Tá perdoado, Ganso!

  • por João Rabay
  • 5 Anos atrás

Olá, Paulo Henrique. Você não lembra de mim – na verdade nunca soube que eu existo -, mas eu te conheço faz tempo. Desde 2008, acho, quando vi você jogar nas categorias de base do Santos pela primeira vez. Naquele tempo, você era Paulo Henrique Lima, Ganso era só para os íntimos.

Quando te conheci, foi paixão à primeira vista. Sim, paixão, porque falar de futebol e ignorar a paixão é bobagem. Quando, com meus 16 anos, ainda com um restinho de esperança de virar jogador profissional, te vi fazer em campo tudo o que eu sempre quis, não tive como me conter.

Você parecia ser o jogador que eu sempre quis ser. Só de se destacar mesmo sem correr muito eu já te admirei bastante. A capacidade de ver o que acontece em campo e de colocar a bola onde quiser foram o que eu sempre busquei quando joguei bola. E, como você, ouvi muita reclamação porque corria menos que os outros.

Não que correr não seja importante, mas, convenhamos, quem corre demais pensa de menos.

2008 passou e 2009 veio com um momento novo para você. Profissional, de verdade, não para ficar no banco e entrar de vez em nunca, mas para jogar mesmo. “Presta atenção nesse Paulo Henrique. Joga muito!”, eu dizia.

E como era verdade. Mesmo ainda sem tanto destaque, não dá para esquecer que o Santos só não brigou contra o rebaixamento por sua causa. Gols e assistências que só não foram mais numerosas porque seus passes não encontravam pés tão calibrados.

Lembro de uma partida específica. Santos 2×2 Avaí, na Vila. Você provavelmente não se recorda, mas foi um dos seus grandes jogos que presenciei. A bola pro Madson, no primeiro gol (http://globotv.globo.com/globocom/brasileirao-historico/v/os-gols-de-santos-2-x-2-avai-pela-18a-rodada-do-brasileirao-2009/1099879/), é coisa de quem sabe muito. E vendo você fazer até parece fácil.

Torcedor tem mania de “soprar” pro jogador o que ele deve fazer. “Vai, chuta!”, “vira o jogo!”, “toca ali!”. Mas, claro, ver de fora e de cima é muito mais fácil que enxergar o que tá acontecendo no gramado, então normalmente os atletas não fazem o que a gente pede. Mas você é diferente. Você vê tanto ou mais do que quem está de fora. Como? Não sei. Mas que vê, vê.

Depois de nos salvar em 2009, o ápice em 2010. O melhor time do Santos que eu vi jogar, comandado por você e Neymar. Era tanto show, jogo após jogo, que é difícil destacar um ou outro gol. Mas tem um que eu não vou esquecer nunca. Aquela pintura contra o Grêmio na Vila.

Jogo duro, adversário com a vantagem, fechadinho. Todo mundo esperava que o Santos atropelasse em casa, mas já estávamos no segundo tempo e parecia cada vez mais difícil. Será que chegou a hora de acordar do sonho? Não, não, ainda não. Toca pro Ganso que ele resolve. Que paulada! Indefensável. Acho que se tivessem três goleiros lá, a bola ainda entraria.

Depois desse dia, passei a dizer brincando para meus amigos que meu filho se chamaria Paulo Henrique.

Aquele foi o gol do título da Copa do Brasil. O Vitória que me desculpe, mas depois daquilo, não tinha jeito. Podia entregar a taça.

Quis o destino que o Grêmio, mesmo adversário da catarse que você provocou com aquele chute, mudasse toda sua trajetória no Santos. Ainda tínhamos esperança no título brasileiro (imagina um bando de moleque ganhando a tríplice coroa, que coisa linda). Mas sem você seria impossível.

Quando você caiu sozinho na área gremista, sabia que não poderia vir notícia boa. Ligamentos rompidos, seis meses fora. Dane-se 2010. Acabou quando estava ficando bom de verdade. Sem o Ganso não vai ser a mesma coisa. Que venha a Libertadores do ano que vem.

Mas não foi só isso. A lesão aconteceu bem quando você negociava um novo contrato com a diretoria. E, ao que me parece, eles não quiseram negociar enquanto você não voltasse. Olha, Ganso, eu não vou dizer nunca que você não foi sacana com o Santos, mas não dá para negar que a diretoria do Santos também foi sacana com você.

Não preciso falar muito do que aconteceu depois. Crise de relacionamento, ameaça de ir para a Europa, para o Corinthians, para não sei onde. Empresário brigado com a diretoria do Santos aproveitando a oportunidade para dar o troco e você no meio. Deve ser difícil se concentrar em jogar bola assim.

De qualquer jeito, se não fosse você, provavelmente cairíamos na Libertadores na primeira fase mesmo. O que foi aquele jogo contra o Cerro? E o gol contra o América? E o toque discreto, mas genial, que desmontou a defesa do Peñarol no primeiro gol no Pacaembu?

Cara, tudo o que aconteceu pode ter manchado sua história no Santos, mas jamais vai apagar. Fico pensando o que poderia ter sido se não fosse aquela maldita lesão no Olímpico. Mas não adianta muito sonhar, né?

A realidade está aí, e hoje ela é com você no São Paulo. Torci muito contra, não nego, mas é complicado torcer contra um artista como você. É caso perdido. Melhor parar de perder tempo e esperar que você saia logo do São Paulo para que eu possa admirar seu futebol com a consciência limpa.

Depois de sair do Santos, Neymar disse que “agora entendia por que o Ganso não ficou no Santos”. Se ele, que também esteve lá dentro, disse isso, como posso eu, de fora, discordar?

O que importa, Ganso, é que pra mim isso são águas passadas. Prefiro admirar seu futebol a guardar mágoas por causa de uma briga que não foi comigo, não foi com o Santos, foi com a diretoria que estava lá enquanto você também estava. Tá perdoado, craque.

Comentários

Jornalista. Doente por futebol bem jogado e inimigo de jogadores que desistem da bola para cavar falta e de atacantes "úteis porque marcam os laterais".