Os cânceres do futebol inglês

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Empresários ricos estão atrasando o lado da Premier League e arruinando as estruturas do futebol inglês. Não se pensa mais em futebol?

Duas notícias publicadas no início desta semana pelo portal britânico The Guardian reforçam a tese de que a Premier League inglesa vive hoje duas realidades, uma boa e outra péssima. De positivo é que a competição disputada na Terra da Rainha é, para muitos apaixonados por futebol – e eu me incluo entre estes fãs -, a liga mais fantástica da Europa, onde o futebol é praticado com muita velocidade, times atacam e contra-atacam sem medo do adversário, onde a bola rola limpa por conta dos gramados que mais parecem tapetes e as torcidas, apesar de reagirem a quase todos os lances como se estivessem em um teatro da bola, levam qualquer fanático ao delírio quando cantam os belos hinos dos clubes antes da bola rolar (ou vai me dizer que você nunca se arrepia quando a massa do Liverpool entoa em voz alta o ”You’ll Never Walk Alone” no Anfield Road?). Isso tudo sem contar a fileira de excelentes jogadores que atuam no país.

Mas retornando às primeiras linhas deste texto e até mesmo ao título, nem tudo são flores no futebol inglês hoje em dia. Por isso, digo que a Premier League é a liga fantástica por aquilo que é produzido no campo e pelo incrível produto internacional que ela se tornou ao longo dos anos. Mas o problema começa quando esse ”incrível produto internacional” não fortalece quem mais deveria ser fortalecido: a estrutura do futebol inglês. Ninguém se preocupa, por exemplo, com o fato de que o último atacante inglês a ser artilheiro da Premier League foi Kevin Phillips, lá na temporada 1999/2000, quando atuava pelo Sunderland. De lá para cá, holandeses, franceses, marfinense, português, búlgaro, argentino e uruguaio lideraram a ponta da artilharia inglesa. Isso é inaceitável. Por isso, o Campeonato Inglês não pode servir de exemplo para o mundo se a intenção é criar um país vencedor no futebol como um todo, se a busca é por um sucesso que se espalhe entre as seleções de base e chegue ao departamento profissional. E, sinceramente, não acredito que dê para pensar em soberania no esporte sem que a seleção nacional venha em primeiro plano. É preciso que a Premier League olhe para o futebol inglês o mais breve possível.

Quer um ótimo exemplo de liga que não beneficie apenas os clubes, mas também a seleção nacional? Veja a Bundesliga e o modo como se planeja futebol na Alemanha. No país atual campeão do mundo é proibido que empresários estrangeiros comprem clubes e detonem a identidade do futebol do país, prática que é o câncer do futebol inglês hoje: não projetar um futebol nacional rentável e de princípios próprios sem que haja influência externa de um bando de magnatas que, talvez, pouco entendam de futebol. O importante para eles é quase que exclusivamente os ”negócios”, como tal iniciativa irá beneficiar o bolso. Claro que futebol precisa de dinheiro, mas não dá para repetir o que se faz na Alemanha? Lá não há clubes quebrados.

Assem Allam, who took over at Hull City in 2010, believes the name Tigers is a symbol of power

Assem Allam, dono do Hull City, quer trocar nome do clube. Não há coisa mais importante para se preocupar? (Foto: Richard Sellers/Sportsphoto/Sportsphoto Ltd./Allstar)

Segundo matéria publicada pelo The Guardian na última terça-feira (11), o egípcio Assem Allam, dono do Hull City, colocará o clube inglês à venda em abril de 2015 pelo fato da Associação de Futebol Inglesa não ter autorizado que ele mudasse o nome da entidade para Hull Tigers, já que, com o novo nome, acredita o empresário, o marketing do clube seria favorecido. A torcida do Hull, claro, não concordou com a ideia de quem não é fiel à sua história, por mais modesta que ela seja.

Já de acordo com outra notícia do mesmo site, há um forte interesse de um Grupo de Investimento americano na compra do Tottenham, que hoje tem como dono o britânico Joe Lewis. O clube de Londres, porém, divulgou comunicado oficial na última terça-feira afirmando que os Spurs não serão vendidos e que todos os esforços estão concentrados na construção de um novo estádio.

LEIA MAIS: Kevin Phillips, na edição de 1999/2000, foi o último inglês a terminar a Premier League como goleador máximo, após marcar 30 gols pelo Sunderland. De lá para cá, holandeses, franceses, marfinense, português, búlgaro, argentino e uruguaio lideraram a tabela de artilheiros.

Paralelamente à facilidade com a qual um milionário compra um time na Inglaterra, hoje está a internacionalização da Premier League, fato que pode até soar positivo para o espetáculo dentro das quatro linhas, mas que afunda cada vez mais as esperanças de renovação e reestruturação da seleção da Inglaterra nos próximos anos. ”Ter poucos jogadores ingleses em nosso torneio nacional enfraquece a seleção”, disse o zagueiro Rio Ferdinand há exatamente um ano. De lá para cá, o cenário só parece ter piorado, ou o fiasco inglês na Copa do Mundo do Brasil foi acidente de percurso? Óbvio que não.

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Kevin Phillips, último jogador inglês artilheiro da Premier League, em 1999/2000. Resultado da internacionalização da liga

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Jornalista esportivo. Blogueiro na Gazeta Esportiva.com e colunista no Doentes por Futebol e Sportskeeda.com. E-mail: [email protected]