Quando a tolerância é um obstáculo

  • por João Almeida
  • 7 Anos atrás

No começo da década de 90, Nova York, então assolada por uma onda de violência, viu seu prefeito Rudolph Giuliani instaurar uma política de tolerância zero com relação à criminalidade. Viu assim uma drástica redução nos crimes, o que levou a cidade a ser considerada a mais segura dos Estados Unidos pelo FBI. A estratégia era simples: punir severamente delitos pequenos, a fim de evitar que eles levassem a maiores casos.

A punição severa de pequenos casos é, indubitavelmente, a melhor forma de se evitar a existência de males maiores – o que se provou com a experiência em Nova York – e isso se aplica em qualquer âmbito. Aplica-se, por exemplo, no futebol. Pequenos casos, se combatidos de maneira severa, impedem a evolução do problema. Se na Arena Grêmio apenas uma meia dúzia proferiu insultos racistas, o severo castigo imposto ao clube é o melhor caminho a se seguir para evitar que esse número aumente.

O veredicto do pleno do STJD não foi exatamente justo, mas necessário. Nada pode mexer mais com os brios de um torcedor que uma punição a seu time. É, por mais que questionável, o único meio de se criar uma consciência quanto a isso nos estádios. Aqueles que descumprirem a lei a partir de agora não serão repreendidos pelos demais pura e simplesmente pela moral. Todos em volta se mobilizarão para evitar os insultos ou apontar os culpados, de modo a livrar o clube de punições.

Até então, os responsáveis pelos delitos sofriam sozinhos. Assim, aqueles que os cercavam se conformavam, já que não sofreriam com a imbecilidade alheia. Agora sofrerão. Agora serão os primeiros a coibirem tais atitudes, antes mesmo da justiça, que sequer deverá ter que entrar em ação. Como na política de Giuliani, baseada na famosa “Teoria das janelas quebradas”, é notório que o objetivo é apagar o fogo antes que ele se alastre e cause um incêndio, ao invés de tentar apagar o incêndio uma vez que ele já causou destruição e pode demorar muito para ser findado. A punição exemplar deixará potenciais criminosos de sobreaviso antes de cometerem seus crimes.

É evidente que a decisão não acabará com o racismo. Aquilo que está enraizado na personalidade de alguns pode ser uma marca indelével, mas só a não manifestação de tal marca já é um avanço digno de nota. Os que xingaram Aranha na partida diante do Santos provavelmente irão manter suas convicções para o resto de suas vidas, mas esse pensamento pequeno não pode afetar terceiros. E, se a erradicação do racismo parece algo distante, temos de nos contentar por agora com a erradicação de sua manifestação.

Milhões que não têm nada a ver com a situação sofrerão por causa de pouquíssimos. Pode ser injusto, mas é o único jeito imaginável de se levar o racismo a sério e impedir que ele se torne inerente à cultura do país, como, infelizmente, parece ser em alguns países europeus. Erradicar o preconceito é algo utópico na sociedade em que vivemos, mas evitar que os cidadãos de bem sejam coniventes com os racistas é o primeiro passo rumo à sua erradicação. E a tolerância é um empecilho neste caminho.

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