Sacode a poeira e dá a volta por cima

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Anos atrás

O começo de temporada foi complicado para a Real Sociedad. Quando, há cinco dias, o time foi humilhado pelo inexpressivo Krasnodar, da Rússia, por 3×0, dando adeus precoce à Liga Europa ainda na sua fase de qualificação, se esperava que os bascos entrassem em parafuso. A constante instabilidade dentro das quatro linhas e a falta de credibilidade do treinador Jagoba Arrassate, fomentadas pela conhecida impaciência dos torcedores, instalava uma pequena crise no clube que há um ano estava disputando a Liga dos Campeões da UEFA. Para piorar, a estreia na Liga Espanhola foi com o pé esquerdo: derrota para o modesto Eibar por 1×0.

Tradicional palco para as desilusões da Real ante o Real Madrid, o Anoeta viu nesse domingo o que pode ter marcado a redenção do clube de San Sebastian. A fantástica vitória contra o campeão europeu de virada por 4×2 encheu o grupo de moral e ânimo para o restante da temporada. Sem uma competição paralela para disputar, não seria exagero colocar os donostiarras no grupo dos que brigam por vaga na próxima UCL (basicamente formado por Valencia, Sevilla e Athletic Bilbao), ainda que esteja em um patamar mais baixo que os rivais.

Muito além do resultado, os três pontos contra os merengues serviram para ratificar a capacidade de decisão de Vela (que iniciou no banco) e Xabi Prieto, que, para este que vos escreve, é o jogador mais subestimado do futebol espanhol. Quando a Real tem a bola, Prieto vira o maestro da companhia. Ele sabe a hora de acelerar e acalmar a bola e acionar um jogador num momento de contra-ataque rápido. O atleta, que marcou um hat-trick no Santiago Bernabéu há um ano e meio, tem um aproveitamento de 84% de acerto de passe, o maior do elenco.

Foto: Diário AS | Xabi Prieto: camisa 10, capitão e bandeira da Real Sociedad

Foto: Diário AS | Xabi Prieto: camisa 10, capitão e bandeira da Real Sociedad

Enquanto o meio-campo do Real Madrid agonizou sem um primeiro volante do nível de Xabi Alonso à frente da retaguarda (tema para uma próxima coluna), Prieto e Zurutuza comandaram as ações da Real Sociedad. Kroos e Modric não conseguiram marcá-los, James e Isco fracassaram e o apoio dos laterais foi pífio. A meia hora de bom futebol de Bale desapareceu à medida que a própria produção coletiva do Real Madrid em si diminuía.

Por sua vez, Vela, novamente escalado de falso nove, não deu paz ao sistema defensivo merengue: se movimentando com contundência, ganhou todas de Marcelo e marcou o gol que sentenciou a vitória. O mexicano parece adaptado à função que cada vez mais lhe é atribuída, após passar por problemas no início. Atrás, o ótimo Iñigo Martínez voltou a dar mostras de seu potencial, que o transformou no melhor zagueiro da Liga Espanhola 2012-2013. Garantindo solidez defensiva e sintonia nas antecipações, Iñigo, que ficou de fora da primeira convocação de Del Bosque após a Copa do Mundo, anulou Benzema e quem mais se atreveu a aparecer por seu setor.

A saída de Griezmann para o Atlético de Madrid na teoria seria um problema, mas serviu para Arrasate reforçar mais o meio-campo. O treinador efetivou a variação do 4-3-1-2 com um losango no meio-campo para um 4-4-2 em linha, que no domingo tornou-se um 4-2-3-1 no segundo tempo com a entrada de Canales no lugar de Gonzalo Castro. Canales, aliás, desempenha um papel importante nesta Real, como um “falso meia-direita”, se é que a literatura tática permite a existência desta função. El Príncipe aproveita seus dotes cerebrais para ganhar liberdade de movimentação e circular pelo centro a fim de municiar o centroavante. Se a Real perdeu a força que tinha pelos lados (atualmente depende muito dos avanços de De La Bela e Zaldua), ganhou consistência para atacar pelo meio.

Resta saber se a Real que deu as caras na segunda rodada irá aparecer mais vezes. A irregularidade demonstrada durante quase toda Liga na temporada passada tem que ser apagada caso os bascos queiram retornar à maior competição de clubes na Europa. Os próximos cinco jogos serão testes definitivos para sabermos quais as verdadeiras pretensões da Real na temporada: Celta, Sevilla e Espanyol fora e Almería e Valencia em casa. Momento ideal para mostrar que a vitória contra o Real Madrid não foi por acaso.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.