Quem é o vilão?

  • por Nilton Plum
  • 6 Anos atrás

A história é de conhecimento da maioria. Dois indivíduos, pertencentes a contextos diferentes, cruzam seus caminhos, desenvolvem amizade fraternal e, por uma tragédia do destino, tornam-se inimigos declarados. Eric Lensher, o Magneto, um dos melhores personagens já criados para os quadrinhos, sofreu tudo o que podia sofrer durante o holocausto. Se há alguém com justificativas fortes para ser quem é, do jeito que é, este alguém é o mutante judeu. Charles Xavier, nascido em berço de ouro, outorga pra si a envergadura moral de quem lidera um dos grupos de super-heróis mais famosos dos últimos 70 anos. O perseguido que virou perseguidor, Magneto, é um resumo político ambulante e através de sua retórica convincente que arrebanha milhares de simpatizantes. Nos quadrinhos, no cinema, rivalidades à parte, o leitor/espectador pode duvidar da vilania de Magneto, mas duvidaria do altruísmo de Xavier?

Quando os dois ex-amigos perpassam os filmes da franquia X-Men jogando um interminável jogo de xadrez é possível a lembrança (se o espectador for um Doente por Futebol, é claro) do parafraseado tricolor Nelson Rodrigues: “Que palavra ou ódio fizeram com que aqueles nove saíssem das Laranjeiras e fundassem o futebol no já existente Clube de Regatas Flamengo?”. Ninguém nunca soube ao certo o que aconteceu. O motivo permanece perdido no emaranhado especulativo da história. No xadrez que nunca termina.

Decerto, o Fla x Flu deste último domingo, empate em 1×1 num lotado e chuvoso Maracanã, está aquém dos embates de Doval, Assis, Rivelino, Zico, Renato Gaúcho, Romário, Adriano… Embora não tenha sido um espetáculo medíocre, sintetiza perfeitamente os dois atuais times. O Flamengo e seu elenco de quatorze jogadores começam a dar o tom de seu 2014: um despreocupado meio de tabela e um foco inesperado na Copa do Brasil, tendo uma supremacia estadual a tiracolo. Do lado tricolor, um mistério: como um time com Cavalieri, Cícero, Carlinhos, Jean, Wagner, Conca e Fred pode jogar um futebol tão apático, burocrático, dependente de atuações individuais ou de bolas alçadas incessantemente em área? Das partidas do Flu, salvo exceções como o jogo contra o Cruzeiro, a impressão que fica é a de que é o time da firma jogando antes do churrascão de fim de ano.

Em dado momento, os times se misturam. O Fla x Flu se torna um ente único e perturbador: uma engrenagem decaída e enferrujada do futebol brasileiro, uma emulação torta e imperfeita do que um dia foi. Dois velhos amigos, inimigos cúmplices se digladiando através de um interminável tabuleiro. Cada um com seu contexto, cada qual com sua retórica. A dissidência tricolor gerou o departamento de futebol rubro-negro, mas foi Magneto que gerou o Xavier paralítico, o professor. Num olhar mais próximo e aprofundado, em meio às histéricas e infantiloides reclamações de arbitragem pró-Fla, ao empurrão de Fred, à agressão de Conca, à gravata do Cáceres, ao gol na raça de Eduardo, não se sabe mais quem é o vilão. Sobretudo num empate.

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