Os opostos do País Basco

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás
Foto: Diário AS | Athletic Bilbao perde para Bate Borisov e se complica na Liga dos Campeões.

Foto: Diário AS | Athletic Bilbao perde para Bate Borisov e se complica na Liga dos Campeões.

É terrível o início de temporada do Athletic Bilbao. Após a promissora (e merecida) vitória contra o Napoli pela fase qualificatória da Liga dos Campeões, os leones entraram numa maré de azar – pelo visto, sem fim. O mau momento não se resume apenas ao âmbito doméstico, no qual tem quatro pontos no Campeonato Espanhol e está na 16ª posição; pela competição europeia, o time treinado por Valverde já enxerga uma iminente eliminação. A derrota para o Bate Borisov por 2×1 afundou mais ainda o Athletic, com um ponto no Grupo H e dois compromissos ingratos contra o Porto nas próximas rodadas.

Parece brincadeira, mas, se continuar nesse ritmo, o rumo do clube de San Mamés será o mesmo da rival Real Sociedad em 2013/2014. A Real, é bom lembrar, também eliminou um adversário de expressão antes da fase de grupos (Lyon), mas foi uma vergonha contra Bayer Leverkusen, Shakthar Donetsk e Manchester United. Aos poucos, os donostiarras foram sucumbindo na temporada, até terminá-la de maneira opaca.

Dentro de campo, a impressão que fica é que o Athletic está pior que aquela Real Sociedad. O jogo simplesmente não flui. A falta de intensidade é consequência direta da má fase de algumas peças individuais importantes na campanha anterior. Por exemplo, Mikel Rico ainda não voltou de pré-temporada. O volante, que se destacou dando equilíbrio e chegando sempre com perigo ao ataque, apresenta uma versão sem sal e pouco produtiva de si mesmo. Iturraspe (diga-se de passagem, um feixe de luz em meio à escuridão) tem que trabalhar por dois à frente da defesa. Susaeta está a cada jogo mais distante daquele ótimo jogador que foi com Marcelo Bielsa em 2011 e 2012.

Como de costume na Espanha, os maus resultados têm pressionado o treinador da equipe. Ernesto Valverde nunca caiu nas graças da torcida, e vê sua batata adentrando o forno. Ele já acenou com a possibilidade de fazer algumas mudanças táticas para mudar o cenário negativo. Sem Ander Herrera, o 4-2-3-1 não tem dado mais certo – o meio não produz e o ataque cria poucas oportunidades. Contra o Granada de Joaquín Caparrós, o Athletic teve 71% de posse de bola previsível, não conseguindo quebrar o muro andaluz. O 4-3-3 foi testado como variação, mas ainda precisa de mais treinamento.

Aliás, a saída de Ander Herrera não pode ser subestimada, ainda mais quando seu substituto (ou aquele que deveria ser) não tem produzido absolutamente nada. Beñat, que chegou sob grande expectativa, não consegue se firmar. Longe da forma física ideal, o ex-Bétis passou de jogador de seleção a flop em duas temporadas. Valverde já tentou Muniain mais centralizado e Ibai Gomez (que vem há tempos pedindo vaga no time titular) aberto à esquerda. A equipe ganha em velocidade, mas perde em cadência e organização.

Se ainda sonha com a manutenção do quarto lugar e a vaga na próxima UCL, o Athletic precisa definitivamente entrar na temporada. Os leones têm jogadores e time o suficiente para se recuperarem, mas a competitividade é maior em relação à Liga passada. O Valencia de Nuno e o Sevilla 2.0 de Unai Emery são equipes mais sólidas e fortes que Villarreal e o próprio Sevilla.

“I’ll be there for you…
…cause you’re there for me too.” A Real Sociedad poderia se aproveitar da má fase do Athletic e fazer alguma graça, mas parece disposta a caminhar junto de seu “amigo”. Depois da excelente vitória contra o Real Madrid, o time caiu ladeira abaixo e não venceu nenhum jogo. Era o momento ideal para despachar as críticas.

