Sobre Deuses e Símbolos

  • por Nilton Plum
  • 7 Anos atrás

Em sua obra-prima literária, “Deuses Americanos”, o escritor inglês Neil Gaiman (o mesmo de Sandman) discorre acerca de uma batalha física conduzida por seres metafísicos. Deuses de antigas mitologias são confrontados mortalmente por Deuses do mundo pós-moderno e sofrem dramaticamente pra que sua liturgia seja reconhecida e encontre sobrevida num mundo onde, teoricamente, não há mais espaço pra isso. Quem diabos cultuaria Anúbis num mundo de celulares quad-core? Seu protagonista segue a linha do “cara errado no lugar errado destinado a fazer grandes coisas auxiliado por um mentor raposa velha”, o Senhor Wednesday. Em dado momento, o velho 171, que é cheio de chistes e motes, sentencia: “Tudo é a porra do símbolo”. Existiria esporte mais semiótico do que o futebol? Existiriam Deuses arquetípicos num esporte de emoções tão pentecostais?

Luxemburgo, raposa velha, sabe muito bem disto ou não teria criado seus motes: “sair da confusão”, “tirar o saco de cimento das costas” (com direito a dois cômicos saquinhos de cimento no “jabá” da coletiva de cada rodada). Seu futebol, outrora multicampeão arrogante, assumiu caráter prático, quase humilde e conseguiu no último domingo, em Salvador, diante do lanterna Vitória (2 x 1) sua quinta vitória consecutiva, a sexta em sete jogos . Trabalha com metas curtas e sinceridade extrema, pois sabe que não ser sincero diante da torcida rubro-negra com um elenco limitado é uma armadilha traiçoeira. Já teve em mãos o “melhor ataque do mundo”, todo o poder de um elenco rubro-negro estrelado e milionário que fracassou. Está dando certo do mesmo modo como ex-jogadores rubro-negros antecessores deram no comando da equipe: com calma e humildade.

Aos poucos, sua equipe (de 14 ou 15 atletas, pois o Flamengo não possui elenco) vai ganhando corpus e pode já eleger, dentre jogadores fundamentais como Canteros, Wallace, Eduardo, Éverton, seu símbolo. Discreto, eficiente e humilde, o “cara certo no lugar certo destinado a fazer grandes coisas”, o zagueiro Marcelo. Sua comemoração emocionada ao marcar o primeiro gol seu com a camisa do Flamengo, que já vinha amadurecendo, após uma partida muito ruim pela Copa do Brasil, é comovente e denota o quanto de comprometimento existe ali, naquela faixa de campo.

Do outro lado, tivemos Juan, que, durante alguns anos, ao lado do interminável Léo Moura, ostentou as melhores laterais de futebol no Brasil. Por ironia ou força simbólica, o lateral esquerdo teve sua melhor atuação pelo Flamengo desde a “arrancada de 2007”. Cometeu um penal a favor e perdeu outro contra. O que teria se passado na cabeça de Juan ao ver tanto vermelho e preto em campo?

Atualmente, a despeito dos adversários em campo, o torcedor rubro-negro deve saber que seu maior adversário é a euforia do imediatismo, a areia movediça da arrogância. Atrás de toda zoeira, parte fundamental da catarse futebolística, existe uma verdade ainda que simbólica. Esta verdade, por anos, tem sido a síntese das glórias e das desgraças flamengas. A grande batalha do pragmatismo da equipe de Luxemburgo se inicia na última rodada do turno. Começa uma sequência com Grêmio (em casa), Goiás (fora), Corinthians (em casa), Palmeiras (fora), Fluminense (clássico que promete muito), São Paulo (fora). Aqui, o saco de cimento pesará mais e veremos símbolos, Deuses antigos e novos, indicando as reais pretensões do Flamengo.

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