O “Incaível” Wigan

  • por Matheus Mota
  • 7 Anos atrás
O vôo do Wigan na Premier League foi mais longo do que se esperava, e enquanto esteve na elite, o clube conquistou a FA Cup. Foto - Reprodução

O vôo do Wigan na Premier League foi mais longo do que se esperava, e enquanto esteve na elite, o clube conquistou a FA Cup. Foto – Reprodução

É inegável que o futebol inglês exala tradição, e, mesmo com o estabelecimento da Premier League e a polarização vista atualmente, ela continua de pé, seja pelo fato de muitos clubes serem vencedores de torneios expressivos ou simplesmente por terem ultrapassado a marca de 100 anos. Por tudo isso, a presença do Wigan na 1ª Divisão causava estranhamento. O clube da zona metropolitana de Manchester nunca foi grande coisa, e não possui marcas de destaque nas divisões de acesso ou até mesmo nas copas. Outro ponto é que sua torcida não era das maiores, e ver o DW Stadium sem lotação máxima era algo frequente, em um campeonato que é sucesso em média de público (cabe salientar que a média de público do Wigan, tida como ruim para os padrões ingleses, beirava 20 mil pessoas). Mas, contra todas as expectativas, os Lactics se mantinham na elite, conseguindo triunfos mais do que surpreendentes quando menos se esperava.

Dois nomes tiveram suma importância nesse processo: David Whelan e Roberto Martínez. O primeiro, Whelan, é um empresário do ramo de equipamentos esportivos, que tendo crescido em Wigan, nunca escondeu que torcia pelo time da cidade. Quando jovem, era jogador de futebol, mas não obteve muito destaque, sendo conhecido basicamente por ter quebrado a perna após uma dividida durante a final FA Cup de 1960, em que seu clube, o Blackburn, perdeu de 3×0 para o Wolverhampton, muito por conta da ausência de substituições, forçando o Blackburn a jogar com 10 homens. Depois disso, alternou entre a vida de negócios no mercado central da cidade e uma passagem pelo Crewe Alexandra, até que optou por ficar definitivamente com os negócios, e por uma série de eventos acabou no ramo que o deixaria milionário: equipamentos esportivos.

Em 1995, Whelan se tornou proprietário do clube, colocando uma quantia de dinheiro considerável, o suficiente para trazer o segundo citado, Martínez, até então um jovem volante que penava nas divisões de acesso da Espanha. A parceria deu certo, tanto que Martínez ficou seis temporadas na equipe (de 96 até 2001), pela qual disputou quase 200 partidas, em um período em que o time engatou bons resultados nas divisões inferiores, e já ensaiava o grande salto para a elite, que ocorreu em 2006.

Aqui, um adendo: separaremos os anos de Premier League em dois períodos, um de 2005/6 até 2008/9, e outro de 2009/10 até 2012/13 por uma série de fatores. Primeiramente, a melhor colação do Wigan na elite, um 11º lugar, foi obtida logo em sua estreia, sob o comando de Paul Jewell, que ficaria na equipe até 2007/8. Na temporada em questão, o clube teve três técnicos: Chris Hutchings, Frank Barlow e Steve Bruce, sendo que o último ficou para 2008/9. Foi na temporada seguinte que chegou Roberto Martínez, dando início ao segundo período da trajetória do clube na PL. Essa separação foi feita pelo fato de, entre as duas eras, a filosofia de futebol do clube ter mudado radicalmente.

No primeiro ano de Premier League, a diretoria procurou fazer uma mescla entre atletas de certo destaque no cenário nacional com jogadores tidos como promissores em outros centros. Dessa leva, atletas como os atacantes Henri Camara e Heskey e os meias Kilbane e Antônio Valencia foram alguns dos pilares do Wigan, tudo sob o comando de Paul Jewell, técnico que teve um papel de destaque na história da agremiação. Tendo chegado em 2001, levou a equipe ao título da 3ª Divisão logo em seu segundo ano como manager, e conseguiu o acesso para a 1ª Divisão dois anos depois. Como já foi dito, foi nesse primeiro período, com Jewell como técnico, que o clube não só alcançou sua melhor colocação na elite, como chegou na final da Copa da Liga, a qual terminou com o vice, sendo superado pelo Manchester United por 4 x 0.

