que qualquer tipo de ódio contra a torcida do clube faz tanto sentido quanto menosprezar alguém por causa da cor de sua pele.

Após um episódio lamentável como o ocorrido na Arena do Grêmio, o que se pode tirar de bom é a discussão em torno do assunto, que é a principal forma de combate ao racismo – mais que a punição, penso. E crucificar os gremistas por causa do que aconteceu não é uma forma benéfica de discutir o tema.

A punição imposta ao Grêmio e à sua torcida me surpreendeu. Não foi a primeira vez que o futebol brasileiro se viu manchado por um caso assim, e em todas as outras vezes a conclusão que tiramos foi: não fazem questão nenhuma de enfrentar isso.

Geralmente, em casos assim, a opinião geral é de que a reação legal contra as manifestações racistas é muito leve. Dessa vez, foi pesada. Ainda bem, porque o ato de racismo é mais pesado ainda.

Vejam bem, doentes por futebol. Também amo esse esporte – não é por acaso que escrevo aqui -, mas em alguns momentos é preciso parar para pensar e ver que ele não é tão importante assim. Ou, como diria Arrigo Sacchi (ou Nelson Rodrigues, de acordo com a fonte):

O futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes.

E a vida em sociedade é uma das mais importantes. Mais que o futebol, sem dúvidas. Combater um problema social do tamanho da discriminação racial é muito, mas muito mais importante que a classificação de um time para a próxima fase de um torneio, por maior que seja o time, por maior que seja o torneio.

A defesa do Grêmio, alegando que os xingamentos a Aranha foram obra de uma minoria, não cola. É sabido que a torcida gremista repete este tipo de comportamento sistematicamente. E, se a minoria fosse tão minoria assim, ela não teria coragem de se expressar. Para os dez racistas que xingaram Aranha, quantos não foram coniventes, achando aquilo normal?

Soam absurdas opiniões como “isso não deveria interferir no resultado do jogo” (como se esse resultado fosse mais importante que um crime) ou “é normal do futebol a ofensa”. Mais um pouco e chegamos ao glorioso argumento do “até tenho amigos negros”, utilizado pela torcedora racista.

Há cerca de dez anos, o mesmo Tribunal que puniu o Grêmio nesta quarta passou a punir os clubes por causa de torcedores que atiravam objetos em campo. No caso, com perdas de mando de campo, obrigando-os a mandar seus jogos a vários quilômetros de seus estádios. Uma pena mais branda para uma ocorrência mais branda.

O argumento de quem era contra era o mesmo: não se pode punir o todo por causa de alguns. Hoje, raramente se vê objetos sendo atirados nos gramados brasileiros. E, quando acontece, os infratores são devidamente identificados pelos próprios companheiros de torcida, porque eles sabem que aquilo prejudica o clube.

É lamentável que alguém aja contra manifestações racistas porque isso prejudicaria seu time de futebol, e não simplesmente porque é algo repugnante, mas infelizmente é assim. A punição ao Grêmio serve como exemplo, e, se ajudar a eliminar o racismo do futebol brasileiro, terá sido muito bem vinda.

Mais importante que eliminar o racismo do futebol brasileiro é combatê-lo em todos os ramos da sociedade em que ele está escondido, mas quase sempre presente. Que este caso sirva para debater e refletir sobre o tema, e não para concluirmos que xingar um negro de macaco nem é tão grave assim, e que um campeonato de futebol é mais importante que um problema que oprime milhões de pessoas durante toda a vida.

Aos leitores gremistas que não fazem parte da minoria preconceituosa, sei que deve estar sendo muito estranho ser eliminado de um campeonato dessa forma. Mas tenham certeza que muitas outras competições acontecerão. Sem ocorrências de discriminação nas arquibancadas, de preferência.

Encerro o texto reproduzindo as palavras de Aranha sobre a situação sob a qual ele vive sendo negro:

A gente vale o nome que tem. Muitas vezes não sou aceito, sou tolerado. Porque sou o goleiro do Santos bicampeão mundial. Porque tenho um carro bonito, compro isso, compro aquilo. Então muitas vezes sou tolerado, não sou aceito. Já morei em prédio em que não me davam nem bom dia.

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Comentários

Jornalista. Doente por futebol bem jogado e inimigo de jogadores que desistem da bola para cavar falta e de atacantes "úteis porque marcam os laterais".