O Galo de Levir

#457461540 / gettyimages.com I Levir mudou a cara do Galo

Por O Futebólogo

Depois de um início de ano turbulento, com a transição de comando (saiu Cuca, após duas temporadas e meia, e entrou Paulo Autuori), que contou com uma fraca campanha na Copa Libertadores da América e a perda do título estadual, o Atlético apostou em um velho conhecido para a solução de seus problemas. Em sua quarta passagem pelo lado alvinegro das Minas Gerais, Levir Culpi voltou e, apesar das inúmeras dificuldades, está fazendo um trabalho de boa qualidade.

Desde sua chegada, as coisas não foram fáceis. Contratado às pressas e às vésperas da decisiva partida da Copa Libertadores da América – que terminou em eliminação para o Atlético Nacional –, Levir foi muito contestado em seu início. Considerado ultrapassado por parte da torcida, que o viu peitar as duas maiores estrelas do elenco – R10 e Diego Tardelli –, o comandante dividiu os torcedores. Alguns, com base no sucesso de suas outras passagens pelo clube, se encheram de expectativas; outros desconfiaram de um treinador que, há sete anos, estava no marginal futebol japonês.

Com um time acomodado e aparentemente desmotivado, o início foi complicado. Nos três primeiros jogos, duas derrotas, um empate e a eliminação da Libertadores alarmaram o público. Todavia, a situação começou a se abrandar no quarto encontro, com a vitória no clássico contra o Cruzeiro e os sequentes triunfos frente ao Santos e ao Vitória. Pouco depois, Levir levou o Galo ao título da Recopa Sul-Americana frente ao Lanús e viu o ciclo de R10 se encerrar no clube.

Foto: Bruno Cantini/CAM - Com a providencial entrada de Luan, o Galo bateu o Lanús e conqusitou a Recopa

Foto: Bruno Cantini/CAM – Com a providencial entrada de Luan, o Galo bateu o Lanús e conqusitou a Recopa

No Campeonato Brasileiro, com uma derrota aqui e um empate acolá, mas somando muitas e importantes vitórias (sobretudo com a força do Horto), o time voltou a dar esperanças ao torcedor, que tem acompanhado de perto as constantes mudanças na equipe titular por motivos que fogem ao controle do treinador.

No último encontro pelo Brasileirão, frente ao São Paulo, o Galo teve 14 desfalques (!) e, mesmo assim, saiu vitorioso e está no G4. Entre atletas lesionados, selecionáveis e fora por motivos disciplinares, Levir não pôde contar com Giovanni (G), Réver (Z), Leonardo Silva (Z), Emerson (Z), Pedro Botelho (LE), Emerson Conceição (LE), Douglas Santos (LE), Rafael Carioca (V), Claudinei (V), Pierre (V), Lucas Cândido (V), Guilherme (M), Jô (A) e o principal: Diego Tardelli (A).

Embora o time venha sofrendo alterações estruturais jogo a jogo, já mostra cara definida. Um estilo de muita luta, dedicação e consciência tática foi empregado na equipe. Apesar de vir jogando com menos jogadores de marcação, a equipe, como coletivo, tem se superado neste quesito.

Um retorno de lesão foi, sem sombra de dúvidas, vital para este momento. Leandro Donizete, verdadeiro leão, agrega ao time, além de suas qualidades técnicas, um espírito e uma motivação ímpar. Outro ponto a se ressaltar é a atenção que Levir tem dado às funções táticas de cada jogador.

Hoje, o Atlético tem um armador, figura cada vez menos presente em meio à tendência dos jogadores box-to-box. O argentino Jesús Dátolo tem se sacrificado muito pelo time e sido importantíssimo na criação das jogadas e controle do meio-campo. E com a movimentação dos jogadores de frente, sobretudo, Carlos, Tardelli e Luan, o time tem fluido. Douglas Santos, promissor lateral esquerdo, tem sido outra aprazível surpresa, demonstrando qualidades ofensivas e defensivas e muito fôlego no problemático flanco, que há muito sofre.

Aliás, outros dois pontos a se observar são a forma técnica vivida pelo artilheiro do Galo no Brasileirão e duas felizes alternativas encontradas pelo treinador. Tardelli tem feito de tudo e voltou a marcar muitos gols, não à toa retornou à Seleção Brasileira; jovens, Jemerson e Carlos assumiram a titularidade diante das dificuldades e têm se mostrado gratas surpresas, cada vez mais maduras. O zagueiro apresenta calma e posicionamento notáveis e o atacante, dedicação e oportunismo importantes.

#458873928 / gettyimages.com I Jemerson é uma das gratas surpresas do time

Todavia, nem tudo são flores e a insistência do treinador com o atacante André tem levado alguns torcedores a perder a paciência. Ainda assim, isso é uma gota no oceano. Seus feitos são notáveis. Manejar uma equipe com tantos desfalques (o número tem variado, mas quase sempre são mais de 10 baixas) e leva-la a briga nas cabeças não é para qualquer um. Outra questão é a terrível fase de Jô, que já chega a seis meses sem gols. Com esse quadro, alguma oscilação é inevitável, mas não pode ser levada tão a sério.

Ao todo, já são 33 jogos nesta passagem, contabilizando-se 17 vitórias, oito empates e oito derrotas (apenas uma em casa, e só duas com mais de um gol de diferença).

Fora do campo, Levir também agiu, extinguindo a concentração para os jogos em casa. Dando responsabilidade exclusiva aos jogadores sobre o que farão às vésperas das partidas, o treinador ganhou seu respeito e os ajudou a ter mais tempo em casa, minorando os efeitos do maluco calendário do futebol tupiniquim.

Seja como for o fim da temporada para o Galo, não se pode negar a mudança de trajetória que Levir Culpi trouxe ao ano que muitos já consideravam perdido. Neste meio de semana, o alvinegro terá mais uma prova de fogo, brigando com o Corinthians por uma vaga nas semifinais da Copa do Brasil, com uma desvantagem de 2×0 no placar. Considerando o bom trabalho que está sendo feito e a força do torcedor, a classificação, embora difícil, não é impossível.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.