Berahino: a trajetória de um sobrevivente

 Quem acompanha a Premier League certamente sabe quem é Saido Berahino, jovem de 21 anos e grande destaque de um modorrento West Bromwich Albion. Aqueles que se acercam ainda mais do futebol bretão também o conhecem por seu extenso currículo nas Seleções Inglesa de Base (passando pelos escalões sub-16, 17, 18, 19, 20 e 21). O que poucos sabem são as condições e dificuldades pelas quais o hoje bem sucedido autor de 8 gols em 11 jogos na temporada 2014-2015 passou em sua acidentada trajetória de vida.

Que Berahino não é um sobrenome inglês é mais do que óbvio. Todavia, considerando a grande diversidade de pessoas que vivem na Terra da Rainha – e, naturalmente, seus descendentes -, o nome da família não é um fator determinante da nacionalidade. Apesar disso, o garoto não tem relações originárias com a Inglaterra. A primeira lufada de ar que pôde respirar aconteceu no paupérrimo e conflituoso Burundi, também notabilizado por ser o oitavo país com o pior IDH do mundo (180º colocado, conforme o ranking de 2013).

A despeito da peculiar pobreza que assola todo o continente africano, a nação que concebeu Berahino sofre com outra peculiaridade: o conflito étnico-político-social entre tutsis e hutus (etnias diferenciadas durante o período colonial), exposto pela brilhante película “Hotel Ruanda” – na qual estrelou Don Cheadle. Criado em uma realidade de Guerra Civil, perdeu o pai em 1997, na mais tenra idade. Entretanto, os efeitos do conflito não se viram apenas nesse evento.

Foto: maps.com - Berahino vem de um país muito pequeno, pobre e violento

Foto: maps.com – Berahino vem de um país muito pequeno, pobre e violento

Em decorrência do conflito, Berahino se perdeu de sua mãe, que, de alguma forma – que nem o próprio atacante sabe definir bem -, desembarcou na Inglaterra. E foi aí que a vida de um futuro atacante titular de uma equipe da Premier League começou a mudar. Sem saber o paradeiro de sua genitora, o camisa 18 dos Baggies, junto com um amigo e desconhecendo a língua inglesa também partiu para a Inglaterra. Seu destino? Birmingham.

“Na África, para as crianças, não é como aqui onde elas dizem: ‘mamãe e papai, o que estamos fazendo?’ Você não pode dizer isso na África. Você só tem que seguir o que seus pais estão fazendo. Você não faz perguntas. As coisas simplesmente acontecem. (…) Nos perdemos (Berahino e sua mãe). Isso certamente teve a ver com a guerra civil e minha mãe buscando uma vida melhor para seus filhos. De alguma forma, minha mãe chegou na Inglaterra. Quando eu cheguei, com um amigo, eu não sabia onde minha mãe estava. Eu fui para um abrigo onde fui bem tratado,” lembrou o atacante.

Mãe e filho só puderam estar juntos novamente após testes de DNA. Em uma das ocasiões, em Londres, enquanto fazia tais exames, se reencontraram. Todavia, só após a confirmação do parentesco, Berahino pôde voltar para sua mãe. Desde então, sua vida foi guiada pelo futebol, por sua religiosidade e pelo desejo de dar o seu melhor em memória de seu pai, cujas circunstâncias da morte ele sequer pergunta à mãe. O atleta prefere não permitir que as memórias de páginas sangrentas e recheadas de desespero de sua vida se refresquem.

Samuel Eto'o, Didier Drogba e Jermain Defoe são referências para o garoto

Samuel Eto’o, Didier Drogba e Jermain Defoe são referências para o garoto

Voltando para as quatro linhas, Berahino chegou ao West Bromwich aos 11 anos e revela que sequer sabia o que estava fazendo. Todavia, também ressaltou três grandes referências de ataque, que sempre gostou de observar, dois deles africanos.

“Eu não fazia a menor ideia do que eu estava fazendo. Eu só estava correndo, marcando gols e todos falavam ‘é, é, você é um grande jogador, blá, blá, blá’. Mas, quando eu cheguei ao West Brom, foi como ‘você precisa fazer essa corrida, você precisa prender a bola, você precisa de dois toques.’ Isso se tornou um pouco técnico demais para mim. Eu precisei de três anos antes da categoria sub-15 para entender o jogo propriamente, ainda que não completamente. (…) Sempre assisti Samuel Eto’o, Didier Drogba e Jermain Defoe por causa de sua movimentação e da forma como finalizam.”

Para ele, o futebol não foi apenas a salvação de sua vida, mas é também parte de seu cotidiano, em que a rivalidade entre Arsenal e Manchester United está sempre presente.

“Ela (a mãe) torce para o Arsenal e eu para o United. Quando Arsenal e United se enfrentam, há momentos divertidos na nossa casa. (…) Com o futebol, estou fazendo isso pelo meu pai. Sei que ele estava olhando por mim no céu. Ele ficaria entusiasmado. Deus está me guiando. Deus me protege. Meu pai é um dos anjos que está feliz e sorrindo.”

Arte: Doentes por Futebol | Após marcar dois gols pela Seleção Inglesa Sub-21, Berahino homenageou seu pai.

Arte: Doentes por Futebol | Após marcar dois gols pela Seleção Inglesa Sub-21, Berahino homenageou seu pai.

Após empréstimos ao Northampton Town, Brentford e Peterborough e uma temporada 13-14 irregular no WBA, Berahino finalmente entrou nos trilhos. Conquanto jogue em uma equipe que privilegia um estilo de jogo mais fechado e duro, apostando muito nas bolas paradas do capitão Chris Brunt, ao lado de Stéphane Sessègnon, o atacante dá doses importantes de imprevisibilidade e velocidade à equipe. Seus gols têm sido o grande alento para o torcedor, que viu sua promessa ir às redes contra Liverpool e Manchester United.

Em ascensão, não é absurdo cogitar um chamado para a Seleção Principal da Inglaterra, que sempre apresenta bons valores, mas nunca emplaca. Ainda assim, certo é o fato de que o garoto é um sobrevivente e um vitorioso. Não importa o que aconteça com sua promissora trajetória, os desafios que já superou valem muito mais do que alguns gols, a fama e o sucesso advindos do esporte. Berahino é exemplo.

https://www.youtube.com/watch?v=QJp7d5xIPHk

Atualização em 06/11/2014:

Com sete gols marcados na Premier League, estando em terceiro lugar na artilharia, Berahino foi chamado por Roy Hodgson para os jogos contra Eslovênia e Escócia pelas Eliminatórias da Euro 2016. Sobre a convocação do jovem atacante, Hodgson afirmou:

“Já estávamos pensando em Berahino, mas não o convocamos antes porque ele tinha de jogar partidas importantes pela seleção sub-21. Agora, não há razão para não considerar sua chamada de novo.”

Berahino, via Twitter, ofereceu a convocação à sua mãe, mostrando sua gratidão:

Capturar;

Momento mágico contra o Chelsea
(18/05/2015)

Para coroar a boa temporada de Berahino pelo Albion, caberia ao jovem marcar um belo gol e sofrer – convertendo em seguida – um pênalti contra o campeão Chelsea. A vitória do West Bromwich (3 x 0) encerrou a sequência de 16 jogos invictos dos Blues.

A temporada 14/15 definitivamente será inesquecível para Saido Berahino:

https://www.youtube.com/watch?v=4WauFtpfVdU

https://www.youtube.com/watch?v=ypfwa7WX2Rw

 

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.