Foto: El Desmarque Basco | A Real Sociedad começou mal a temporada, mas o goleiro Zubikarai tem sido elogiado

Foto: El Desmarque Basco | A Real Sociedad começou mal a temporada, mas o goleiro Zubikarai tem sido elogiado.

No final de semana, o empate contra o Valencia foi até em certo ponto injusto, pois os bascos foram claramente superiores. Com Canales em um de seus melhores dias como txuri-urdin, a Real avançou as linhas e pressionou em boa parte do tempo um Valencia mais retraído e compactado em seu campo de defesa, apostando nas saídas em velocidade. A notícia positiva foi a boa partida do goleiro Zubikarai, muito bem quando exigido. Se havia dúvidas de que ele seria o substituto perfeito de Bravo, aos poucos elas vão diminuindo.

O treinador Jagoba Arrassate elogiou a equipe após o jogo: “se jogarmos assim todo domingo, fatalmente subiremos na tabela”, disse. No entanto, apesar da destacável produção ofensiva (e até defensiva, apesar dos apuros que Elustondo teve com o apoio do rival Gaya), a Real ainda não passa segurança e confiança aos torcedores. Pelo visto, vem mais uma temporada irregular por aí.

Prazer, Eibar

Foto: Diário AS | Eibar na Liga Espanhola 2014/2015: pelo menos por enquanto, (o único) motivo de alegria para o País Basco

Foto: Diário AS | Eibar na Liga Espanhola 2014/2015: pelo menos por enquanto, (o único) motivo de alegria para o País Basco

O País Basco tem que agradecer ao Eibar por não ser uma vergonha completa nas primeiras rodadas da Liga Espanhola. Se seus mais tradicionais representantes estão próximos da zona de rebaixamento, o modesto Eibar, que há dois anos estava na terceira divisão espanhola, é a surpresa mais agradável deste início de temporada. Sólidos e consistentes, os armeros estão em oitavo com oito pontos, a quatro da zona de Liga Europa, e são capazes de produzir belos gols coletivos, como o marcado no Vicente Calderón contra o Atlético de Madrid. No confronto direto contra os rivais regionais, acumula duas grandes atuações na vitória contra a Real Sociedad por 1×0 e o empate por 0x0 contra o Athletic Bilbao em San Mamés.

A história do Eibar até chegar à primeira divisão é encantadora. A LFP ameaçou impedir a participação do clube na elite espanhola em maio, quando eles confirmaram o acesso na Liga Adelante. O argumento da entidade que gere o futebol no país das touradas foi que o Eibar não tinha número de sócios e lugares no estádio suficientes para disputar a Liga BBVA. Com a Espanha em crise, a folha de pagamento do Eibar é modesta. O capital dos azulgrenás não passavam de 770 mil euros, valor abaixo do obrigatório para a disputa da primeira divisão. É, realmente, um clube minúsculo.

A história despertou o interesse de muitos cidadãos dispostos a ajudar. O jeito foi unir o útil ao agradável e apelar para as redes sociais. Foi lançada uma campanha com o nome de “Defende o Eibar”, oferecendo cotas de ações a partir de 50 mil euros para atingir o valor referido. Às vésperas de começar o campeonato, o presidente Alex Aranzabal anunciou o registro de 4 mil sócios, uma cifra recorde na história dos bascos. Além disso, uma pequena reformulação às pressas no estádio Municipal de Ipurua permitiu um maior conforto aos torcedores. Agora, é permitida a entradas de quase 6 mil aficionados no estádio, podendo chegar a 7 mil em abril de 2015.

A redenção do clube da província de Guipúzcoa teve um final feliz. Agora livre de qualquer ação que o impeça de participar da competição, a equipe treinada Gaizka Garitano dá show de competitividade a cada final de semana. Logicamente, pelo elenco pequeno, a boa fase deve ter um fim daqui a algumas rodadas. Mas os pontinhos conquistados nestes cinco primeiros jogos serão essenciais. Enquanto isso, a “Eibarmania” só cresce.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.