O que Pelé e Felipão têm em comum?

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 7 Anos atrás

Pelé 1

Ao se deparar com a questão do título, de primeira, vem à mente do brasileiro: os dois foram campeões do mundo com a Seleção Brasileira. Está correto. Mas tem algo mais. Dentro de campo, as semelhanças não existiram. Enquanto Pelé foi um atacante com uma infinidade de recursos e considerado por muitos o maior jogador de todos os tempos, Felipão ficou conhecido por ser um defensor limitado e que baseava seu jogo exclusivamente no físico.

Fora do campo, Felipão virou um treinador de sucesso, conquistando títulos por vários clubes do Brasil. Já Pelé nunca investiu na carreira de treinador, preferindo se dedicar ao marketing esportivo e bastidores, chegando ao cargo de Ministro dos Esportes em 1995, que ocupou até 1998. A lei que rege o futebol brasileiro hoje em dia carrega seu nome.

Mas o que ambos têm em comum? A omissão. Pelé e Felipão são dois dos maiores nomes do futebol brasileiro. Uma palavra de qualquer um dos dois tem um peso enorme na imprensa esportiva e na sociedade. Mas os dois preferem ou se omitir ou cerrar fileiras com os poderosos que buscam a manutenção do status quo no futebol brasileiro, passando ao largo da busca de soluções para os problemas do esporte mais adorado no Brasil. Um desses problemas é a questão do preconceito racial.

É sabido por todos – e não é nossa intenção retornar a isso – o problema ocorrido em Porto Alegre no confronto Grêmio x Santos pela Copa do Brasil. O que poderia ser uma oportunidade para um grande debate vai sendo, aos poucos, varrido para baixo do tapete. Num primeiro momento, Pelé falou que Aranha foi precipitado e que se ele – Pelé – tivesse parado o jogo toda vez que foi ofendido no Brasil ou na América Latina, teria empacado praticamente todas as partidas que disputou na carreira. Como bem disse Juca Kfouri, se Pelé tivesse parado alguma, talvez hoje – 40 anos após o Rei ter deixado o futebol brasileiro – não estivéssemos discutindo isso. A questão é clara e muitas vezes repetida: “É o tipo de coisa que só incomoda se você liga para isso”. Não, incomoda por que incomoda mesmo, ponto.

Isso quando não tentam colocar no balaio questões relativas à obesidade, como se o peso de uma ofensa racial fosse o mesmo de uma ofensa estética. Não é por um simples fato: excesso de peso, problemas nos dentes, tudo isso é passível de mudança. Já cor da pele não, é algo que a pessoa não pode mudar. Uma vez negro, sempre negro. E com isso vem uma história de milênios de opressão, algo que uma simples leitura sobre a história da humanidade ajuda a constatar.

Já Felipão subiu o tom, colocando no goleiro Aranha a culpa pelo incidente, acusando-o uma ”esparrela”, uma armadilha. A declaração foi dada antes do treino do Grêmio ontem, sendo ouvida por vários jornalistas que cobrem o clube. É a velha tática de colocar na vítima a culpa do incidente, amplamente difundida no Brasil, especialmente após o debate de cunho social ganhar espaço nos últimos anos, com políticas que visam a inclusão dos menos favorecidos socialmente.

Ainda que de moral baixo após a vexatória eliminação do Brasil na Copa do Mundo, a palavra de Felipão tem peso, afinal é um dos poucos treinadores a conquistar uma Copa. Caso tivesse se posicionado a favor da punição ao Grêmio – muito mais para inglês ver do que qualquer outra coisa -, Felipão emprestaria seu peso à luta contra um problema que ainda hoje, em pleno 2014, aflige o Brasil. Mas ao preferir ficar ao lado do seu clube e dos que tentam, a todo custo, fechar os olhos – deles e das outras pessoas – para uma das grandes mazelas da humanidade, Felipão manchou sua biografia de forma indelével, muito mais que com o 7×1 sofrido há pouco mais de 2 meses.

Adaptando a famosa frase do Romário, Felipão e Pelé calados são dois poetas. Mantendo a boca sempre fechada, ajudariam mais o futebol brasileiro.

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.