Marcelo Bielsa: o homem que fez o Marseille jogar

A temporada 2013/2014 parecia promissora para o Olympique de Marseille. Mesmo sem possuir o aporte financeiro do Monaco, de Dmitri Rybolovlev, e do Paris Saint-Germain, de Nasser Al-Khelaifi, o único francês campeão da Europa havia feito bons investimentos na janela de transferências que abriria a Ligue 1. Ao todo, 42 milhões de euros haviam sido gastos no período. Entre os principais investimentos, estavam Florian Thauvin (14 milhões) e Dimitri Payet (8 milhões), sem contar jovens expoentes de times de divisões inferiores, como Benjamin Mendy e Giannelli Imbula.

O início até foi empolgante e o OM somou 17 pontos nos primeiros 8 jogos da temporada (70,8% de aproveitamento). O time, então comandado por Élie Baup, fora derrotado apenas uma vez no Campeonato Francês e parecia que brigaria pelo título nacional. Porém, os últimos três meses de 2013 foram tenebrosos para o Marseille. Dos 11 jogos realizados na reta final da primeira metade da temporada, apenas 12 pontos foram somados (36,3% de aproveitamento). As raras derrotas se multiplicaram, especialmente em casa, onde perdeu três. O tropeço por 2×1 diante do Nantes, em dezembro, provocou a queda de Baup e o início da derrocada da equipe.

Jose Anigo, até então diretor de futebol do clube, assumiu o comando técnico e foi um desastre. Criticado por imprensa e torcida, perdeu o cargo. Até o fim da temporada, o OM não foi capaz de emendar três vitórias consecutivas, coisa que havia feito no comecinho dela.

Uma chacoalhada era necessária para 2014/2015. Com o Vélodrome prestes a ter reforma concluída, mas com dinheiro em falta, os altos investimentos ficaram de lado. O foco do presidente Vincent Labrune saiu dos jogadores e partiu para a cabeça pensante da casamata do OM. O escolhido foi Marcelo “El Loco” Bielsa.

Foto: OM.net

Foto: OM.net

Em apenas dez jogos no comando do maior campeão francês, o argentino já começa dar sua cara ao time. O Marseille lidera a Ligue 1 com 25 pontos, 7 de vantagem para o Paris Saint-Germain, vice-líder da competição. Foram 8 vitórias em 10 jogos, o melhor ataque com 25 gols marcados, segundo melhor mandante com 12 pontos em 15 disputados e invicto fora de casa.

O impressionante do início produtivo do OM é que o time passou por um período de transição, mesmo em um curto espaço de tempo na temporada. Nos primeiros jogos do campeonato, Bielsa tentou implantar o 3-4-3 que utiliza há muito tempo. A ideia até surtiu algum efeito e o Marseille somou 7 dos primeiros 12 pontos disputados. Porém, apesar dos 8 gols marcados nesse período, o time de El Loco viu os adversários anotarem cinco tentos. A partir da 5ª rodada, Bielsa passou a utilizar o 4-3-3 e só venceu desde então. Essa alternância ocorreu sem o argentino precisar sequer alterar a formação inicial, o time titular é o mesmo desde a 2ª rodada.

Foto: L'Equipe - O Marseille na 1ª rodada

Foto: L’Equipe – O Marseille na 1ª rodada

Foto: L'Equipe - O Marseille nas oito rodadas seguintes

Foto: L’Equipe – O Marseille nas oito rodadas seguintes

O OM acumula oito vitórias consecutivas no Campeonato Francês. É apenas a terceira vez na história que o Marseille consegue fazer isso! A primeira oportunidade em que emendou oito triunfos seguidos foi entre janeiro e abril de 1937, e a segunda foi entre setembro e novembro de 1998. Em 1937, essa série vitoriosa surtiu efeito e o time do litoral da França foi campeão nacional com 38 pontos (mesma quantidade do Sochaux, mas com saldo de gols superior). Em 1998, entretanto, não adiantou tanto e o time, à época de Laurent Blanc, Christophe Dugarry e Fabrizio Ravanelli, teve que se contentar com a 4ª colocação com 57 pontos, 11 atrás do campeão Lens.

O desempenho vem empolgando também o torcedor. No último dia 19 de outubro, 61.846 pessoas foram ao estádio Vélodrome assistir a vitória por 2×0 sobre o Toulouse. Este foi o maior público da história do estádio, superando os 59.120 que assistiram Austrália x Inglaterra, pela Copa do Mundo de Rúgbi em outubro de 2007. Hoje, o Marseille tem a melhor média de público do Campeonato Francês, com 51.336 torcedores por jogo, acima do rival PSG, que tem média de 45.521 torcedores por partida.

Fator Gignac

Um dos responsáveis por provocar esse ânimo extra é o centroavante André-Pierre Gignac. O atleta de 29 anos já vinha de boas temporadas, tendo marcado 16 e 13 gols nas últimas duas, mas a chance de quebrar o recorde pessoal nesta temporada é grande. Em 10 jogos, Dedé têm 10 gols, é o artilheiro máximo da competição.

Gignac vem mostrando atributos que já mostrava antes, só que agora amplificados por um sistema de jogo favorável: bom posicionamento na grande área, potente chute de pé direito, movimentação e abertura de espaços pelo lado esquerdo e raciocínio rápido nas tabelas ofensivas.

A participação efetiva de Dedé na grande área é registrada nos números: 8 de seus gols saíram de dentro da área. Além disso, 5 tiveram assistência de algum jogador. Aliás, dos 5 passes, 3 foram do lateral-esquerdo Benjamin Mendy, atleta recuperado por Bielsa.

Vindo da vangloriada academia de atletas do Le Havre, Mendy teve turbulenta temporada inicial no Marseille. Precisando jogar mais do que o esperado (o titular Jérémy Morel conviveu com lesões), sentiu a pressão da fase ruim e falhou em vários jogos. Hoje é peça chave de El Loco.

Bielsa utiliza o lateral Morel na zaga e promove constantes mudanças de posição na defesa para auxiliar o jogo ofensivo de Mendy. Enquanto o jovem de 20 anos avança, Morel cobre seu espaço e o efetivo volante Alaxys Romao fecha o meio de zaga. Ou seja, o titular da lateral esquerda do OM consegue ser efetivo no ataque sem comprometer na defesa graças a um sistema de jogo que o auxilia.

Outro atleta que cresceu nas mãos de Bielsa foi o meio-campista Giannelli Imbula. Após começar bem a temporada passada, o volante caiu muito de produção (como todo o time) e alternou entre o time titular e reserva. Com o técnico argentino tem mostrado cada vez mais a característica que lhe deu destaque no Guingamp: boa marcação e passadas largas ao ataque. É o que chamamos de “box-to-box”.

O ressurgimento desses atletas, mais a fase esplendorosa de Gignac, é apenas um complemento a eficácia de nomes já conhecidos como Florian Thauvin, Dimitri Payet, Nicolas N’Koulou, Steve Mandanda e André Ayew, que precisaram de uma “loucurinha” para finalmente renderem juntos no OM.

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Uma mistura maluca de pessoa. Academico de jornalismo, catarinense de origens italianas e espanholas, mas apaixonado pela bola que rola na terra da Torre Eiffel e pela gorduchinha que pinta os gramados cheios de chucrute da Alemanha. Não escondo minha preferência por times que tem uniformes nas cores amarelas e pretas, mas sempre com análises bem embasadas... ou não. Mas acima de tudo, sou um Doente Por Futebol.