As mudanças de Felipão e a evolução do Grêmio

Foto: Clic RBS | Felipão no primeiro contato com a nova Arena do Tricolor Gaúcho.

Foto: Clic RBS | Felipão no primeiro contato com a nova Arena do Tricolor Gaúcho.

Colaboração de Victor Junior

Felipão, o técnico mais vencedor da história recente do Grêmio, tem transformado água em vinho na beira da área técnica a cada jogo do Tricolor. É sabido que a história de um clube não se faz somente de jogos bem jogados. O bom desempenho de uma equipe também de treinamentos inteligentes e de preleções que tornem mais intenso o brilho dos olhos dos jogadores antes de entrar em campo – e é aí que Scolari tem o seu ponto forte.

Já no início da sua carreira, Luis Felipe Scolari demonstrava bons atributos de técnico em clubes com elenco de menor qualidade, fazendo com que os jogadores transpirassem mais, de forma a reduzir a deficiência das equipes. Foi assim no CSA, em Alagoas, quando levou o clube ao campeonato alagoano em 1982. Também foi assim no Brasil de Pelotas, no Pelotas e, finalmente, no Juventude, no qual teve destaque ao participar de uma série de amistosos no Oriente Médio, trazendo o clube de Caxias do Sul-RS de volta para casa invicto, mesmo após enfrentar grandes clubes e seleções da região.

O bom desempenho trouxe Felipão para o Grêmio pela primeira vez em 1987, quando conseguiu o Campeonato Gaúcho. Mas, técnico ainda em formação, não obteve sucesso além do Estadual. Voltou para o Oriente Médio – Al-Shabab, da Arábia Saudita, e Qadsia SC, do Kuwait, foram os clubes treinados por ele até 1990, quando foi Campeão da Copa do Golfo com a Seleção do Kuwait.

A repercussão ao levar o Criciúma, em 1991, ao título da Copa do Brasil trouxe Felipão novamente para o Grêmio, em 1993, ano de seus melhores resultados como técnico de clubes. Obteve, entre outros títulos, a Copa do Brasil de 1994, a Copa Libertadores no ano seguinte e o Campeonato Brasileiro em 1996. Além disso, foi vice-campeão do Mundial de Clubes com o Grêmio contra um Ajax que era base da Seleção Holandesa da época.

Foto: o povo online | Felipão, campeão da Libertadores de 1995 com o Grêmio.

Foto: o povo online | Felipão, campeão da Libertadores de 1995 com o Grêmio.

O destaque no trabalho de Felipão é a facilidade de pegar um clube pequeno, um elenco limitado, com qualidade duvidosa, e levar longe. Isso se deve, conforme citado no início deste texto, ao trabalho duro nos treinos e à forma de tratamento dos jogadores. Felipão consegue, através do seu “jeitão” simples e debochado, trazer os jogadores para si e criar um vínculo com os seus comandados. Quando não é capaz de estabilizar o ambiente desta forma, o trabalho não flui. Foi assim no Chelsea, em 2008, por exemplo.

O Grêmio de hoje em dia é um exemplo de como Felipão pode ser bem sucedido quando o ambiente é favorável. Atletas que não têm uma função defensiva, como o atacante Dudu, marcam os adversários até próximo da grande área gremista. E isso é reflexo do trabalho do técnico.

Além de um conhecedor da “arte da defesa”, o técnico é um sábio no uso das palavras motivacionais, de cobrança ou elogiosas. Felipão consegue se aproximar dos jogadores e fazê-los sentir orgulho em ser parte do grupo. Seus comandados jogam não pelo técnico nem pela camisa que vestem, mas pelos seus companheiros.

Taticamente, Felipão passou pelo 4-2-3-1, encontrou solidez no 4-1-4-1 e retornou ao “esquema da moda” porque precisava de mais homens criando. No Gre-Nal, Giuliano atuou no centro com Dudu e Rodriguinho abertos. A derrota por 2×0 mostrou que o time precisava de reparos. Sem um lateral esquerdo, Felipão testou Zé Roberto por ali na vitória sobre o Criciúma, além do 4-1-4-1, que apareceu pela primeira vez no time. Mantendo a formatação, o Grêmio vendeu caro a derrota para o Cruzeiro.

Contra o Corinthians, Giuliano apareceu como “interior esquerdo” no meio-campo e não foi bem. No duelo contra os baianos, o Grêmio iniciou a fantástica série, que dura até hoje, com Geromel ao lado de Rhodolfo, Ramiro, Biteco (Wallace) e Felipe Bastos no meio e muita solidez defensiva. No Maracanã contra o Fla, Giuliano ganhou nova chance e novamente foi mal. A solidez defensiva se manteve e o tento de Fernandinho no fim deu a vitória.

O 4-1-4-1 do Grêmio, usado para dar solidez defensiva e garantir oito jogos sem sofrer gols.

O 4-1-4-1 do Grêmio, usado para dar solidez defensiva e garantir oito jogos sem sofrer gols.

Jogos duros contra Atlético-MG e Fluminense, ambos foram de casa, voltaram a testar a força do time, que defensivamente seguiu ileso, mas recebeu críticas por ser previsível e isolar Barcos ofensivamente. Com isso, Felipão teve uma ideia: retirar Dudu e Luan dos lados, ora um ora outro centralizava, abrindo o corredor direito para Ramiro. O 4-1-4-1 que virou 4-2-3-1, com Ramiro formando um trio de meias e trazendo mais força e presença ofensiva ao time. Resultado: Barcos artilheiro! A derrota para o São Paulo mostrou um Grêmio intenso, mas que tropeçou no forte time do São Paulo. Que mesmo desfalcado mostrou garra e superação.

Renovado após os 7×1, Felipão mostra que não está tão ultrapassado como todos nós acreditávamos. Mas ainda resta a dúvida: por que não teve a seleção a solidez que tem o Grêmio? Nunca saberemos. Enquanto isso, o tricolor vem forte para o ultimo terço do campeonato.

Com a subida de Ramiro e Luan ocupando o centro o Grêmio migrou para o 4-2-3-1, pois precisava de mais gente armando o jogo.

Com a subida de Ramiro e Luan ocupando o centro o Grêmio migrou para o 4-2-3-1, pois precisava de mais gente armando o jogo.

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Estudante de jornalismo. Redator e editor no Taticamente Falando. Colunista no Doentes por Futebol. Contato: [email protected]