O Nômade

  • por Matheus Mota
  • 6 Anos atrás
O alemão Rudi Gutendorf provavelmente é o técnico mais "rodado" do mundo. Foto: Reprodução

O alemão Rudi Gutendorf provavelmente é o técnico mais “rodado” do mundo. Foto: Reprodução

O emblemático treinador Bela Gútman dizia que um técnico não poderia ficar em nenhum time por mais de 3 anos. Houve exceções célebres à norma estabelecida pelo húngaro, como Alex Ferguson, e outras nem tanto, casos do francês Guy Roux com o Auxerre e do brasileiro Antônio Neves no Comercial-PI. Mas, como já foi dito, são exceções, e o mais frequente mesmo é o técnico é ser um nômade. No entanto, ainda há “padrões de comportamento”, como trabalhar apenas no país de origem ou em lugares de cultura semelhante. São raros aqueles que resolvem embarcar em aventuras rumo a lugares, digamos, pouco midiáticos, e esse é o caso do alemão Rudolf “Rudi” Gutendorf.

Com mais de 50 anos de carreira, Gutendorf é o recordista em número de seleções treinadas: foram 18, em praticamente todos os continentes, com exceção da Europa. Isso sem mencionar os clubes onde passou, o que faz com que a conta de países visitados chegue a quase 30. Como era de se esperar, uma carreira tão longa e atípica gerou uma série de causos dignos de nota.

Antes de ficar com a prancheta, Rudi foi jogador, tendo atuado no Koblenz, pequeno clube de sua cidade natal. Aos 23 anos, teve que pendurar as chuteiras por causa de uma tuberculose, mas mesmo assim queria continuar no futebol, pois era a única coisa que sabia fazer. Nisso, resolveu ser técnico, e o primeiro passo foi realizar um curso com o lendário Sepp Herbeger, treinador da seleção alemã campeã da Copa de 54, no famoso Milagre de Berna.

No começo, as coisas estavam em um rumo convencional, com o título da Copa da Suíça de 61 com o Luzern. Após isso, um ano na Tunísia, no Monastir, parecia pouco promissor, mas, com o vice-campeonato da Bundelisga de 63-64 no comando do Duisburg (à época conhecido como Meidericher), as coisas pareciam ter voltado ao normal. Pareciam. Depois disso, as aventuras, das mais perigosas às mais pitorescas, tornaram-se rotina, com eventuais retornos à Alemanha.

Certa feita, ao treinar a seleção da Tanzânia durante a Copa da África de 81, os jogadores tanzanianos colocaram sangue de um animal sacrificado na pequena área. Os adversários, da Zâmbia, se recusaram a jogar ao ficarem sabendo do fato, alegando que o local estava amaldiçoado. A partida só pôde recomeçar após terem jogado areia no local. No Nepal, recusou uma oferta de um empresário local de $500,000 para entregar um jogo. Em contrapartida, admite que “convenceu” um árbitro a continuar um jogo após uma enchente ter atingido o estádio. A partida em questão era um Nepal x Índia e, no bumba-meu-boi, os nepaleses venceram o jogo por 1×0, fato que provavelmente não teria acontecido em circunstâncias normais, considerando a maior qualidade dos indianos. Só para constar, o suborno não foi com dinheiro, mas sim com uma garrafa de whisky.

Dessas aventuras, talvez as mais emblemáticas tenham ocorrido no Chile pré-Pinochet e em Ruanda após a guerra civil que assolou o país na década de 90. No país sul-americano, Rudi tinha relações estreitas com Salvador Allende, além de gozar de boa imagem no país, tanto que chegou a entregar o prêmio de Miss Chile em uma edição do concurso. Sob seu comando, a seleção chilena se classificou para a repescagem, onde decidiria a vaga para a Copa de 74 com a União Soviética. Com o golpe militar de 11/09/73, as boas relações com o presidente deposto provavelmente não seriam bem vistas pelos militares, e o técnico saiu do país no último voo rumo à Alemanha. Umas das tristezas do DT é que um muro do Estádio Nacional, que servia para treinamentos de chutes, construído a seu pedido, foi usado para fuzilamentos após o Golpe.

Rudi foi parar em Ruanda (Foto: dpa)

Rudi foi parar em Ruanda (Foto: dpa)

Já em Ruanda, o treinador assumiu a seleção em 99, 5 anos depois da guerra civil que ficou marcada por um genocídio, em que extremistas de etnia hutu perseguiram a minoria tutsi, ocasionando a morte de mais de 800 mil pessoas em cem dias. Este fato gerou uma separação profunda no país, e trabalhar em uma seleção que representa uma nação dividida não é fácil. No caso de Gutendorf, não foram poucas as vezes em que não foi possível dar seguimento aos treinamentos por causa de desentendimentos entre jogadores de etnias diferentes, isso sem falar nos torcedores, que não se sentiam representados pela seleção. Com muito trabalho, e passando a mensagem de que vingança nunca leva a nada, conseguiu formar um time coeso, que cativou a população, fazendo-a deixar o ressentimento de lado quando o time nacional entrava em campo.

Se fossemos contar todas as aventuras que o simpático técnico viveu, este texto ficaria muito grande. Seja como for, o último trabalho de Gutendorf foi com a seleção da Samoa, em 2003, e desde então ele reclama que os dirigentes não dão muitas chances a treinadores em idade avançada (atualmente ele está com 86 anos). Esse argumento pode até fazer sentido, mas, sem sombra de dúvidas, não dá para descartar sumariamente alguém com tanta experiência. Que surjam mais pessoas como ele (e que o deixem trabalhar!) para o bem maior do futebol.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.