Os anos seguintes não foram tão marcantes, com três técnicos em duas temporadas que conseguiram “apenas” a permanência na elite. Para 2009/10, a diretoria trouxe para o comando técnico um nome com identificação com o clube: Roberto Martínez, que vinha de bons trabalhos no Swansea nas divisões de acesso e que começou uma segunda era no Wigan. A presença de Martínez no comando foi logo sentida, com a adoção de um estilo de jogo de orientação ofensiva, que prezava pela posse de bola. No período anterior a ele, a proposta do time, independente do técnico que estivesse à frente, era mais conservadora, o que não é algo condenável (nenhum time montado por Jímenez teve a defesa tão boa quanto nos anos anteriores, e em relação ao ataque, verdade seja dita, o desempenho do Wigan sob a batuta do espanhol não era tão superior assim). Mas como já foi dito, os Lactics teriam um estilo de jogo único na Inglaterra, mais alinhado ao que se via na Espanha.

Um time de pequeno orçamento adotar essa tática é arriscado, e as goleadas eram frequentes, sendo as de 8×0 e 9×1 contra Chelsea e Tottenham, respectivamente, as mais pesadas. Ainda assim, o Wigan empolgava com sua proposta de apresentar um futebol jogado de maneira fluida, e conquistava vitórias categóricas contra adversários de mesmo porte ou até mesmo superiores. Cm essa filosofia de jogo, o objetivo de permanecer na elite era alcançando, às vezes de maneira segura, às vezes nem tanto. Além disso, o toque do espanhol pôde ser visto na contratação de reforços pontuais, que se destacaram no time durante seu comando.

Na defesa, as presenças do zagueiro escocês Gary Caldwell (que é o atual capitão do time) e do goleiro omanita Al-Habsy (possivelmente o jogador de mais renome do Omã) foram fundamentais. No meio, o hondurenho Figueroa cuidava da parte defensiva, e tinha algum talento para construir, coisa que sobrava no espanhol Jordi Gómez. Transitando entre o meio e a frente estava o colombiano Rodallega, que em certos momentos chegou a ser o principal atacante do time. Na frente, o papel de referência nunca foi fixo. Por exemplo, nos dois primeiros anos de Martínez no comando, o já citado Rodallega foi o artilheiro (em 2010/11, a artilharia foi dividida com N’Zogbia). Em 2011/12, o argentino Di Santo foi o artilheiro, e no último ano do clube na elite, o homem-gol foi Arouna Koné, o craque da camisa 2. Dos nomes que viveram os dois períodos, é fácil mencionar o lateral direito Boyce, que chegou em 2006 e está no clube até hoje, com aproximadamente 270 partidas disputadas (e contando).

A cereja do bolo veio com o título da FA Cup, em 2012/13, conquistado em cima do multimilionário Manchester City, com um gol de Watson aos 46 do 2ª tempo. No entanto, 72 horas após essa heroica conquista, a equipe foi rebaixada com uma derrota de 4 x 1 ante o Arsenal, em Londres, tornando-se o único time que foi rebaixado no mesmo ano em que ganhou a FA Cup.

Após o descenso, Martínez, e outros jogadores, como Koné e Rodallega, por exemplo, foram embora para fazer a carreira em clubes maiores. Os que ficaram já foram mencionados, assim como David Whelan segue firme na presidência.

O Wigan é um caso atípico no futebol inglês, pois sua tradição foi construída durante os anos de elite, por ser a equipe “incaível”, por ter conquistado um título de maneira extremamente improvável, e por ser uma equipe divertida de se ver, pois havia a certeza de que com o Wigan em campo, não haveria placar em branco. Para se ter ideia disso, em 4 anos com Martínez no comando, houveram apenas 8 jogos em que o resultado foi um empate sem gols, e como parâmetro de comparação, na temporada 08/09 foram 6 os empates sem gols. Contrariar as expectativas e jogar um futebol ofensivo: é possível afirmar que esse foi o maior legado do Wigan para o futebol inglês.

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Paulista e torcedor do Santo André. Historiador, acompanha o futebol como um todo, mas sobretudo o lado mais alternativo da coisa.